• Coletivo Paralelas

Setembro chega ao fim, colorindo a vida de amarelo

Atualizado: 30 de Set de 2019

O suicídio é uma tragédia silenciosa com números cada vez mais alarmantes. Por isso, desde 2014, setembro foi o mês eleito para a prevenção ao suicídio, o Setembro Amarelo. Um mês inteiro para discutir, para falar e aprender a desconstruir esse tabu que já foi taxado de pecado, egoísmo, exibicionismo e fraqueza. Um mês para acolher o sofrimento, a dor, o medo, a desesperança e entender que os monstros do armário não vão embora quando acendemos as luzes. Falar é o primeiro passo para a cura e para dar um novo significado ao sentimento daqueles que se sentem deixados para trás.


#exergandocompalavras: a Psicóloga Júlia Machado em uma foto sorrindo em meio a flores.

O Coletivo Paralelas, com o intuito de colaborar com a discussão, convidou para um bate-papo Júlia Machado. Júlia é graduada em Psicologia (UNIFENAS – Alfenas-MG) e Filosofia (PUC-MG) e pós-graduada em Psicopedagogia (UNICLAR – Batatais-SP), atua há mais de três décadas como Psicóloga, com experiência no setor público e nos segmentos clínico, escolar e social. Atualmente, atende ao público infantil, jovem e adulto em consultório particular na cidade de Poços de Caldas. Confira abaixo como foi essa conversa:


Quais são as principais doenças da mente?


As principais não existem, porque todas são relevantes. Algumas das mais conhecidas e recorrentes são: depressão, distúrbio de ansiedade, bipolaridade, esquizofrenia, fobia social. Na nova Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, mais conhecida como CID, eles desmembraram essas doenças. Vamos supor, se você brigou com o seu irmão, tem um CID lá para isso. É uma coisa que eu acho interessante ser falada, mas, com muito cuidado, porque, todo irmão briga. A rivalidade fraterna é um quadro sério, tá? Mas, não é porque você brigou com o seu irmão que você está com um desequilíbrio mental. E esse novo CID faz isso. A gente tem que ter muito cuidado com esse negócio de “as principais doenças”. Porque, se você for pegar a nova referência, tudo é! Então, tem aquelas doenças que demandam maiores cuidados e um acompanhamento mais próximo e outras que não demandam tanto. Uma coisa que eu acho muito importante definir em termos de saúde mental é: o que é um desequilíbrio momentâneo e o que é distúrbio.

O luto por exemplo, é considerado um CID. Mas, quem durante um luto não se entristece e não se fecha? Cada um tem seu jeito de vivenciar? Sim, cada um tem. Mas, não necessariamente porque você está elaborando um luto, você está adoecido. Você pode ter uma compreensão dessa perda de uma forma saudável. É muito difícil e muito raro, mas tem pessoas que encaram assim! A verdade é que o nosso mundo tá muito adoecido. As pessoas estão muito desestruturadas, muito ansiosas. Então, qualquer coisinha mais pesada acaba desequilibrando e daí para um distúrbio é um passinho. É onde a gente tem que ter atenção. A importância da terapia no caso do acompanhamento, vem aí. Às vezes numa escuta que você faz, a pessoa consegue perceber que não é tão sério assim, que dá pra pensar diferente e acaba enxergando uma outra forma de lidar.

Hoje o que mais se vê, é a questão do adoecimento pelo uso excessivo de tecnologia e os gatilhos ligados a isso. O próprio isolamento social cresceu muito, em função disso, a população portadora das fobias sociais também.

Um outro ponto vital da terapia, é você tirar uma hora que seja do seu dia pra cuidar de você.

Uma vez por semana que seja, porque normalmente é a média (da terapia), uma sessão semanal. Para você pensar em você. Para você se olhar. Para você se corrigir, porque normalmente as pessoas chegam com queixas, raramente alguém chega legal (nas sessões terapêuticas), só pra crescer mais. As pessoas chegam com queixa, com culpa, com autocrítica. Então, é importante um autoconhecimento. Pontos chaves que fazem falta! Seria maravilhoso se a gente pudesse oferecer para todo mundo esse tempinho. Não que você precisasse adoecer para procurar isso. Mas, que você se cuidasse para não adoecer.

Ilustração do artista Oi, Aure. #exergandocompalavras: pessoa vestida de amarelo se segurando em um guarda-chuvas enquanto cai em queda livre.

Como identificar que alguém está sofrendo de alguma doença da mente, ou até mesmo, se autodiagnosticar como uma pessoa que precisa buscar ajuda profissional?


Vamos falar, inicialmente, de forma técnica, em termos de clínica tá? Eu considero qualquer segmento, seja social, seja escolar, ou clínico mesmo. Para identificar que alguém com alguma doença da mente, você tem técnicas. Existem testes, entrevistas e instrumentos apropriados para isso. Humanamente falando, vai da sua sensibilidade. Sabe aquela frase: “de bobo e louco todo mundo tem um pouco”? Eu acho isso fantástico, porque todo mundo tem! A questão é, o grau.

Quando é que você percebe que alguém está adoecido e precisa de uma ajuda? Quando você vê que, por mais que aquela pessoa tente transparecer algo, não tá fluindo. Ela está falando “a”, mas está fazendo “z”.

Ela se coloca a favor, mas age contra. Ela diz que está bem, mas seu olhar está entristecido. Ela diz que tá legal, mas tá com os ombros e cabeça para baixo. A questão da leitura corporal, é extremamente simbólica. Tirando aquilo que é habito, que faz parte da postura, você nota de repente alguém que está ansiosa, porque ela começa a atropelar a fala, começa a engasgar. Ela senta e fica balançando a perna. Ela não para na cadeira.... Quem tá confortável, não fica mudando de posição. O “olho no olho” é onde a pessoa normalmente foge, tenta se esquivar. A gente consegue identificar também através daquela fala que começa até firme, mas vai se transformando num choro, vai falhando. Dá para identificar também por aquela pessoa que chega para conversar e solta um tom agressivo, alguns gestos violentos. Tudo isso são sinais de que há alguma coisa que não está “bem”. Que não tá ali, dentro do seu limite de tolerância normal.

Se autodiagnosticar, eu acho que é até pretensioso, por isso, existem os profissionais. Mas, dá para identificar sim, os sinais, que vão levá-la a pensar em um diagnóstico. Aí então, deve-se procurar um profissional. Porque quanto mais você se conhece, mais você consegue identificar essas coisas. Poxa, eu sou uma pessoa animada que gosta de sair, de repente eu não quero mais curtir, eu não vejo graça em ir ao cinema.... Por que eu tô tão retraída? Por que eu tô tão introspectiva? O que tá me impedindo de ficar lá fora com todo mundo? Se for só um momento meu de introspecção, de querer ficar mais na minha, aí tudo bem. Agora, três, quatro, cinco meses e eu não acho jeito de encontrar minha amiga. Eu não vejo o porquê eu ir dar uma voltinha na praça. Calma aí! Vamos ver o que tá acontecendo, o que tá me segurando. Esse é o momento de procurar alguém que tenha uma leitura mais direcionada.

A grande questão é que às vezes a pessoa identifica. Mas, e para assumir? Para admitir que precisa de alguém pra confirmar isso ou pelo menos pra falar: “não, não é nada disso. Você tá pegando pesado consigo mesma”. É a questão da escuta. Você convive, você estuda, você trabalha, você é vizinho de alguém e mesmo assim você não olha para aquela pessoa. Você não para ouvir o que ela tá falando. Além disso, nós temos muitos mecanismos de defesa. E tem mesmo uma resistência muito grande em buscar ajuda, primeiro porque todo mundo quer ser perfeito, normal e saudável. Então, admitir que alguma coisa tá saindo do trilho é difícil. Nem tanto perceber, muitas vezes a gente até percebe. Assumir é difícil. Procurar ajuda também.

Ilustração do artista Oi, Aure. #exergandocompalavras: pessoa vestida de amarelo sentada em frente a uma cadeira vazia com a mão no queixo.

O que se deve fazer ao identificar os sintomas em um terceiro?


A primeira coisa que você tem que fazer é alertar a pessoa. Chamar a atenção para aquilo que você está observando. Porque as pessoas confundem conversar com um amigo, desabafar com um amigo, com uma terapia, com um tratamento. É diferente. Mas, muitas vezes se o seu amigo não te alerta, se você não sabe que tem alguém do seu lado que vai te apoiar nesse caminho, você não vai. Então, às vezes tá ali na sua cara, mas, alguém precisa chegar e falar: “olha, você percebeu isso? ”. Nunca chegue e fale: “É isso”. Até porque você não tem formação profissional para tal. “Olha, eu observei em você tais coisas”. Ou, “me chamou a atenção em você tal atitude, tal comportamento. Vamos pensar um pouco sobre isso?”. Assim, chama-se a atenção da pessoa e faz com que ela olhe um pouco pra ela em relação àquilo. Nos meus atendimentos, tenho contato com várias pessoas. E o que mais eu escuto? “Ah, eu tô aqui porque a minha mãe mandou”. “Eu tô aqui porque meu pai quis”. “Eu tô aqui porque a minha filha me trouxe”. Então, não é muito comum você ir porque percebeu.

O primeiro passo pra você encaminhar alguém, é alertá-lo sobre o que você observou de diferente.

Muitas vezes você tá enxergando, mas com a sua leitura, com seu olhar. E é uma oportunidade da pessoa te mostrar que é aquilo mesmo. Quando eu te conto sobre o que aconteceu comigo no meu dia, você tem a oportunidade de falar: “porque você não reagiu a tal coisa ou porque reagiu dessa forma? ”. Nós temos que separar aí o que é personalidade, o que é gênio e o que é desequilíbrio. Mas, é fundamental levar a pessoa a reflexão. Se ela não consegue ver sozinha, alguém chega e cutuca e dispara o gatilho para ela pensar sobre.

Ilustração do artista Oi, Aure. #exergandocompalavras: pessoa vestindo-se aos poucos com a mesma capa amarela das ilustrações anteriores. No canto inferior direito a frase: "Você não está sozinho".

O que dizer/não dizer a alguém que se encontra nesse estado?


Primeira coisa: você não está sozinha. Eu estou aqui com você. Vamos cuidar disso? Eu acho que é primordial a pessoa saber que não está sozinha. Às vezes, você não precisa falar nada. Tem um gesto que é altamente curativo, que é o de abraçar. Num abraço a pessoa desmancha, ela quebra a armadura, ela baixa todas as defesas. Ela se sente tão acolhida, que ela consegue se colocar. A partir desse momento, vamos ver quem pode te ajudar? Vamos ao médico, psicólogo, psiquiatra, enfim, encaminhar para um especialista. Mas a primeira fala, o primeiro gesto é ela perceber que não está sozinha. Isso é o que deve se demostrar.

O que não deve ser dito, é a famosa “que frescura! ”. “Você está exagerando! ”. “Você está fazendo drama! ”. “Olha aqui, quanto problema tem no mundo! As guerras e etc.…”. Aí você aparece com um arsenal de coisas para que a pessoa ache que o problema dela não é tão grande. E é! É grande, é doloroso.

Não diminuir a dor é essencial. Não menosprezar esse sentimento dela. Porque tudo tem um peso muito maior para alguém que passa por isso. É claro que uma guerra é muito importante, mas, seu sentimento de impotência também é importante porque é uma guerra interna! Mesmo nos nossos piores momentos, todos temos dois lados. Somos dois polos. Por pior que você esteja, tem alguma coisa de positivo em você que você possa oferecer e eu acho isso um grande gancho para quem está deprimido. Tem uma palestra do Cortella, em que ele diz: “você é o cocô do cavalo do bandido”. Isso demonstra a grandiosidade do universo e ao mesmo tempo a sua grandiosidade como indivíduo. Você faz parte, você contribui, você soma alguma coisa aqui.

Ilustração do artista Oi, Aure. #exergandocompalavras: pessoa vestida com uma capa de chuva amarela, virada de costas e na parte de trás da capa a inscrição: "Você não é um estorvo".

Poços oferece algum tipo de ajuda? Como entrar em contato?


Temos em Poços de Caldas mais de 300 psicólogos atuantes hoje em dia. Atendemos nas redes públicas e particular. Temos também a PUC Clínica Escola. Temos o serviço público nas Unidades de Saúde. Nesse caso, trabalhamos com referências, por exemplo, quem mora no centro, tem uma referência ali na rua Amazonas. Através do seu posto de referência, você será encaminhado. Temos o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial. Temos frentes em vários segmentos religiosos. Além da rede particular. Temos ainda a REDEPSI, um grande grupo formado por psicólogos, que tem como proposta fazer palestras, oferecer cursos e levar a psicologia pra ocupar locais públicos como as Praças ou o Parque Municipal. O projeto é um espaço criado para trocar informações e indicações referentes a outros profissionais das várias áreas da saúde. Eu faço parte da Rede e agora, estamos tentando entrar em escolas, hospitais e continuamos a promover rodas de conversas.


Quais as relações entre a tristeza que conhecemos e a depressão? Há como conviver bem em sociedade, sorrir, se divertir, estando diagnosticado com a doença?


A tristeza normalmente está presente na depressão, mas nem sempre uma pessoa triste está deprimida. A tristeza é um sentimento legítimo, inerente, tanto quanto a alegria. Então, você está triste porque perdeu alguém, se frustrou com alguma coisa... Tristeza é uma emoção, um sentimento. Depressão é um quadro que envolve várias coisas, inclusive a química. Porque, existe a depressão emocional causada por um evento, uma situação. E existe a depressão que é orgânica, que exige medicação, por causa dos hormônios. As pessoas acreditam que depressão é você ficar triste, isolado, mas não é! Especialmente se, o seu organismo não tem o equilíbrio necessário, e isso vai refletir no seu psiquismo, nas suas emoções. Essa é a mesma questão da ansiedade. Existe essa parte que precisa ser considerada.

Pessoas com depressão podem conviver normalmente em sociedade e não transparecerem esse quadro. Por isso ela é considerada uma doença silenciosa e por isso temos que ter grande sensibilidade ao trabalhar isso.

Ilustração do artista Oi, Aure. #exergandocompalavras: pessoa vestida de amarelo segurando um guarda-chuvas enquanto olha para cima. Ao lado os dizeres: "Essa tempestade também vai passar".

Qual você acredita que é o papel ou a importância do Setembro Amarelo na discussão do assunto?


A grande importância desse mês é o bombardeio do assunto. Em todos os meios de comunicação. Você faz com que as pessoas se lembrem do assunto. Eu recebi um texto uma vez, onde, no decorrer do ano se passavam os meses e nada expressivo acontecia, até que chegando em setembro, em setembro amarelo, um parágrafo dizia: “eles foram ouvidos, foram cuidados, forma medicados”. Então, setembro passou e eles voltaram a ser invisíveis. Dito isso, eu chamo a atenção para que não se fale disso, depressão, doenças da mente, prevenção ao suicídio, apenas em setembro.

O que é positivo no Setembro Amarelo é que, você vai ouvir falar, mesmo não querendo. A grande importância é chamar a atenção.

O suicídio, culturalmente é considerado um tabu. Em várias religiões, o suicida nunca foi visto como um natural, ele sempre foi condenado e punido. A importância do Setembro Amarelo é justamente mostrar que, você suicida que está com um problema, um desequilíbrio é igualzinho ao outro depressivo. Hoje fazemos questão de falar! Nas escolas, nas reuniões de família.... É um assunto pesado, mas que precisa ser conversado. A leitura do suicídio para uma cultura é diferente de para outra. Em alguns lugares, as pessoas se suicidam porque não são mais úteis. Fazem isso para dar espaço aos próximos que nascerão. Enfim, a proposta é chamar a atenção. O suicida não quer se livrar da vida ele quer se livrar da dor. Aí damos a oportunidade da escuta para que ele se expresse e para que não se sinta só.

Ilustração do artista Oi, Aure. #exergandocompalavras: pessoa vestida de amarelo com a mão ao ouvido em gesto de escuta.

Ilustração do artista Oi, Aure. #exergandocompalavras: pessoa vestida de amarelo segurando a mão do que parece ser um ursinho muito fofo, também vestido de amarelo. Em cima a frase: "Juntos somos mais fortes".

Se você se interessou em saber mais sobre a REDEPSI, siga o projeto pelas redes sociais:

Facebook: facebook.com/redepsi

Instagram: @redepsi

Site: redepsi.online


O Coletivo Paralelas parabeniza a força daqueles que possuem essa luta diária. Vocês são incríveis!

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