• Ana Carolina Branco

Sobre datas, comida e escolhas

Adianto que esse não é um texto científico ou uma reportagem, é só um convite para refletir. Talvez possa ser interpretado como um assunto "polêmico". Não é ruim se for. Em minha singela opinião, terrível para a sociedade é viver sem questionar. Se a gente não entender porque fazemos o que fazemos como vamos alterar qualquer estrutura? A gente vive propagando os discursos de coisas quem nem são nossas ideias. Mas felizmente estamos aprendendo que dialogar sobre qualquer assunto é a melhor forma de progredir. Se atingimos minúsculas conquistas nos debates sobre racismo, machismo, gordofobia e intolerância foi à base de muita conversa.


Vamos ao assunto: o período de festividades de fim de ano aqui no Ocidente, marcado especialmente pelo Natal, é também caracterizado por ser uma época em que a comida tem muita importância. Comer é muito mais do que matar a fome ou se nutrir, é um ritual de socialização. Por essa razão, a escolha do que comemos também é carregada de simbolismos, de cultura, de tradição e de heranças familiares.


#Enxergandocompalavras: ilustração de mesa partida ao meio com um peru servido. Montagem: Catarina Bossel

Antes de começar a pensar no porquê dessas datas se comemoram assim, devemos pensar na própria origem delas. Para quem tem interesse, uma matéria da SuperInteressante traz uma revisão histórica intrigante do Natal. Comemorar o Natal acaba englobando até mesmo as pessoas que não são cristãs, mas aproveitam a data para visitar familiares ou participam de confraternizações no emprego. O ponto que eu quero chegar é que: tudo é construção social, até mesmo o Natal, a escolha da data, os símbolos de decoração usados, a troca de presentes, a figura do Papai Noel. Essa construção não se deu apenas de maneira espontânea e ritualística. Ao longo dos séculos, nossas tradições foram "alteradas" por mercados que queriam ganhar com a fé e com a cultura.


O Natal virou sinônimo de família reunida, confraternizações e um banquete farto. Parece uma ótima maneira de celebrar, não é mesmo? Se não fosse por um pequeno detalhe: o centro da mesa é formado por perus, leitões, pernil, lombo, chester, bacalhau, frango ou em outras palavras, animais. À parte de suas crenças ou do que essas datas significam para você, é consenso que todos almejam um período marcado por paz, harmonia e união. Mas se desejamos esses sentimentos, como podemos os atrair se nossa comemoração envolve matar seres inocentes e servi-los? Tenho certeza que você também consegue enxergar que há uma contradição. Mas por diversos fatores você aceita isso. Aceita porque desde que você nasceu as coisas são assim. Aceita porque não consegue enxergar outra possibilidade e pode achar ser “difícil” uma vida sem alimentos de origem animal. Aceita porque você foi levado a acreditar que esses animais não sofrem e não sentem.


#Enxergandocompalavras: Tirinha em que uma personagem diz "tá chegando o Natal" e 3 crianças comemoram. Uma ave diz a mesma frase para seus filhotes que dizem "oh meu Deus!" com expressão cabisbaixa. Tirinha: WillTirando

Voltando à questão das datas, para quem realmente segue os preceitos da fé cristã, não há um "requisito" que exige que se comemore o Natal comendo alimentos de origem animal. A Bíblia é neutra quando o assunto é se tornar vegetariano ou vegano, não incentiva, nem condena. Até porque, na época em que ela foi escrita, esses conceitos não existiam. Ou seja, não existe nenhuma proibição ou penalidade do não-consumo de animais ou derivados. É uma questão de avaliação e de escolha, o tal do livre arbítrio. Cá entre nós, se Jesus andasse hoje pelas ruas da cidade, ele ficaria feliz ao ver a forma como tem se comemorado ou Natal? Claro que ele se alegraria ao ver as trocas de afeto legítima que florescem nessas datas. Aquele abraço de uma avó com seus netos e a família unida mesmo com as brigas pós-eleição. Mas ele se alegraria com a parte do derramamento de sangue?



Todo animal criado para abate sofre, alguns mais, outros menos. Mas não há processo industrial de criação que enxergue o animal como um ser digno de respeito. Eles são vistos como mera mercadoria, sem direitos, sem voz para reivindicar suas vidas. Esses animais são criados em espaços minúsculos, em situações estressantes e sofrem desde a hora da concepção até o abate. Se você não acredita nisso é porque essas informações não chegaram até você. As empresas que te vendem um bife fatiado em uma bandeja plástica não te mostram tudo que aquele animal passou para ser transformado nisso. Mas você pode quebrar esse ciclo de desinformação e, consequentemente, mudar sua postura na hora de montar uma refeição.


Mesmo que você seja ateia/ateu, existe um conceito que independe de suas crenças: a ética. Quão questionável é infligir tanto dano aos animais em troca de prazer ao paladar ou manter certas tradições? Não é o prato escolhido em si que dita a tradição. Em uma festa de aniversário, por exemplo, faria diferença para aquele rito substituir um bolo "comum" por um vegano, sem ovos e leite? Ainda seria um bolo, ainda seria doce, teria recheio, ainda seria cortado e distribuído entre os convidados. Essa lógica se aplica a qualquer festa ou celebração.

#Enxergandocompalavras: tirinha com o seguinte diálogo - Ser antiespecista é dizer que a fronteira entre espécias não existe e não pode ser uma fronteira moral. A nossa sociedade deve então evoluir para incluir os animais no nosso círculo de consideração moral. A outra personagem diz: sim, mas os homens da caverna comiam carne. Tirinha: Rosa B.

Há quem defenda que não consegue largar as carnes e derivados por seu “sabor” único. Não se engane, por mais que você possa considerar esses alimentos apetitosos, seu paladar tem potencial para encontrar esse mesmo prazer em novas combinações. Qualquer prato que você ame, seja uma lasanha, uma pizza, uma massa, uma sobremesa, pode ser adaptado para a versão sem origem animal. A internet é uma riquíssima fonte de conhecimento para quem se aventura em explorar e descobrir todas as delícias gastronômicas possíveis do reino vegetal. Busque receitas no Google, no Youtube, em blogs, em grupos do Facebook.

  • Tente ressignificar os alimentos que compõem a sua mesa. Eles tem algum significado, uma história ou eles só foram "empurrados" para você pela indústria?

  • Não promova o desperdício de alimentos. Faça quantidades suficientes para sua família, e se sobrar, que tal distribuir em marmitinhas?

  • Fartura não precisa significar comer exageradamente, pode significar comer com qualidade.

Friso isso sempre, mas vale lembrar que: essa discussão é voltada apenas para quem tem condições materiais de escolher o que come. E mesmo essas pessoas estão inseridas em um sistema que pré-determina as opções disponíveis. Logo, a luta antiespecista visa mudar o sistema e não penalizar as pessoas em suas escolhas individuais, ok?


Dê uma chance ao veganismo. Comece devagar, mas comece hoje mesmo. Se você leu essa coluna até o final, significa que o desejo de mudar já habita seu ser. Há uma célebre frase de Albert Einstein (a propósito, um contraditório simpatizante do vegetarianismo) que diz: “a mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original”. Se você se permitir conhecer a fundo todos os benefícios de uma vida vegana, uma comemoração sem sofrimento será apenas o primeiro passo dessa jornada.


Indicação para um dia que você tiver 17 minutinhos sobrando: A engrenagem - Instituto NinaRosa



Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta e adora um textão. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão, seja no Natal ou em qualquer outra data. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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