• Daniel Chagas

Tradição nas raízes

Nas primeiras décadas do século XX, um cara chamado J. D. Okhai ‘Ojeikere (leia como bem entender), resolveu dedicar sua vida à fotografia. E, para isso, optou por retratar a moda e a arte do seu país, a Nigéria, observando e capturando uma forte característica da sua terra natal na época: os penteados das mulheres nigerianas. Foram cerca de 50 anos de trabalho, reunindo em torno de 2000 negativos.


Eram penteados de todas as formas e tamanhos e rendiam fotografias extremamente únicas e originais, o que fez com que o fotógrafo contribuísse para a consolidação deste costume dentro da cultura nigeriana, que se torna cada vez mais expressivo, alimentando a riqueza cultural do país.



Tá, é uma história legal e uma curiosidade interessante. Mas por que estamos falando disso?


Dentro desta história podemos ver como surgiu uma rica tradição e manifestações artísticas de uma cultura, que graças aos esforços dos indivíduos perpassa e se fortifica à medida que o tempo passa. Mas basta olharmos para a nossa cultura e para nossa história com atenção para percebermos que ela é marcada por uma supressão de outras culturas. Estas mais ricas e mais antigas, o que deveria fazê-las por consequência mais fortes e importantes.


Quando nos atentamos aos detalhes do surgimento de nossos costumes e comparamos à maneira como estes costumes são vistos nos dias atuais, é de uma discrepância enorme o modo como vemos e como lidamos com o mundo e com as tradições. E, para além da ideia de que a cultura é a identidade de um grupo, devemos refletir sobre o seu papel de manifesto, de resistência.


E foi pensando justamente nessa luta e nessa resistência que o fotógrafo poços-caldense Leonardo Felipe decidiu desenvolver um projeto para seu trabalho de conclusão de curso. Seu trabalho consistiu em revisitar a cultura e, mais especificamente, a moda afro-brasileira e desenvolver um livro fotográfico a partir do ensaio, celebrando as manifestações por trás desta moda.


Foram produzidas cerca de 30 fotos, com cerca de 5 modelos, entre homens e mulheres. O resultado foi uma série extremamente sensível e intimista, com uma forte preocupação em evidenciar a beleza dos penteados, bem como da força desta tradição, tão marcada por resistência.


A cultura africana é uma das culturas mais ricas e também uma das, senão a mais, desvalorizada. Sou muito ligado à cultura por questões de ancestralidades. Acho que por culpa da escravidão, as pessoas negras se perderam da sua cultura de origem, do seu nome de origem e tudo mais. E isso foi passando de geração pra geração até que chegou em mim. E em honra a isso, ao que meus antepassados passaram, que eu sou tão ligado a essa cultura. Foi por isso que escolhi esse tema. Em honra à minha ancestralidade.


A ideia do livro é relacionar a tradição afro-brasileira representada pelos diferentes penteados com a moda atual, trazendo discussões sobre a preservação desta cultura, o que segundo o fotógrafo, foi uma de suas maiores dificuldades, uma vez que não existe um número significante de pesquisas que já tenham feito algo do tipo. Deste modo, acredita-se que este livro tenha sido um dos poucos a fazê-lo.



E, mais do que apenas o ensaio fotográfico, o projeto buscou apresentar problemáticas a respeito da representação midiática da cultura afro-brasileira, que muitas vezes é marginalizada, fazendo com que se crie no imaginário do indivíduo uma relação negativa acerca dos costumes, associados muitas vezes a coisas ruins ou sujas, fruto de uma construção narrativa de séculos, que reduzia costumes de uma sociedade em detrimento de uma outra considerada superior.


Esta é uma reflexão e um exercício que deve ser feito a todo momento, principalmente se tratando de um contexto político e social no qual nos encontramos, para que a história não se repita e lutas como a destes casos sejam reduzidas ou desmerecidas.

Quer saber de onde eu tirei isso? Aqui embaixo vou deixar algumas das minhas consultas e referências:

Obvious - O fotógrafo nigeriano que revolucionou a arte do penteado em seu país


Buala - J. D. ‘Okhai Ojeikere

Daniel é formado em Publicidade e Propaganda pela PUC Minas - Poços de Caldas, aspirante a fotógrafo e editor de vídeos. Não assiste, lê ou ouve nem metade das coisas que gostaria, deseja muito ajudar a construir um mundo melhor e segue tentando.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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