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Entrevista com Léo Felipe: "Pessoas negras não estão acostumadas a serem fotografadas"

Dando continuidade ao tema já iniciado na nossa conversa passada, a respeito das várias facetas do Racismo Estrutural, principalmente no Brasil, tivemos uma conversa com o fotógrafo e ativista poços-caldense Leonardo Felipe.


Léo trabalha como fotógrafo há cerca de dois anos e possui alguns projetos onde se dedica a realizar exclusivamente ensaios com pessoas negras. Ele já participou de uma de nossas entrevistas e contou um pouco sobre o seu projeto fotográfico e caso não tenha lido, recomendamos muito que você leia aqui. É um tema super relevante e possui uma forte relação com o nosso assunto.

Como a cultura negra influencia o seu trabalho, direta e indiretamente?

Desde que me entendo por fotógrafo, o meu trabalho sempre foi exclusivamente dedicado para pessoas negras. Comecei com um livro fotográfico sobre moda afro-brasileira e não parei desde então.

Eu sinto que pessoas negras não estão acostumadas a serem fotografadas e isso afeta diretamente na nossa autoestima e em nossa história.

Nunca vou esquecer quando vi os olhos de uma menina negra brilhando quando viu as fotos que fiz dela. Ela parecia extremamente surpresa, me olhou e disse “mas eu estou linda”. E eu respondi “é assim que eu te vejo, pois é assim que você é”. E é realmente gratificante ter fotógrafos negros se inspirando em mim ou mesmo quando recebo um feedback de uma mãe preta dizendo que chorou vendo as fotos que fiz da família dela. Faz tudo valer a pena.

Qual o papel da arte na desmistificação de preconceitos e traumas?

A arte é de extrema importância para a luta antirracista. Quando uma criança negra vê uma artista como a Beyoncé lançando um projeto como Black Is King, ela vai se sentir não só representada, mas também vai saber que pode chegar em qualquer lugar, afinal alguém que é igual a ela e veio do mesmo lugar que ela, chegou. E eu quero fazer o mesmo, claro que não na mesma proporção. Mas um passo de cada vez, né?

E sobre o seu trabalho ainda, como você vê ele nesse cenário local? Aqui em Poços você vê que o cenário artístico e fotográfico negro tá crescendo?

Sim e não. Os artistas negros existem, porém não são valorizados como os artistas brancos. Um exemplo: uma rapper negra fez um som falando sobre negritude e vidas negras, mas ela não tem o mesmo número de visualizações que um rapper branco falando do mesmo assunto. Outro exemplo que posso dar é que as pessoas pagariam uma fortuna pra contratar um fotógrafo branco, mas não pagariam o mesmo pra mim, mesmo tendo o trabalho com a mesma qualidade, ou até melhor. A branquitude sempre cobra que nossos trabalhos tenham valores acessíveis, mas não cobram o mesmo de pessoas brancas.

Como fizeram com o Emicida um dia desses, dizendo que a marca de roupas dele deveria ser mais barata. Mas ninguém cobra isso de qualquer outro artista branco.

Talvez pensem que nosso trabalho valha menos, sei lá.

Mas a gente também precisa pagar nossas contas, né? Afinal, equipamento de fotografia não é barato, eu sendo negro ou não. E isso não acontece só comigo ou com o Emicida.

Como aconteceu no caso da colunista da Folha que criticou a Beyoncé por ter feito o filme usando roupas de luxo. A mulher branca não tinha esse direito de ir cobrar dela. Me lembra muito a música Bluesman do Baco: "Eles querem ver preto com arma pra cima, num clipe na favela gritando cocaína!".

Nunca querem ver a pessoa negra em situação de poder, usando looks de luxo, carros de luxo, mansões. Sempre querem ver pessoas pretas mostrando a pobreza.

Como você vê Poços nessa equação? É uma cidade em que essa estrutura ainda está muito presente? E de que forma o racismo pode ser percebido no dia a dia em nossa cidade?

Poços é uma cidade totalmente elitista e europeia. Quando você vai no Jardim dos Estados e só vê gente branca, mas vai no São Sebastião ou São José, que são bairros periféricos e só vê pessoas negras, você vê o resultado o racismo acontecendo.


Como estabelecer uma discussão sobre a igualdade em espaços cada vez mais polarizados?

Eu percebo que os movimentos desistiram de ensinar as pessoas brancas a não serem racistas. A gente colocando toda essa responsabilidade em cima das pessoas brancas. Porque se elas é que são racistas, elas que têm que deixar de ser. Enquanto isso, a gente buscando uma forma de emancipar as pessoas negras. Eu trabalhar com fotografia é uma forma de emancipação. Assim a pessoa negra vai ter poder de compra e tendo poder de compra ela vai poder ocupar espaços.


Ou a gente cria os próprios espaços. Se a gente não pode entrar em determinados lugares, a gente cria os nossos.

Como você analisa o fato do movimento “Vidas negras importam” ter eclodido somente agora na sociedade?

Eu sinto que era só por conveniência mesmo. Os intelectuais negros estavam ocupando Instagram de celebridades brancas? Estavam. Mas as lives tinham, tipo, 300 pessoas. Em um insta com mais de 2 milhões de seguidores. Então ninguém estava realmente interessado em escutar. Eu ganhei mais de 9 mil seguidores quando a hashtag estourou. E já perdi 2 mil.


Quando o João Pedro morreu ninguém se movimentou. Quando aquela senhora negra teve seu pescoço pisado igual ao George Floyd, ninguém se movimentou também. Então foi só pra inglês ver mesmo.

Você se sente mais representado hoje nas produções artísticas e culturais, por exemplo filmes, novelas e propagandas?

Não. Negro é 58% da população. Você vai na novela e tem só um negro. Vai na propaganda e tem só um negro. Você vai no filme e o negro não é protagonista, é o melhor amigo do protagonista. Isso é uma falsa representatividade. E é aquilo que te falei de ocupar espaços ou criar nossos próprios.


Existe alguém, seja personalidade ou do seu convívio, que te inspira a resistir e lutar por um mundo livre de preconceitos?

Sim! Muitos! Na fotografia: Renan Benedito, Wendy Andrade, Bruno Gomes, Pedro Gomes, Tyler Mitchel... Aliás foi por causa do Tyler que virei fotógrafo.

A Beyoncé foi capa da Vogue em 2018. e ela chamou o primeiro fotógrafo negro em 123 anos de revista pra fazer as fotos dela. Ele foi o primeiro e foi pra fotografar a Beyoncé!

Eu e ele tínhamos 23 anos na época. Então eu pensei "poderia ter sido eu". E foi aí que comecei.

Como você vê o impacto da pandemia na saúde da população negra?

Pessoas negras são as mais afetadas, não só no Brasil, mas no mundo. Querendo ou não, pessoas negras são as que mais usam transporte público e também são a maioria das empregadas domésticas. Não falo especificamente de Poços, até porque aqui tá razoavelmente tranquilo e aqui a maioria são pessoas brancas. Mas o patrão viaja, pega coronavírus, passa pra empregada, que passa pra família, que passa pros amigos, pessoal do trabalho... Só que a pessoa rica tem dinheiro pra custear hospital particular. A pessoa pobre não.

O Coletivo Paralelas agradece ao Leonardo e o parabeniza por sua dedicação na luta antirracista e pelo trabalho lindo e sensível que vem fazendo.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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