• Matheus Soares

Pedra que rola não cria limo

Caro leitor: desde já, peço desculpas se chegou até aqui em busca de respostas. Sei que não, mas é legal reconsiderar, né? Em tempos de discussões cada vez mais grandiloquentes, oferecer algo de novo tem sido uma tarefa e tanto. Por isso, pretendo ser curto. Começo esse texto ouvindo essa música e tentando usar o backspace apenas quando surgir a necessidade de corrigir a grafia de algo.


Nunca me manifestei com opiniões tão surpreendentes como alguns colegas das ágoras de agora. É que às vezes, mesmo quando não tinha nada a dizer, eu dizia. Hoje, em recuperação, quando não tenho muito a dizer, não digo. Melhor não estragar a leitura de ninguém, né? Sigo firme na sinceridade que minhas exclamações oferecem. Mesmo quando se apresentam em silêncio, com as cortinas fechadas.


Em Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade, eu li:


Todo escritor acredita na valia do que escreve. Se mostra é por vaidade. Se não mostra é por vaidade também. Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres. O ridículo é muitas vezes subjetivo. Independe do maior ou menor alvo de quem o sofre. Criamo-lo para vestir com ele quem fere nosso orgulho, ignorância, esterilidade.


Tive a ideia de vasculhar os comentários postados depois da declaração de Carlos Bolsonaro sobre as tão comentadas transformações por vias democráticas. A imagem a seguir apresenta os três primeiros tweets, verificados às 20h44 do dia 11 de setembro de 2019.

#enxergandocompalavras: print com comentários favoráveis a ideia de Carlos Bolsonaro de que transformações radicais não são possíveis por vias democráticas.

Ouvindo Gilberto Gil, me deparei com a definição que pode ser usada não só nesses casos de exageros virtuais, mas em outras diversas situações:


Penúria, fúria, clamor, desencanto

Substantivos duros de roer

Enquanto os ratos roem o poder

Os corações da multidão aos prantos

Alguns sugerem que eu saia no grito

Outros, que eu me quede quieto e mudo

E eis que alguém me pede: "Encarne o mito"

"Seja nosso herói, resolva tudo"

Ok, ok, ok, ok, ok, ok!

Já sei que não dei a minha opinião.

É que eu pensei, pensei, pensei.

Palavras dizem sim, os fatos dizem não.


Gosto sempre de lembrar uma passagem protagonizada pelo colunista Zózimo Barroso do Amaral, anotada em sua biografia intitulada Enquanto houver champanhe, há esperança. Em 1979, em plena ditadura militar, ele escreveu que a atriz e cantora argentina Libertad Lamarque passava férias no Rio de Janeiro. Dias depois, ironicamente, publicou uma errata: "Não é Libertad Lamarque, mas Libertad Leblanc."


E encerrou dizendo: Leblanc ou Lamarque, o mais importante é ter Libertad no Brasil.

#enxergandocompalavras: foto de Zózimo Barroso do Amaral aparentemente em seu escritório. Uma máquina de escrever ganha destaque em sua mesa. Na parede, uma faixa com o primeiro nome do escritor.

Caro leitor, peço desculpas novamente. Na mesma música de Gil, ele diz o que assino embaixo: então não falo, música e poeta, meu papo reto sai sobre patins, a deslizar sobre os alvos e as metas. Mais do que respostas, tenho buscado mesmo as perguntas. Acho que você também, né?


Os Rolling Stones também nos ajudam a pensar na canção (I Can't Get No) Satisfaction.

Quando estou dirigindo o meu carro e um homem surge no rádio, ele me conta mais e mais informações sem valor algum para controlarem o meu pensamento. Eu não consigo, é o que eu digo: eu não consigo me satisfazer, eu não consigo me satisfazer, mas eu tento, e eu tento, e eu tento, e eu tento.


Mergulhado no que Édouard Dujardin chamava de Fluxo livre de consciência, termino minha reflexão nada reflexiva. Nesse looping de algumas boas referências, termino com uma frase de Apparício Torelly, o Barão de Itararé, e com um poema de Paulo Leminski.


O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.


Um homem com uma dor

É muito mais elegante

Caminha assim de lado

Com se chegando atrasado

Chegasse mais adiante


Carrega o peso da dor

Como se portasse medalhas

Uma coroa, um milhão de dólares

Ou coisa que os valha


Ópios, édens, analgésicos

Não me toquem nessa dor

Ela é tudo o que me sobra

Sofrer vai ser a minha última obra.

Number 28. Jackson Pollock. 1950.

Matheus Soares é publicitário, formado em Publicidade e Propaganda e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social. Passou a valorizar, recentemente, o quinto dedo de seu pé direito, a quem homenageia nesse fim de texto.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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