• Coletivo Paralelas

Projeto poços-caldense ajuda a combater as doenças da mente

A cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio em algum lugar do mundo, totalizando mais de 800 mil mortes por ano. Esse forte dado foi divulgado em 2014, em um relatório feito pela OMS (Organização Mundial da Saúde). O mesmo relatório trouxe uma outra informação importante: aproximadamente 90% desses casos poderia ter sido evitado. Poderia se, primeiramente, esse assunto deixasse de ser tabu. Poderia se a sociedade encarasse de forma mais séria as doenças da mente. Poderia se os países adotassem mais políticas que informem, eduquem, orientem e amparem as pessoas que necessitam de ajuda.


Felizmente, há iniciativas que se propõem a construírem uma ponte entre quem precisa de ajuda e quem tem a capacidade de ajudar. Uma delas está bem pertinho da gente: o Coletividade. O projeto, que nasceu há pouco mais de um ano, visa falar sobre as doenças da mente, se valendo de palestras, teatro, dança e música. Mais do que isso, o projeto roda a cidade levando palavras de conforto a quem precisa ouvir e oferecendo abertura para quem quer falar.


Conversamos com o Luis Phelipe, um dos integrantes do Coletividade, que nos falou sobre todo o percurso até aqui, planos para o futuro e como você também pode somar a essa luta. Confira:


#Enxergandocompalavras: Luis gesticulando com as mãos enquanto nos concede à entrevista e um celular à mostra gravando a conversa.

Fale um pouco sobre você e sua entrada no Coletividade.

Meu nome é Luis, meu vulgo dentro da música é Fusi, eu sou um cara que trabalha com arte, design, vídeo e foi assim que o Coletividade chegou até mim. Na verdade, tive um trabalho na faculdade, conhecido como TEI (Trabalho Extensionista Interdisciplinar), e foi nele que aconteceu a minha entrada na música e no Coletividade. Era um projeto de fazer um clipe e a Jaque, que era uma aluna da minha sala, entrou em contato com a Pamela, que já tinha a ideia de montar um projeto. Como as duas eram amigas, se juntaram e levaram para frente. Começou como uma forma de ajudarem artistas a comporem, só que rapidamente elas perceberam o tamanho do projeto e o potencial que tinha para alcançar pessoas e resolveram usar isso como uma forma de ajudar a comunidade. Me chamaram, eu entrei e começamos a construir o que é o Coletividade hoje. Dentro de lá eu trabalho com vídeos, participo das reuniões, vou nas palestras nas escolas, todo mundo faz muita coisa lá dentro.


E como foi o início do projeto?

No início de tudo, chamaram vários MC's da cidade para cada um dar sua versão sobre o que é morar em Poços, como é a vida, só que aí elas perceberam que tinha um objetivo maior, não só fazer música por música. E decidiram falar sobre depressão e suicídio, porque isso está acontecendo em massa e as pessoas ainda não falam suficientemente sobre. Logo que elas falaram, me apaixonei na ideia e topei. Desde então, muitos integrantes entraram e saíram. Estamos no processo de construir degrau por degrau.


Hoje, como é a atuação do Coletividade?

O intuito do coletividade, até pelo nome que a gente se percebeu como empresa e projeto, é ter um pouco de tudo. Lógico que não dá pra abranger tudo mesmo, mas dentro da cultura que a gente trabalha tem muita diversidade. Inclusive, dentro da organização temos pessoas de religião x e y, orientação x e y, tentamos trabalhar sempre com isso. Dentro da arte, tentamos trabalhar com as vertentes da música, do teatro e da dança, que por enquanto é o que temos capacidade de fazer. Temos um grupo de dança que trabalha com a gente, o The Bless, e um grupo de teatro, que ainda não tem nome porque são da igreja e estão começando essa atuação à parte. Eles tem uma peça sobre depressão e a gente intercala com música e dança. As danças tem uma coreografia marcante para cada música. A gente começou a trabalhar com uma psicóloga que orientava a gente, porque tratamos sobre depressão e suicídio nas letras, uma coisa muito séria e a gente não é especialista. A psicóloga analisa as letras das músicas, porque às vezes a gente pode falar alguma coisa que a interpretação soe de uma forma diferente, que pode agravar o quadro da pessoa ao invés de ajudar. Então ela lê letra por letra, de cada MC e dá toques sobre o que mudar. Na medida do possível, ela também vai com a gente nas escolas. A parte do projeto social começou quando fomos em um evento na Câmara Municipal, em parceria com o vereador Gustavo Bonafé. Nós conseguimos o número de assinaturas necessárias para se tornar uma empresa social e foi a vez que mais lotou a Câmara.


#Enxergandocompalavras: Câmara Municipal lotada de pessoas sentadas em cadeiras (no evento Doenças da Mente), enquanto uma mulher fala. Foto: @nany_fotografias. Reprodução: Instagram Coletividade Oficial.

Isso permite que a gente entre nas escolas, temos um alvará para ir nos diretores e apresentar. No mês passado, por exemplo, fomos no Francisco Escobar e apresentamos as músicas. Na semana passa fechamos uma parceria com um estágio terapêutico da Pitágoras, que é coordenado por uma professora e uma auxiliar, as duas são psicólogas e mais 15 estagiárias. Dessas, 8 demonstraram interesse (em ajudar a Coletividade). Falamos que precisávamos de apoio nessa parte, o auxílio psicológico técnico, porque temos cinco letras para analisar ao mesmo tempo, vários detalhes que podem se perder, então uma psicóloga só não é o suficiente.

Nosso intuito é chegar nas crianças e adolescentes e abrir a mente deles com a arte, mostrando que passamos pelas mesmas coisas e que eles não estão sozinhos. Na adolescência você tende a achar que as coisas acontecem só com você e que você está sozinho.

No evento da Câmara chegaram pessoas de muitos jeitos diferentes, trazidos por amigos de amigos e assim por diante, e muitas pessoas levantaram a mão para falar tipo "eu tenho um irmão que sofre de ansiedade". Então percebemos que não era só conversar com quem sofre, mas também com pessoas que estão próximas a pessoas quem sofre. E a gente podendo levar alguém que pode responder a essas perguntas ajuda muito mais do que só a nossa resposta "padrão", que é auxiliar a pessoa a buscar tratamento e estar próxima. Cada caso é um caso e alguém que possa responder as perguntas mais a fundo era totalmente necessário.

Recentemente fomos no Carol On Nights, demos uma entrevista ao vivo lá, exibimos nosso último clipe. E foi muito legal, porque foi o primeiro videoclipe que produzimos voltado para o projeto. Estamos fechando parcerias também com rappers de fora, as coisas estão acontecendo naturalmente. Queremos também fechar parcerias, de início no Francisco Escolar e depois em outras escolas para dar oficinas de foto, de vídeo, de edição. Mas ainda não temos a disponibilidade, nem de tempo, porque ainda carecemos de pessoas, nem de equipamentos e recursos, a gente tem muito essa dificuldade.


Existe uma experiência pessoal de membros do Coletividade, ou com pessoas próximas, do contato com doenças da mente?

As pessoas que estão mais afincas no Coletividade passam ou passaram por essa experiência. No meu caso, meu pai passa por uma depressão desde que eu nasci e é literalmente uma luta diária, então eu cresci vendo como é, já passei comigo também. Hoje em dia, o Coletividade é uma coisa que tem me ajudado bastante. Por isso eu acho até legal a gente dar oficinas. Uma coisa é chegar, das as palestras e falar "beleza, agora vai pra sua casa e continua pensando nas suas fitas". Talvez a gente converse e não atinja certo. Já trazer esses jovens pro universo da tecnologia, através da arte, da gravação, ensinar a fazer um beat, uma foto, um vídeo, é uma oportunidade que nem todos tem, ainda mais em escola pública. Pode ser que nem todo mundo se interesse, mas a gente mostra que tem outros caminhos, tentamos animar a ocupação de tempo desse jovem.


#Enxergandocompalavras: homem sentado na cama, com expressão desolada, abraçando as próprias pernas. Pessoa retratada: @oficialmastermind. Reprodução: Instagram Coletividade Oficial.

Vocês acreditam que o Setembro Amarelo é importante para trazer essa discussão?

Então, a gente até estava discutindo isso recentemente. O último clipe que lançamos chama Doenças da Mente, que também é o nome de uma EP que estamos produzindo. Lançamos esse clipe no dia 1º de setembro, em vista do Setembro Amarelo. A gente percebe que, não que não seja necessário ter, mas não queremos que se fale sobre isso somente no Setembro Amarelo. É nosso receio com essa data, embora tenhamos usado ela porque o diálogo está mais fomentado. Inclusive durante esse mês as pessoas quiseram saber mais sobre, mas já estamos atuando há mais de um ano, todo dia. Nem sempre as portas estão abertas para falarmos, porque é algo que nem todo mundo considera importante.

Poços de Caldas tem uma índice altíssimo de tentativas de suicídio e ninguém fala disso. Tem muito para ser feito e precisamos levar o diálogo para os bairros mais afastados também.

O Setembro Amarelo é sim importante, eu acho necessário ter um mês para focar os holofotes nisso, assim como tem o Outubro Rosa e Novembro Azul. Mas outro receio que temos e ocorre bastante é ver pessoas x postando nas redes sociais que estão abertas no Setembro Amarelo a ouvir pessoas com depressão, como se elas fossem capazes de resolver o problema da pessoa. Não é simples desse jeito. Diariamente pessoas nos procuram também pedindo conselhos e falando que sofrem, mas temos a responsabilidade de falar que queremos que a pessoa chegue e abra o diálogo com a gente, mas não estamos ali para dar a solução. Estamos ali para mostrar um caminho que a gente trilhou e tem sido melhor pra todos do Coletividade, por meio da arte e fazer as coisas porque amamos e não por obrigação. É diferente de só falar: "olha, chama a gente na DM (direct message) que vamos resolver o seu problema". As intenções podem até ser boas, mas só mostra que precisamos falar do tema com todo mundo, até com quem quer ajudar.


Existe alguma forma de colaborar com o projeto?

Primeiro, estamos abertos ainda para quem quiser fazer parte do Coletividade. Como temos limitações financeiras, tentamos ser autossuficientes, tendo gente que colaborar de formas diferentes. A parte administrativa, por exemplo, ainda somos falhos, porque não temos ninguém que é especialista nisso e estamos buscando pessoas para ajudar nesse aspecto. Você também pode ajudar estando com a gente, estando apto a participar das coisas. Nós que somos da parte que coordena os setores temos mais reuniões, mas a gente não exige isso das pessoas. A gente quer que a pessoa venha pelo menos uma vez por mês ajudar, quando precisamos de ajuda a gente pede no grupo e vemos quem se dispõe a ir em tal lugar. Agora formas de colaboração financeira, ainda não temos uma conta para isso. Preferimos pensar na possibilidade de prestar algum serviço, como por exemplo tendo uma produtora do Coletividade, do que só recebendo a ajuda. Assim a gente conseguiria oferecer preços mais acessíveis pros artistas e entrariam recursos para fazer o trabalho das oficinas com os alunos das escolas. Queremos reinvestir qualquer ajuda na sociedade. Outra coisa que ajuda muito hoje é o engajamento das pessoas. Se você não pode contribuir de alguma forma, segue no Instagram, compartilha as coisas que você acha válido. Não porque a gente quer que o Coletividade apareça mais, mas porque a gente quer que outras pessoas façam isso também, a gente quer ajudar vidas, nem que seja uma só.


#Enxergandocompalavras: Luis cantando com um microfone na mão e virado de lado para a câmera. Foto: Reprodução Instagram @odoutorcaligari.

Nesse tempo de projeto, houve algum caso ou acontecimento que marcou vocês?

Algumas vezes na verdade. No dia do evento na Câmara Municipal uma mulher levantou e disse "o meu marido se suicidou e eu não sei lidar com isso" e rolou uma conversa com a psicóloga muito sincera e profunda, mesmo sendo na frente de todo mundo. Foi um momento que pensamos "caramba, já estamos falando sobre e tentando ajudar alguém". Minha irmã, que sofre de ansiedade, também foi no evento esse dia. E quando encontrei com ela, ela estava chorando demais, agradecendo por estar fazendo isso. Foi algo que mexeu muito comigo. Uns dois dias depois disso, vi uma criancinha na rua que disse "olha lá mãe, são aqueles dois meninos que estavam lá na Câmara falando de depressão". Ela pode não ter entendido muito bem, mas estava conversando sobre isso já, o que mostra que dá pra falar também com criança. Nos dias que a gente vai nas escolas, os adolescentes sempre nos chamam, perguntam como levar para a escola deles, que também querem isso lá. Vale a pena demais, tem muita gente que quer conversar sobre.


Qual a mensagem que vocês querem deixar com a atuação do Coletividade?

Que não existe vida mais fácil ou mais difícil e que não existe frescura ou qualquer outra coisa desse gênero quando falamos de doenças como depressão, ansiedade e afins. São pessoas que sofrem diariamente, constantemente, que não são ouvidas, mas que precisam ser e que precisam se ouvir também e se aceitar. A gente às vezes tem vergonha e não quer falar sobre. Então nossa mensagem é levantar o diálogo, ouvir as pessoas e buscar ajuda, porque ninguém está sozinho, por mais que pareça. Sempre tem alguém para te ajudar, sempre, sempre. E se não tiver, o Coletividade vai estar lá para ajudar.


Se você se interessou em fazer parte do Coletividade ou pode apoiar seguindo e compartilhando o conteúdo, o Instagram do projeto é o @coletividadeoficial.


Lembramos que a ajuda profissional é indispensável para quem sofre qualquer doença da mente. Em nossa coluna da semana passada, conversamos com a psicóloga Júlia Machado, que nos informou onde uma pessoa pode buscar ajuda em Poços de Caldas. Para conferir, clique aqui.


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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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