• Coletivo Paralelas

Racismo estrutural: uma pauta indispensável

Atualizado: Ago 7

Se você pode correr livremente à noite, se pode usar um capuz ou entrar sem qualquer desconfiança no supermercado de seu bairro, se pode andar na mesma calçada que outras pessoas sem que te olhem com desconfiança, se pode se orgulhar do seu cabelo sem que brinquem com a sua respectiva forma, se pode pegar um elevador sem que tenha alguém do seu lado com medo, você é, sim, um privilegiado.


Todas essas situações fazem parte do cotidiano de mais da metade dos brasileiros e ilustram o que especialistas do tema chamam de racismo estrutural, que são elementos imbricados em uma sociedade que de tão corriqueiros a gente sequer desconfia que exista.



Em uma país de maioria negra, como pode o racismo ser parte da estrutura que nos forma, dos sistemas, das instituições? Sim, ele está lá. Seja de forma velada ou escancarada. Chamamos de "pauta indispensável" pois a necessidade de falar é diária e imprescindível. Nas aulas de história da escola aprendemos sobre a "grande chegada" de Pedro Álvares Cabral em solo (hoje) brasileiro, mas pouco ou nada ouvimos falar sobre heróis negros. Quantas pessoas desinformadas ainda usam o termo "denegrir" sem compreender quão preconceituoso é?

Mais a fundo e, consequentemente, mais graves, estão as circunstâncias que envolvem diretamente a vida das pessoas. Caso de João Pedro, de 14 anos, assassinado em maio depois de presenciar a sua casa sendo alvejada por mais de 70 tiros, no Rio de Janeiro. Um exemplo caseiro que permeou a argumentação de muitos que resolveram sair às ruas clamando por justiça e exigindo o que lhes são de direito.


No Rio de Janeiro, cidade de João Pedro, das 1.075 mortes por violência policial registradas entre janeiro e julho de 2019, 80% eram negras. No Brasil inteiro, o índice chega a quase 75%, segundo dados do ISP (Instituto de Segurança Pública).


Isso mesmo. A cada 100 pessoas assassinadas pela polícia nacional, 75 são negras.

Isto evidencia que somos uma sociedade, em muitas formas, genocida. Ainda se tratando de violência, segundo o IBGE, em 2017, a taxa de homicídios era de cerca de 43 a cada 100 mil entre negros e de 16 a cada 100 mil entre brancos, ou seja, mais do que o dobro. Durante a pandemia, aliás, o número de mortes em decorrência de intervenção policial aumentou 43%. Fato que impulsionou a decisão do Ministro Edson Facchin de interromper operações policiais em comunidades cariocas.


O Brasil, país que recebeu o maior número de escravizados na história da humanidade, não é um exemplo uníssono e particular, mas é uma amostra bastante considerável no que se refere ao racismo estrutural. Números do Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos mostram que 4,8 milhões de escravizados desembarcaram por aqui em quatrocentos anos. Sem qualquer amparo após o fim da escravidão, a natureza humana impôs uma condição extremamente cruel aos seus descendentes.


Lutas por todo o planeta eclodem de tempos em tempos e buscam reparar danos históricos. Feridas que se abrem todos os dias em cicatrizes que jamais se fecham. Em entrevista à rede britânica BBC, a ativista Jane Elliot declarou que o que vemos trata-se apenas “de uma situação que os brancos criaram”. Para ela, “você não pode abusar de um grupo de gente inteligente por 300 anos e esperar que aguentem indefinidamente”.


O assassinato de George Floyd, no dia 25 de maio, em Minneapolis, Estados Unidos, escancarou a indignação de pessoas do mundo todo em relação à violência policial contra os negros. O homem de 46 anos morreu depois que um policial branco apertou o seu pescoço com o joelho por quase 10 minutos. Imobilizado, Floyd advertia veementemente que não conseguia respirar. “Então pare de falar, de gritar, você precisa de muito oxigênio para falar”, disse um dos policiais envolvidos.


Sua morte não foi em vão. Floyd deu a sua vida para o renascimento de outro debate amplo, irrestrito e imprescindível. É importante ressaltar que Floyd não foi o primeiro e, infelizmente, não será o último. Seu perecimento apenas fortalece a luta de muitos que em outrora também perderam suas vidas.


Quando falamos sobre as formas pelas quais o racismo se manifesta, não podemos nos restringir apenas a casos mais radicais de discriminação, ou discursos de ódio claros. Num país como o Brasil, contudo, não é preciso muito esforço para percebermos a discrepância nesta desigualdade.


De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), enquanto 55,8% da população nacional é composta por pessoas negras, vemos que sua participação em diversos setores é muito pequena comparada à de pessoas brancas. No ano de 2018, os números mostram que apenas 10,1% da população negra possuía ensino superior. Enquanto cerca de 24% da população branca conquistou o mesmo nível. Pessoas negras chegam a receber salários mil reais mais baixos, numa média de R$1600,00 frente os cerca de R$2700,00 ganhos por pessoas brancas que ocupam os mesmos cargos. Em contrapartida, mais de 40% da população negra não possuía acesso a saneamento básico, diante de pouco mais de 26% da população branca nas mesmas condições.


A sociedade oferece piores condições de vida para os negros, menos empregos, menores salários e os casos de assassinatos e violência policial aumentam todos os dias.


A partir desse trágico cenário, algumas questões se levantam: como desestruturar o racismo?

Como intensificar a discussão acerca de um movimento extenso e globalizado? Como enfrentar essa herança (negativa) de séculos que persiste em continuar ditando as regras civilizatórias?


Nosso coletivo é composto por 4 pessoas brancas. Nunca recebemos contatos de pessoas negras querendo participar. Nos entristecemos e sabemos que isso é ainda reflexo da baixa inclusão de pessoas negras em atividades, sejam por razões financeiras, geográficas ou, até, de sobrevivência. Então, qual seria o nosso papel, como pessoas brancas no combate ao racismo?


Levi Kaique Ferreira, engenheiro civil, palestrante, diretor e colunista do site Mundo Negro, em uma postagem em seu perfil no Instagram, citou dicas fundamentais para brancos que querem atuar na luta antirracista. Em primeiro lugar, Levi diz que é essencial nos reconhecermos como racistas. Segundo o escritor, todo branco é racista e reconhecer isso, é a etapa inicial para uma desconstrução. Precisamos admitir nossos poderes estruturais e os privilégios cotidianos, como andar na rua à noite sem fazer com que as pessoas apertem o passo, por exemplo. É necessário nos envergonharmos do racismo e de tudo o que ele representa e, para isso, temos que combate-lo desde as nossas atitudes e falas, até as situações que podem acontecer com nossos amigos e pessoas ao nosso redor.


A pergunta principal não é “eu sou racista?” e sim “como eu faço para desmantelar o meu próprio racismo?”. Essa mudança de perspectiva é indispensável na luta antirracista.

Não devemos nos vitimizar e nem entrar na defensiva, pois, quando a violência contra um grupo de pessoas é normalizada dentro de uma sociedade, todos aqueles nascidos em seu seio, contribuem em algum grau com isso.


O segundo ponto citado pelo militante negro, é a busca pelo conhecimento: “Pesquise, aprenda e não espere que os negros lhe sirvam todas as informações para que você seja antirracista”, diz ele. Por que não saímos de nossas zonas de conforto? Lutar contra o racismo não é uma atribuição única de pessoas negras, e sim, da sociedade como um todo. Nenhum negro (a) militante tem a obrigação de nos tutelar como professores, nos desconstruindo. Existem diversos livros, estudos e pesquisas disponíveis para consultarmos. Esses materiais, formam a base da discussão e cabe a nós, brancos, buscarmos essas informações. Precisamos ler, pesquisar e participar de rodas de conversa sobre o tema. Assim, podemos compartilhar nosso aprendizado com amigos (as) brancos (as) também.


Quanto à terceira dica, Levi explica como é imprescindível escutarmos e darmos vazão à voz negra. Após termos consciência de que somos racistas e buscarmos uma boa base de leitura e referências, nós temos que ouvir. Esse, é o tão famoso “lugar de fala”, que nada mais significa do que a legitimidade que alguém possui para falar sobre um assunto. Esse aspecto deve ser bastante respeitado, pois, algumas coisas podem parecer subjetivas em um livro, mas, são muito diferentes quando vividas na pele. Essa é a hora de nos calarmos e ouvirmos as experiências e vivências dessas pessoas.


É isso o que o Paralelas pretende fazer nas próximas semanas. O mês de agosto será dedicado a luta antirracista. Por isso, seguimos com nosso compromisso em fazer o nossO papel enquanto pessoas brancas na luta antirracista. Nas próximas semanas convidaremos pessoas negras para falarem sobre suas vivências, seus trabalhos, suas aspirações, suas lutas, talentos e visões. E se você que está lendo é uma pessoa negra e quer fazer uso do nosso espaço, é só entrar em contato com a gente. Esse pequeno e nada revolucionário gesto, é só o começo. Mas, é preciso partirmos de algum ponto, especialmente já estamos em atraso.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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