• Ana Carolina Branco

Sobre ser coletivo e ser paralelo

O que te vem à cabeça quando pensa na palavra "coletivo"? Aparentemente, há expressões que, de tão reproduzidas e utilizadas, se lotam de significados a ponto de se distanciarem de seu sentido original. O dicionário guia ao seguinte sentido:


adj.

1. Que pertence a ou abrange várias pessoas ou coisas.

Gram.

1. Diz-se de substantivo que, na forma do singular, designa um conjunto de coisas, animais ou pessoas.


Então, coletivo, na teoria, é um grupo de pessoas que pertencem a algo? Certo, mas e na prática? Essas pessoas não somente são parte de algo, elas se movem em direção a um objetivo, a uma luta, a uma causa. São atores sociais. Trata-se, então, de agir sobre a cultura presente, com a pretensão de transformá-la.


Há diversas formas de articular indivíduos com propósitos políticos e culturais. É possível fundar uma ONG, uma associação, uma empresa de empreendedorismo social, uma rádio comunitária. Nesse sentido, o coletivo é apenas uma das possibilidades de modelos de mobilização civil.


Falando, propriamente, da estrutura desse tipo de grupo, deve-se frisar duas características básicas que distinguem o coletivo de outras formas de expressão popular:

  • Ausência de liderança: dentro de coletivos, não há a noção de hierarquia e comando. A gestão se dá de forma que os membros tenham o mesmo poder de voz. Os impasses, caminhos e estratégias são colocados em pauta, todos opinam deliberadamente e as decisões são tomadas em consenso.

  • Abertura e transparência: um coletivo não é um organismo fechado que nasce sem a intenção real de se expandir. A pluralidade é de extrema relevância e enriquecimento para esse crescimento. Pessoas que se identificam com as pautas tratadas, são livres para somar e multiplicar.


Embora, de fato, hoje seja mais fácil propagar uma mensagem e engajar pessoas com interesses em comum, ser um coletivo não é mérito, obviamente, do século XXI. Para dar um breve exemplo da relevância histórica desse tipo de movimento, em 1981, na cidade de São Paulo, nasceu o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, que se encontra em atividade até os dias atuais. Dentre os objetivos do mesmo, figuram lutar pela saúde da mulher, por seus direitos reprodutivos e sexuais, incentivar mulheres a terem domínio sobre seus próprios corpos e fazer dessas lutas atos políticos. É notório como esse discurso soa atual e, ainda, necessário, mesmo após 38 anos.


#enxergandocompalavras: foto de uma roda de conversa do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, com homens e mulheres sentados em círculo, ouvindo atentos à fala de alguém.



Por essas e incontáveis razões, nasceu o Paralelas. Vamos deixar claro: ser paralelo não é ser alheio, isento ou superior a nada, mas sim, ser complementar. Somos paralelos, eu, Maddu, Daniel e Matheus; quatro jovens sonhadores tendo como ponto em comum a vontade de fazer mais pela cidade em que vivem. Muitas vezes, somos linhas que não se cruzam, mas, ainda sim, podem andar lado a lado. Propomos debates locais que versam com o nacional. Atuamos paralelamente a outros coletivos, mas participamos de uma rede em que todos se beneficiam mutuamente.



#enxergandocompalavras: lápis coloridos dispostos de forma paralela e de modo a criar pilhas.


Pode-se dizer, com muito orgulho, que Poços de Caldas é uma cidade em que as pequenas iniciativas têm se espalhado. Há diversos coletivos, cada qual com seus recortes, focos e tipos de intervenção, convocando pessoas e se mobilizarem e participarem.


Destaco, abaixo, uma lista com todos os coletivos poços-caldenses em atividade. Entretanto, friso que, justamente pela pluralidade, alguma iniciativa possa ter ficado de fora do mapeamento. Se você conhece algum coletivo que não esteja nessa lista, basta clicar aqui e entrar em contato. Anseio, como todos do Paralelas, que essa lista seja cada vez mais diversa, representativa e popular.





Coletivo Corrente Cultural

Sobre: O Corrente Cultural é um núcleo de produção independente sem fins lucrativos voltado para o desenvolvimento da cena artística sul-mineira. Além disso, visa criar um maior diálogo entre todos os níveis da cadeia produtiva local (artistas, público, casas de espetáculos), bem como buscar parcerias com os setores público e privado.

Site: https://www.correntecultural.com/


Coletivo Educação

Sobre: Um coletivo que se ocupa do debate a respeito da educação, trabalho, escola, sociedade, juventude, infância, professores e universo acadêmico.

Fanpage: https://www.facebook.com/coletivoeducacao1/


Coletivo Feminista Marielle Franco

Sobre: Criado no Instituto Federal do Sul de Minas Gerais (campus Poços de Caldas), o coletivo tem como objetivo reforçar a importância da reflexão sobre gênero e atuação das integrantes como representação feminina, política e resistência coletiva.

Fanpage: https://www.facebook.com/coletivofeministamariellefranco/


Coletivo Feminista Panapanã

Sobre: O coletivo Panapanã foi criado com o intuito de gerar reflexões a respeito do ser-mulher-em-sociedade, prezando seu empoderamento e respeito. Formando por mulheres se organizando, estudando, lutando e resistindo.

Fanpage: https://www.facebook.com/coletivopanapana/


Coletivo Mulheres pela Democracia

Sobre: promove a resistência contra todas as formas de opressão, a igualdade de gênero e a luta pela democracia.

Fanpage: https://www.facebook.com/mulherespelademocraciapc/


Coletivo Negro de Poços de Caldas

Sobre: tem como objetivo ser um espaço de integração da Comunidade Negra de Poços de Caldas. Trata-se de um coletivo laico e apartidário. São abordados temas pertinentes a etnia negra e promove encontros mensais com grupos de estudos, palestras, exibições de filmes e debates.

Fanpage: https://www.facebook.com/pages/category/Cause/Coletivo-Negro-Pocos-de-Caldas-554551528316875/


Coletivo Pólis

Sobre: O Pólis se propõe a manter um processo continuado de atuação, no âmbito das políticas públicas e do agir político cotidiano, sempre buscando agregar pessoas de diferentes concepções e práticas em torno da busca do bem-estar da cidade, do ambiente natural, social, cultural, nacional e planetário. Se propõe também a atuar como uma plataforma de conexão entre coletivos já existentes e que compartilhem de seus princípios.

Fanpage: https://www.facebook.com/coletivopolis/


*As informações foram extraídas das páginas dos próprios coletivos.




Todo cidadão é um veículo de informação e conhecimento e, ao se juntar com outras, esse efeito se multiplica. Por isso, se possível, sugiro que conheça o trabalho de cada um desses coletivos. O processo de empoderar em grupo leva à verdadeira transformação das pessoas e da comunidade.


Para finalizar essa coluna, peço emprestadas as palavras de Virginia Woolf, que, em 1922, escreveu em uma carta a seu amigo Gerald Brenan, compartilhando a importância do ser que age:


"Não é possível agora - e nunca será - dizer "eu renuncio". Essa geração precisa fazer um grande esforço para que a próxima possa ter um avanço suave. Pois eu concordo com você em que nada será alcançado por nós. Fragmentos - parágrafos -, uma página talvez: mas nada mais. A alma humana, parece-me, se reorienta de vez em quando. Agora ela está fazendo isso. Portanto, ninguém pode ver integralmente. O melhor de nós tem um vislumbre de um nariz, um obro, algo que se desvia, sempre em movimento. Ainda assim me parece melhor entender esse vislumbre".

Se hoje usufruímos de conquistas batalhadas por nossos antepassados, que nós, como pessoa singular e como coletivo, possamos fazer o mesmo e deixar nosso pequeno vislumbre para as próximas gerações.




Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.


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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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