• Matheus Soares

Zeca Camargo: “Para tempos como esses, Elza. A dose agora é dobrada.”

No dia 28 de abril de 2019, no Espaço Cultural da Urca, aconteceu a palestra com o jornalista, apresentador e escritor Zeca Camargo. Uma oportunidade de acompanhar o trabalho de uma respeitável personalidade e, ainda, de conhecer um pouco da história de Elza Soares. Você pode assistir a palestra por aqui.


Com passagens por grandes veículos de imprensa do Brasil, Zeca é quem escreveu a biografia da cantora, lançada em novembro de 2018 pela editora Leya. A palestra é parte de uma das centenas de atividades promovidas pela Flipoços 2019, um festival literário com palestras de diversos temas e participações de grandes escritores e escritoras.


A explanação de Zeca contou como ocorreu todo o processo de escrita, que exigiu dezenas de longas entrevistas, realizadas na casa de Elza. “A minha tarefa era reapresentar essa mulher para o grande público”, ressalta. O desafio, segundo ele, era envolver o leitor sem perder o padrão cronológico da história.

Foto: Tatiana Esposito

Para Elza, Zeca não deveria escrever sua biografia. O jornalista relata essa história com muito bom humor. Segundo ele, seu trabalho era o segundo melhor na avaliação da artista. Ruy Castro, escritor e também biógrafo, era seu preferido. "Que luxo perder para o Ruy", exalta o apresentador do É de casa, da TV Globo.


A história da artista é intensa e não está perto do fim. A complexidade da obra deve-se, sobretudo, a esse fato. Sua carreira percorre períodos históricos do país e envolve criticamente evoluções do pensamento humano. Elza se lembra de quase tudo, lembra o biógrafo. “A memória dela é prodigiosa”.


Diretamente, Elza nunca se envolveu com nenhum partido político. "Ela é uma mulher com uma ideia. Ela é o partido dela. Ela tem opiniões." Zeca relembrou em sua fala as dificuldades que sua biografada encontrou no início da carreira, tendo que frequentar, para atingir seus objetivos, ambientes machistas e preconceituosos.


Fazer sucesso antigamente era muito mais difícil. Tempos onde o Youtube era o rádio, a TV er os teatros e a internet era o boca-a-boca. O contexto da época ainda inibia a aparição de cantores e cantoras negras, situação que fez de Elza uma mulher ainda mais forte.


Nas redes sociais, Elza é intimidada constantemente. Quando escreveu um texto falando sobre o assassinato de Marielle Franco, por exemplo, recebeu centenas de ameaças. Com espírito cômic, teria dito a Zeca: “Tem uma coisa legal. Elzinha, 87 anos, ainda incomoda muita gente, né.”


Zeca lembra que a influência da cantora se modificou ao longo do tempo. Hoje, torna-se ainda mais importante. A participação de jovens em seus shows é crescente, fato que mostra a importância do discurso que profere em suas letras. “Elza fala o que as pessoas precisam ouvir", sentencia o autor.


O álbum Mulher do Fim do Mundo está, segundo Zeca, entre os melhores álbuns já lançados pela música brasileira. “A ressonância é incrível. Todo mundo pára pra ouvir.”

Zeca encerrou sua palestra respondendo a perguntas da plateia, enfatizando a importância da narrativa que a cantora vem construindo ao longo dos anos. “Elza tem essa particularidade. Ela é presciente. Para tempos como esses, Elza. Para tempos de calma, Elza também. A dose agora é dobrada”, finaliza Zeca.


Ah, Zeca também revelou essa deliciosa história de Elza e Louis Armstrong.


Perguntado sobre o que teria ficado de fora da obra, respondeu:


“Os próximos dez anos. Porque ela não vai sossegar.”

Foto: Cíntia Cruz

Matheus Soares é publicitário, formado pela PUC Minas Poços de Caldas e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social.




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