• Ana Carolina Branco

Política também se faz com colher e garfo

Não há mais como desassociar a vida cotidiana da política. Tudo que nos afeta diretamente foi decidido por estâncias maiores e representantes, em tese, eleitos para atender aos interesses da população. Quando o assunto é alimentação, não é diferente. A comida que chega às nossas mesas, sem dúvidas, é pautada por questões culturais. Se no Brasil, o arroz e feijão são considerados uma tradição e, já no Japão, o mesmo ocorre com o lámen, essas escolhas remetem à história e a cultura de um povo. Mas hoje te convido a pensar sobre o ato de se alimentar de uma maneira um pouco mais complexa. Precisamos falar das questões econômicas e sociais por trás dessas escolhas diárias.


Em meados de 2017, a Rede Globo passou a veicular uma série de comerciais com a mensagem "Agro: A indústria-riqueza do Brasil". O slogan "agro é tech, agro é pop, agro é tudo", inclusive, se tornou um viral e talvez você já tenha ouvido/visto essa frase em algum lugar. A existência dessa campanha reforça uma ideia no imaginário coletivo de que o agronegócio (conceituado como toda a cadeia produtiva do trabalho agropecuário) é uma grande força do país, uma indústria vital sem a qual não sobreviveríamos. De fato, esse setor gera bilhões em receita todo ano. Porém, talvez essa riqueza não seja tão nossa como se imagina.



#Enxergandocompalavras: ilustração da Morte aplicando agrotóxicos em plantação de tomates, com o veneno em uma mão e a foice em outra.


A quem, de fato, interessa o crescimento do agronegócio? Para responder à essa indagação, vamos a alguns fatos:

  • O agronegócio recebe diversos tipos de incentivos, subsídios e renúncias fiscais, apenas para citar um deles, desde 1997, os estados são autorizados a reduzir em 60% o ICMS cobrado no comércio interestadual de vários itens essenciais para o setor do agronegócio. Além disso, em 2018, estima-se que a agricultura tenha sido beneficiada com R$28 bilhões em renúncia fiscal.

  • O agronegócio é o setor com mais denúncias de trabalho análogo à escravidão, especialmente na criação de boi e plantações de cana-de-açúcar. Em 2016, dos 965 trabalhadores resgatados nessas condições no país, 214 trabalhavam na pecuária.

  • Quem banca nossa comida não é o agronegócio, é a agricultura familiar. Cerca de 80% da produção do agronegócio corresponde a commodities agrícolas (a exemplo, milho e soja que serão exportados para países como China e Estados Unidos), enquanto quem responde por 70% da alimentação das brasileiras e dos brasileiros é a agricultura familiar. Ou seja, o Brasil produz um número exorbitante de alimentos para exportação e os produtores recebem subsídios para exportar a preço competitivo. Há uma política que beneficia mais aquilo que vai para fora, do que aquilo que supre a nossa necessidade real de consumo.

  • Produzir em larga escala e visando altos índices de lucro esbarra, inevitavelmente, na questão dos agrotóxicos. A liberação de mais e mais agrotóxicos beneficia quem produz, não quem consome. Produzir mais comida não significa acabar com a fome e nem baratear aquilo que comemos. É simples, quanto maior a produção, no menor tempo possível, maior o lucro dos grandes fazendeiros, criadores de gado e afins. O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Todas as instituições sérias têm alertado para o perigo do uso excessivo de agrotóxicos na alimentação. No Brasil, em média, sete pessoas são intoxicadas por dia. De 2007 a 2017, 1.824 pessoas morreram devido ao uso de agrotóxicos e outras 718 pessoas tiveram sequelas.

  • Além de trazerem prejuízos à saúde humana, os agrotóxicos também contaminam o meio ambiente. Isso acontece porque o veneno dificilmente se dissolve em água e tem grande facilidade de penetrar nos tecidos dos seres vivos.

  • Também vale ressaltar que a criação de boi é a segunda atividade que mais causa efeito estufa no mundo.

  • Existe uma relação direta entre grandes chefões do agronegócio e corrupção dentro da política. Não por coincidência, existe a chamada "bancada ruralista", uma frente parlamentar que atua em defesa dos interesses dos proprietários rurais, ou seja, sendo que, muitos deles, são também proprietários rurais. É o que chamamos de "legislar em causa própria". Há um ciclo vicioso. Os governos (em nível nacional e estadual), aprovam medidas que beneficiam os ruralistas e, em contrapartida, os ruralistas votam conforme o solicitado, repassam propinas e afins. O caso da JBS foi apenas um dos muitos exemplos que escancarou esse tipo de lobby.

  • Apoiar o agronegócio colabora com a cadeira de desigualdade social. Para ilustrar como isso ocorre, vejamos o caso de Blairo Maggi. Considerado o maior produtor individual de soja do mundo e um dos 60 homens mais poderosos do país, Blairo foi ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento durante o governo de Michel Temer. Isso significa que, em sua atuação política, Blairo teve a chance de influenciar a adoção de medidas que o beneficiavam na esfera empresarial. Ao fazer isso, preparou o terreno ideal para aumentar ainda mais sua fortuna. Em contrapartida, os pequenos produtores, os produtores de orgânicos, a agroecologia e a agricultura familiar sofrem para se manterem no mercado a preços competitivos, sem todas as mordomias e benefícios que são oferecidos aos grandes produtores.


Se o agronegócio beneficia a elite, prejudica nossa saúde, envenena nossa terra, escraviza pessoas, para quem ele é bom? Sim, eu sei que respondi a indagação desse texto com outra pergunta. O objetivo do Paralelas não é oferecer respostas prontas, mas sim promover o debate e a troca.


Friso que o intuito desse texto não é destilar ódio contra o agronegócio, nem fazer acreditar na falácia de soluções simplórias imediatistas. Mas se buscamos uma sociedade mais justa, devemos repensar estruturas ultrapassadas, que fortalecem um estilo de vida em que o de cima sobe e o debaixo desce.



#Enxergandocompalavras: trabalhadores aplicando agrotóxico em plantação, vestidos com macacão, máscara e luva. Você considera saudável uma comida produzida com substâncias que contaminam do solo às pessoas?

Se você se sentiu "provocada/o" de alguma forma com essa discussão, mas não faz ideia de como pode tentar não fazer parte diretamente desse ciclo, deixo algumas singelas sugestões:


  • Nas futuras eleições, pense bem nas suas escolhas e opte por representantes sem ligação com o mundo do agronegócio. Verifique se sua/seu candidato é comprometida/o com pautas como meio ambiente, contra a liberação de mais agrotóxicos, pela adoção de medidas que favorecem a produção local.

  • Reflita sobre a responsabilidade de possuir poder de consumo. Ao ir em supermercado e optar pela marca X, você está colaborando para que aquela empresa continue crescendo. Quando possível, pense se vale a pena comprar marcas como Friboi, Seara e tantas outras, mesmo sabendo da trama da qual elas fazem parte.

  • Desmistifique a ideia de que produzir alimentos orgânicos é caro. Como foi citado, o agronegócio recebe diversos incentivos para produzir com menor custo, o mesmo não ocorre com a produção de orgânicos. Além disso, alimento orgânico não é somente aquele com um selo de certificação, encontrado a preços inacessíveis. Uma grande parte dos alimentos oferecidos em feiras são orgânicos por si só, mesmo sem receber esse "título". Com um olhar atento, você também certamente encontrará próximo a você uma casa com um pé de limão, alface, salsinha e diversos vegetais. Um pé de amora no parque. Uma árvore de pitanga na estrada. A Natureza é extremamente fértil e abundante, é possível produzir alimentos de maneira orgânica até mesmo em situações muito desfavoráveis.

  • Estude sobre a importância de apoiar os movimentos populares que lutam pelo direito à terra. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) do Rio Grande do Sul é responsável pela maior produção de arroz orgânico da América Latina, tendo colhido 27 mil toneladas na safra 2016-17. Essa produção é um ato de resistência e a maior prova de que, mesmo com poucos recursos, é possível alimentar muita gente, sem envenenar o solo e tudo ao redor.


Para quem se interessou pelo assunto, complexo demais para ser tratado em uma única coluna, deixo abaixo links de fontes de consultas das informações passadas e onde é possível se aprofundar.


Diário Oficial da União - resolução que libera benefícios para o agronegócio


Manual do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor com mitos e verdades sobre os agrotóxicos


Matéria sobre a liberação indiscriminada de agrotóxicos


Por que a grande mídia e o agronegócio se apoiam?


Blairo Maggi investigado por corrupção ativa


Levantamentos sobre trabalho análogo à escravidão e o agronegócio



Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.

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