• Matheus Soares

Teses mirabolantes: o vai e vem das conspirações amazônicas

Atualizado: 24 de Set de 2019

Que o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) ganhou destaque recentemente após a divulgação de dados alarmantes sobre o desmatamento na Amazônia você já sabe. Que Ricardo Galvão, diretor da instituição, foi exonerado do cargo por estar envolvido com ONGs, segundo o presidente Jair Bolsonaro, você também se lembra.


Agora, você sabia que o órgão responsável pelo monitoramento da floresta Amazônica foi criado durante a ditadura militar? Sabia que, pasmem, o Brasil passou a fiscalizá-la para destruí-la melhor? Ao longo do texto, apresentaremos essa controversa história.


Enquanto isso...

Tudo que é espalhafatoso recebe uma atenção especial, né? Teorias criadas a partir de devaneios particulares rodam o mundo e ganham adeptos que as seguem veementemente, reproduzindo-as em algum momento da vida. Um expoente das narrativas malucas e estapafúrdias é Olavo de Carvalho, um escritor que tem entre suas ideias a convicção de que Theodor Adorno compôs as canções dos Beatles e de que na bebida Pepsi há resquícios de fetos humanos.


Não é nosso objetivo dar importância a esses... digamos... relatos. Aliás, acredito que um vocábulo definidor de tais histórias é o adjetivo mirabolante, que segundo o nosso dicionário, quer dizer algo muito espetaculoso, uma palavra que contém em seu significado elementos fantasiosos e sem cabimento. Um termo que causa espanto não por sua realização, mas ao contrário, por sua incapacidade de acontecer.


Algo parecido pode ser observado na reportagem As forças ocultas por trás da política do desmatamento, publicada pela revista Superinteressante e produzida por Cláudio Angelo. Nos anos 1970, tomados por uma teoria conspiratória, generais do exército faziam uma gigantesca intervenção na Amazônia com o intuito de colonizar a área com nordestinos. Segundo eles, os homens sem terra povoariam a terra sem homens.


Os novos colonos precisariam apenas cumprir a exigência do governo de derrubar a floresta para formar pastagens. É daí que surge o Prodes, sistema que começou a dar taxas anuais de desmatamento. Uma fiscalização para saber, de fato, se a nova população estava cumprindo com o prometido.


Segundo a reportagem, os generais do Exército Brasileiro acreditavam que utilizando a área para o povoamento, a floresta estaria protegida das invasões estrangeiras. A razão para essa linha de pensamento advém de teses malucas difundidas até hoje e que foram prerrogativas importantes para a construção do plano.

Especialistas afirmam que o estado do Maranhão perdeu 80% de sua área amazônica. Tudo isso em 70 anos. Foto: Agência Reuters. #enxergandocompalavras: imagem vista do alto apresentando o desmatamento em uma das regiões da Floresta Amazônica

Aldeias indígenas que utilizavam o inglês como língua nativa e onde agentes brasileiros não podiam entrar e a história de que nos Estados Unidos a Amazônia era apresentada aos alunos do ensino básico como território internacional eram algumas das compreensões criadas por autores de extrema direita. Atualmente, impulsionado por páginas e perfis que não têm nenhum compromisso com a veracidade dos fatos, o caminho continua sendo trilhado pelos mesmos meios.


A partir dessa perspectiva, sobre Bolsonaro, Angelo supõe:


Talvez ele acredite mesmo que potências estrangeiras estão a fim de tomar a Amazônia do Brasil, como fantasiavam os governos militares. O ambientalismo tornou-se o avatar do inimigo imaginário externo desde o fim dos anos 1980, quando o reconhecimento científico do papel da floresta no equilíbrio do clima global levou a pressões contra o desmatamento. Uma série de declarações desastradas de líderes estrangeiros não ajudou a sossegar os ânimos soberanistas – de François Miterrand defendendo a “soberania relativa” do Brasil sobre ela a Al Gore dizendo que a Amazônia “é de todos nós”. [...] Desde então, o céu tem sido o limite para as fake news sobre o tema.


É necessário muita calma para entender as histórias. Não há nenhuma prova que ateste que fetos foram encontrados na Pepsi nem que Adorno era brother de John Lennon. Tudo isso nos leva a entender que toda essa história é bobagem, pois não apresenta em nenhum argumento lógico que a legalize.


Recentemente, entretanto, reportada de maneira jornalística e com provas, uma publicação ganhou relevância no espaço público. Eis a diferença entre jornalismo e papo de botequim. Noticiar o fato mal-alinhado é, sim, possível, desde de que haja responsabilidade com a informação. É o exemplo do que hoje conhecemos como Projeto Barão do Rio Branco, um plano um tanto quanto controverso para "reconquistar" a área amazônica.

#enxergandocompalavras: infográfico apresenta as etapas que Jair Bolsonaro pretende aplicar para desenvolver uma das partes mais preservadas da Amazônia.

A história, veiculada no portal The Intercept Brasil, apresenta udios que revelam uma tentativa de enfrentar uma suposta ameaça que a Amazônia vem enfrentando. Segundo a reportagem, constituída a partir da pesquisa da jornalista Tatiana Dias, um oficial do exército apresenta uma tese em que a China e a Igreja Católica estariam por trás de uma dominação da floresta. O governo brasileiro vem se mexendo para abafar o plano.


Documentos inéditos obtidos pelo Intercept detalham o plano, que prevê o incentivo a grandes empreendimentos que atraiam população não indígena de outras partes do país para se estabelecer na Amazônia e aumentar a participação da região norte no Produto Interno Bruto do país. A revelação surge no momento em que o governo está envolvido numa crise diplomática e política por conta do aumento do desmatamento no Brasil. Bolsonaro se comprometeu a proteger a floresta em pronunciamento em cadeia nacional de televisão, mas o projeto mostra que a prioridade é outra: explorar as riquezas, fazer grandes obras e atrair novos habitantes para a Amazônia.

Soa familiar? Mais uma vez, o bolsonarismo remodela um antigo medo (ou um permanente pretexto) para emplacar uma transformação radical no que entende ser importante. Bolsonaro cumpre, com essa decisão, algumas de suas promessas: meter a foice no Ibama, não autorizar mais nenhuma demarcação de conservação, legalizar a apropriação ilegal e o garimpo.

Imergindo nesse mar de fake news como corriqueiramente faz, o governo Bolsonaro também se arranja numa estratégia banal e covarde. Apoiado por seu eleitorado, escolhe, com sua trupe, a fuga como resposta de todas as questões do país. Ao escolher para o ministério do meio-ambiente um condenado por fraude ambiental, deixa claro seus objetivos. Também para os fascistas, você sabe, missão dada é missão cumprida.


(...)


Você sabia?


* Galvão tem mestrado em engenharia elétrica pela Unicamp e doutorado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. É membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), além de colaborar com Conselho da Sociedade Europeia de Física. É, também, livre-docente em Física Experimental pela USP.


* Também ressalta a reportagem da Super, desmistificando o mito de que para crescer é preciso desmatar: o PIB agropecuário quase dobrou entre 2004 e 2012. E esse foi justamente o período em que o desmatamento caiu 80%.


* Previsto para 2020, o Amazonia-1 será lançado. O satélite 100% brasileiro fornecerá, entre outras possibilidades, imagens fidedignas de todo o território nacional no que diz respeito ao monitoramento do meio-ambiente e a desastres ambientais.


* O INPE nunca fugiu de seu verdadeiro objetivo: reportar em números o desmatamento na floresta. Todos os dados obtidos continuam sendo disponibilizados a qualquer pessoa. Basta acessar o site e conferir os métodos e resultados de cada ação. A portaria que aprovou o PDA (Plano de Dados Abertos) foi instituída no dia 25 de outubro de 2018. Três dias antes de Bolsonaro ser eleito presidente do Brasil. Essa informação, certamente, o deixa bastante chateado.


(...)


Matheus Soares é publicitário, formado em Publicidade e Propaganda e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social. Ouve Beatles de vez em quando e reconhece a magnitude de toda a obra. Bebe Pepsi, mas só quando não tem Coca.

47 visualizações

© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon