• Ana Carolina Branco

Turismo para não turistas

Quanto você acha que conhece a própria cidade? Duas situações recentes me fizeram refletir sobre nossa relação com o lugar que habitamos. Em uma conversa com um amigo, que reside em Poços de Caldas há 52 anos, este me confidenciou que nunca havia visitado a Fontes dos Amores. Já em outra ocasião, me peguei observando turistas que passeavam pela praça Pedro Sanches. Me atentei ao olhar de deslumbramento, a forma como queriam ser fotografados com cada arvorezinha que encontravam e o interesse em conhecer mais sobre a história dos pontos turísticos.


Há uma tendência, geral, de se valorizar aquilo que é de fora. Nas artes, nos esportes, nas marcas consumidas e, inclusive, nas viagens. Basta verificar como estamos habituados a priorizar o telejornal nacional, do que o local. Conhecemos o macro e desconhecemos aquilo que está tão pertinho e mais acessível.

Uma cidade, na definição formal, é uma aglomeração humana localizada numa área geográfica delimitada. Mas, na prática, é o cenário em que a maioria das experiências de vida ocorrem. É onde se trabalha, se estuda, se locomove, se faz amigos, se relaciona. Conhecer a sua cidade é buscar pertencimento da própria história. A arquitetura dos prédios, o zelo (ou a falta dele) com os pontos turísticos, as formas de transporte coletivo, os tipos de atrações de lazer, tudo diz muito sobre a população que ali vive.



#Enxergandocompalavras: foto da Thermas Antônio Carlos, focando a área lateral, com destaque para o relógio de ponteiroo


Que tal, essa semana, viver a sua cidade com a postura de turista? Para isso, não é necessário sair da rotina e nem tirar férias. Basta praticar a observação atenta e realizar cada tarefa do seu cotidiano sem estar no modo automático. Compartilho abaixo uma pequena parte da lista de coisas que me fazem enxergar Poços de Caldas com os mesmos olhinhos deslumbrados dos turistas:


- Os ipês floridos, que enfeitam as ruas com suas cores em toda primavera;

- E não precisar esperar a primavera para ver outras tantas flores, como no Calendário e no Relógio Floral;

- Aliás, é uma tarefa bem difícil olhar algum quarteirão aleatório e não enxergar algum verde, sejam pelas árvores nas calçadas ou pela serra de São Domingos, que "abraça" a cidade;

- Encontrar pequenos lugares que resistem ao tempo e à modernidade propositalmente, como a mercearia que ainda vende fiado;

- Desfrutar de várias fontes de água na região central e poder encher uma garrafinha com facilidade;

- O fato de as pessoas serem bem ativas aqui, e a qualquer hora do dia, estão caminhando e pedalando na ciclovia;

- Ter parques para confraternizar a céu aberto;

- E ter também opções de entretenimento para todas as idades, gêneros e gostos, mesmo sem nada no bolso, só o dinheiro da passagem de ônibus e olhe lá.



#Enxergandocompalavras: foto do teto da cabine literária, localizada na rua São Paulo, com a frase "Quando estiver triste, olhe para o céu estrelado e lembre-se que amanhã o sol voltará a brilhar. Leia. Leia muito"


Naturalmente, enxergar as coisas positivas não anula as negativas. No caso de Poços, assim como experimentamos o progresso nas últimas décadas, também notamos decadência em outras. Mas não falta cobertura para esse tipo de pauta.


Não posso deixar de frisar, também, o âmbito cultural da cidade, em que você pode pode usufruir de uma série de atividades gratuitas em qualquer época do ano. Sempre tem coisa boa rolando: no Espaço Cultural da Urca, no Instituto Moreira Salles, no Coreto da Praça Pedro Sanches, no Museu Histórico e Geográfico e na Biblioteca Municipal Centenário. Além disso, cada mês é marcado por eventos tradicionais, como a Flipoços, a Festa de São Benedito, o Julhofest, a Sinfonia das Águas e tantos outros.


Se essa reflexão serviu para você, espero que consiga experimentar a cidade de uma nova forma. E que, mesmo em meio à rotina conturbada, o tédio ceda espaço à novidade.



Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.


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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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