• Ana Carolina Branco

Palavras sem patrocínio

O processo de divulgação e troca de informações é algo que está em constante movimento. Muitos foram, e ainda são, os aspectos responsáveis por alterar a forma como temos acesso a notícias e ao conhecimento: a internet, as novas mídias, a ascensão de figuras influenciadoras, as crises em veículos de comunicação já consolidados.


Como quase tudo a vida moderna, há uma série de contradições e debates sobre as implicações das informações que chegam até nós por vias digitais. Umberto Eco já declarou em uma entrevista que "as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis", por dar o mesmo palanque de fala a pessoas que pregam discurso de ódio e aquelas que tentam promover reflexões, por exemplo. Não podemos deixar de lembrar também que a maior parcela da população brasileira ainda não tem acesso à internet diariamente. Logo, o debate sobre acesso à informação ainda tem muito a avançar.


Nessa coluna em específico quero falar de uma das coisas boas nesse mar de contradições: o crescimento do jornalismo independente. Quando se fala em "jornalismo" isso não se refere somente ao impresso ou a quem fica apresentando notícias atrás de uma bancada, mas a todo profissional de comunicação habilitado que dá vazão a informações e a todo projeto ou iniciativa com o mesmo intuito.



#Enxergando com palavras: mãos suspensas, uma segurando um microfone, outra segurando um jornal e outra segurando um crachá escrito "independente". Imagem: Portal Metrópole

Como o nome já sugere, esse tipo de jornalismo é "independente" por representar sua própria finalidade e não seguir pautas que sejam do interesse de uma instância maior, seja por interesses comerciais ou editoriais. Nesse tipo de jornalismo a opinião não vem mascarada de imparcialidade, pois se assume que isso não é possível. Jornalistas independentes podem escolher um lado do muro. E tá tudo bem, né?! Verbalizar o que pensa não é um crime. A fraude só ocorre quando vemos mídias contando narrativas tendenciosas, mas alegando ser "isentonas".


Ainda, há profissionais que dificilmente teriam espaço em mídias tradicionais, seja pelo teor dos seus discursos antissistema ou porque não se adequam aos padrões impostos por essas redes, muitas vezes, conservadoras e antiquadas. É no jornalismo independente que essas pessoas acham seu espaço. Em podcasts, quadros no youtube, artigos em blogs ou portais especializados. Já citamos, inclusive, alguns projetos de jornalismo independente em matérias anteriores, como o Nexo e a Lupa.


A importância desse tipo de trabalho se dá, principalmente, pela possibilidade de serem aliados no combate às fake news, auxiliarem a filtrar conteúdo e promoverem um acesso menos centralizado e burocrático da informação. Deixar que o controle da informação esteja apenas nas mãos dos poderosos é perigoso e nada saudável. O interesse público do conteúdo é passado pra trás facilmente a favor da monetização da informação. Obviamente, isso não desmerece 100% a importância das grandes mídias. Elas são capazes de informar, em uma perspectiva macro e geral. E o jornalismo independente vai atender aos anseios daqueles que buscam informações mais específicas, segmentadas e profundas, sejam elas na área de política, cultura, geografia, lazer ou o que for.


#Enxergandocompalavras: ilustração com várias pessoas emitindo balões de fala coloridos. Arte: Jing Wei

Um outro ponto importante é que a maioria dos projetos de jornalismo independente recusa patrocínio de empresas ou promove conteúdo publicitário, para garantir uma maior liberdade de expressão, de forma que isso não afete o conteúdo que desejam transmitir. Logo, o incentivo financeiro é importante para que essas iniciativas continuem existindo.


Se sua situação financeira permitir, considere a ideia de apoiar alguma iniciativa desse tipo. Por meio do financiamento coletivo, muitas ideias saem do papel. É possível, por exemplo, fazer uma assinatura mensal por R$12 para ter acesso ao conteúdo ilimitado do Nexo. Existem muitas formas de colaborar com a construção de um mundo melhor e uma delas é apoiando pessoas, ideias e projetos que promovem aquilo que você acredita.


No meu caso, sou apoiadora do Comida Saudável para Todos, um projeto que promove reflexões sobre a relação entre a nossa alimentação diária e tudo aquilo que está por trás dela. Com uma colaboração de R$10 por mês, recebo um e-mail mensal riquíssimo de conteúdo, com indicações de matérias, documentários e análises da Juliana, a jornalista idealizadora do projeto. Esse tipo de conteúdo e informação eu não poderia consumir assistindo apenas a emissora que propaga o jargão "agro é tec, agro é pop".


"Que grande momento pra se viver esse em que, com um clique, você pode ajudar a construir a mídia que você quer consumir. Política é isso, é fazer parte de processos que movem diálogos" (Cris Bartis, co-fundadora do Mamilos, um dos projetos de jornalismo que são viabilizados com apoio por financiamento coletivo)

Para encerrar o assunto, te convido a pensar sobre quais são as fontes que formatam o seu pensar. Onde você vai pesquisar se uma notícia é verdadeira? Você busca conteúdo ou só navega pelos links sugeridos e relacionados? Será que não existe algum blog, podcast ou página que fala sobre as coisas que gosta, mas ainda é desconhecido para você? Mesmo quem apenas navega nas informações em rede, está cocriando indiretamente conteúdo, pois está ajudando a colocar em evidência determinadas informações, no lugar de outras. Se eu puder ter sua atenção por mais duas linhas gostaria de sugerir que valorize a produção do conteúdo independente. E, dentro do possível, financie aquilo que você acredita.


Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.


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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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