• Daniel Chagas

Precisamos falar sobre o parto

Atualizado: 9 de Ago de 2019

Antes de entrarmos direto no texto, quero propor uma reflexão rápida: pare por um segundo e pense sobre o que te disseram sobre o seu parto. Você nasceu de um parto normal ou cesariano? E por quê?


#Enxergandocompalavras: Imagem de pais banhando seu filho recém-nascido, que dorme no colo da mãe, logo após o parto humanizado - Foto: Hypeness

Se sua resposta foi de que seu nascimento se deu pelo modo cirúrgico, você está entre os cerca de 55% do número de partos que ocorrem no Brasil. Porém, segundo a Organização Mundial de Saúde, é recomendado que sejam feitos entre 10% e 15% de partos cesarianos, realidade da qual o país se encontra à contramão. Em terras nacionais, o número de cesáreas vem crescendo cada vez mais, abrangendo surpreendentes 84% do número de partos na rede privada de saúde e 40% na pública.


Mas se até a OMS recomenda que o parto cirúrgico seja feito com parcimônia, por que temos optado por ele?


Os motivos aparentes e mais comentados por especialistas têm relação com a falta de informação clara a respeito e o medo do sofrimento, ainda mais se tratando do sofrimento do bebê. Porém, pesquisas indicam que o parto humanizado, também chamado de "parto do século XXI", aquele com total controle de decisão da gestante, seja a opção mais saudável tanto para ela quanto para a criança, uma vez que é respeitado o tempo do nascimento para cada caso e feito de modo que a mãe se sinta segura e, mais importante, confortável e respeitada.


É muito comum ouvirmos que o nascimento “foi agendado” para o dia tal. E este é um dos maiores problemas destacados pelos especialistas, que apontam para o fator primordial: o bebê precisa estar preparado e maduro para nascer. E a partir do momento que este nascimento possui uma data marcada para atender à agenda de médicos, ou até mesmo o medo da família que pretende assegurar a saúde de seu filho, ocorre o inverso, trazendo ao mundo uma criança que não atingiu seu estágio ideal de amadurecimento, o que pode trazer complicações e, como em muitos casos, expõe o recém-nascido a riscos relacionados à sua imunidade ainda debilitada pelo adiantamento.


A Organização Mundial da Saúde salienta que a cesárea, todavia, não deve ser descartada e deve ser uma opção. Porém, aponta que deveria ser caso de extrema necessidade e recomendação médica, para quando a saúde da mãe ou do bebê esteja em risco. Um destes casos, por exemplo, é se a gestante apresentar problemas relacionados à hipertensão em seu pré-natal. Nesta situação, recomenda-se que se faça uma intervenção cirúrgica. Outro momento em que se recomenda a cirurgia é para os casos em que haja o chamado acretismo placentário, quando a placenta se cola no útero e impede o nascimento do bebê.


Motivos como o cordão enrolado ao pescoço da criança, ou ele estar sentado na barriga da mãe são controversos, uma vez que alguns médicos apontam pela viabilidade do parto normal e humanizado ainda nestas condições, dizendo ainda que se tratam de situações naturais. Por outro lado, é comum ouvirmos tais justificativas para se fazer a intervenção cirúrgica, evidenciando ainda mais que a maternidade é algo ainda em processo de estudo, sem uma verdade absoluta para qualquer uma das teorias


Questões de infraestrutura também são fortes atenuantes nas tomadas de decisão, pois não são todos os hospitais que possuem as condições ideais para proporcionarem um parto humanizado. Há relatos de casos em que não havia um anestesista que pudesse ministrar o medicamento na gestante que pedia pela intervenção, por exemplo. E sendo necessária uma estrutura maior qualificada, com uma demanda maior de profissionais capacitados e uma equipe talvez maior (enfermeiras, médicos e até uma parteira), é recomendado pelo hospital o parto cesariano.


#Enxergandocompalavras: Imagem de uma mãe que coloca a foto da ultrassonografia ao lado da sua barriga

A deputada estadual de São Paulo, Janaína Paschoal levou à câmara dos deputados no último mês de julho uma proposta de lei que sugere que a mulher teria o direito de optar pela cesárea eletiva, aquela por meio da qual se pode escolher a data em que o parto irá ocorrer, a partir da 39ª semana de gestação. Atualmente, é considerado ilícito e antiético que se agende o parto, sob a prerrogativa de que se deve respeitar a individualidade dos casos.


A proposta gerou enorme debate e reaqueceu a discussão a respeito de qual dos modos é o “correto” a se buscar. Segundo a deputada e os apoiadores da proposta as mulheres possuem o direito de escolher o que melhor lhe cabe e não lhe deve ser imposta alguma opção, seja qual for.

#Enxergandocompalavras: Deputada estadual Janaína paschoal sentada à mesa na Câmara dos deputados, falando ao microfone - Imagem: Câmara dos deputados

Entretanto, como apontam alguns estudos e alguns especialistas, o número de cesáreas só tem crescido e muito por conta da dissuasão feita pelos profissionais ginecologistas, que desestimulam suas pacientes a optarem pelo parto normal ou o humanizado. Para estes especialistas, esta desmotivação vem de um comodismo por parte dos médicos, que não podem estar à disposição de suas pacientes 24 horas do seu dia, esperando o rompimento da bolsa a qualquer momento, sendo muito mais simples um horário marcado e uma cirurgia feita de maneira rápida.


Outro aspecto amplamente debatido é o da violência obstétrica, mais um dos motivos geradores de medo às gestantes. Muitas vezes ouvimos relatos de profissionais que “forçaram” o parto, chegando até mesmo a agredirem às mães, apertado suas barrigas para “empurrar” o bebê. E desta maneira, ao invés de ajudar, é claro, causaram mais danos à saúde física e mental da mãe e da criança, o que fomenta ainda mais debates sobre o assunto.


Felizmente nossa cidade conta com um dos sistemas públicos de maternidade referência para a região. A lei municipal Nº 9134, de 2016, assegura que a gestante tenha total controle sobre o parto, prevendo inclusive que se faça um Plano Individual de Parto, documento a ser entregue ao hospital com diretrizes descritas pela paciente, determinando suas vontades acerca de medicamentos e procedimentos que ela aceita ou não durante seu trabalho de parto, como no caso da aplicação do hormônio artificial, a ocitocina, que acelera o processo de dilatação, ou o da episiotomia, que é o corte feito no períneo, com o intuito de ajudar na passagem do bebê. Este último, contudo, já foi apontado como sendo um procedimento desnecessário pelo Ministério da Saúde, em 2017.


A lei propõe que o médico respeite o documento, porém possui o direito de fazer alguma intervenção que julgar necessária de acordo com o estado de saúde dos pacientes. O também chamado Plano Municipal para Humanização do Parto dá a liberdade à gestante para escolher um acompanhante e, além disso, uma doula, profissional que irá oferecer todo o tipo de auxilio, como massagens, exercícios e apoio psicológico, para estarem ao seu lado durante todo o decorrer do trabalho de parto. Também deve ser apontado que para muitos especialistas o papel mais importante a ser desempenhado pelo médico responsável é o de garantir um pré-natal de qualidade para a gestante, uma vez que é por meio deste processo que se identifica as peculiaridades de cada caso e pode se prevenir problemas graves no decorrer da gestação e determinar se a gravidez é considerada de risco, para então ser recomendada uma cesárea, se for o caso.


Outra vantagem da cidade de Poços em relação às demais é o crescente número de grupos dedicados a darem palestras e cursos sobre maternidade à população. São grupos que buscam levar informações de maneira simplificada e bastante clara para as mães e demais indivíduos que queiram conhecer melhor o universo da maternidade.


Todo este debate está ainda muito longe de resolução e as pesquisas a respeito da maternidade apenas no início. Mas muito já se discute sobre os cuidados com o recém-nascido e a chamada “hora dourada”, isto é, a primeira hora de vida da criança que, segundo pesquisadores, é um dos momentos mais importantes, senão o mais importante, para o bebê e que este deve estar junto de sua mãe e, inclusive, deve ser amamentado pelo tempo que for necessário, a chamada “livre demanda”.


Podemos observar que vivemos em uma cidade privilegiada e, de toda a discussão, a conclusão que se tem é que a pessoa com mais voz de decisão deve ser a mãe que, junto do apoio médico, irá se posicionar e decidir sobre seu trabalho de parto e talvez um dos momentos mais importantes da sua vida: o nascimento de um filho.

Quer saber de onde eu tirei isso? Aqui embaixo vou deixar algumas das minhas consultas e referências: Dois Lados da Moeda: Parto normal x Cesárea – Jovem Pan News


LEI Nº 9134/2016 - Leis Municipais


MATERNIDADE REAL | Espaço orienta gestantes e famílias com equipe multidisciplinar – Poços Já Mulher


Maternidade – Santa Casa Poços de Caldas


O Renascimento do Parto - Netflix


Parto humanizado – Doula explica benefícios do procedimento – Poços Já


Parto normal versus cesárea no Brasil - Café da Manhã


Parto normal x cesárea: as terríveis consequências da epidemia de cesarianas pré-agendadas no brasil – Hypeness


Parto normal x cesárea: saiba quais são as principais diferenças entre os dois – Pais e Filhos Uol


Projeto que permite à gestante optar por cesárea causa polêmica em audiência – Câmara dos deputados


Daniel é formado em Publicidade e Propaganda pela PUC Minas - Poços de Caldas, aspirante a fotógrafo e editor de vídeos. Não assiste, lê ou ouve nem metade das coisas que gostaria, deseja muito ajudar a construir um mundo melhor e segue tentando.

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