• Matheus Soares

O que os olhos não veem, o coração sente

Atualizado: 25 de Abr de 2019

“Eu fiquei cego com nove anos em decorrência de um acidente. Estudava em Campinas, depois fui para São João da Boa Vista, mas morava em Divinolândia. Meu pai descobriu, em 1994, a AADV (Associação de Assistência aos Deficientes Visuais) e daí a gente se mudou pra Poços. Eu parei no segundo ano do ensino fundamental e a AADV ofereceu a possibilidade de voltar para o ensino regular e dar continuidade aos meus estudos até a faculdade. Eu tive todo o amparo e apoio que precisava porque lá eu tinha aula de orientação e mobilidade, como andar com bengala, aulas com sistema de computador, todo esse instrumental necessário para que eu pudesse voltar a vida escolar e retomar a minha adaptação ao mundo.”

Rodrigo Galhardi é quem abre a primeira coluna do Coletivo Paralelas. Não por acaso. Galhardi é um exemplo de bem-estar social, de compreensão lúcida dos problemas e, principalmente, um conhecedor da vida. Alguém que não desistiu de nenhum sonho e que tem como missão inspirar pessoas. Ainda que ele não se prenda diretamente a essa tarefa, é natural e sincero. Galhardi sente como ninguém os traços, as cores, as linhas e as formas. Sabe que sua limitação não o limita e que seus desejos não podem ser interrompidos senão pela própria decisão.


O Coletivo Paralelas nasce com a ideia de exaltar perfis, instituições e iniciativas que fazem bem para a cidade. Rodrigo é uma dessas pessoas. A AADV é uma dessas ações. No texto de hoje, além de conhecer um pouco da vida dessa grande pessoa, você vai conhecer também o trabalho da instituição, que há mais de trinta anos dá todo o suporte para deficientes visuais de Poços de Caldas e região.

“O interessante é que muitas vezes você tem algum tipo de problema e você pensa que é o único com aquele problema, inclusive a tua família. E daí quando você vai para uma instituição que nem a AADV e percebe que existem outras pessoas na mesma condição que você, você meio que se resgata e pensa assim: não, não é um problema só meu, é um problema de todo mundo que está aqui dentro. E daí você acaba se tornando mais forte em relação a essa percepção de que as pessoas também tem a deficiência e nem por isso elas deixaram de viver, de ter vida social, de ter vida escolar, de ter momentos de lazer. Além da questão instrumental que a instituição oferece, tem essa possibilidade de você socializar com outras pessoas e conseguir se resgatar mesmo”, lembra Galhardi.

A instituição


A AADV, que tem sede em Poços de Caldas, é uma entidade de referência na prestação de serviços de reabilitação/habilitação, apoio social, pedagógico e educacional para deficientes visuais. Um dos objetivos da instituição é articular ações que possam adaptar o deficiente à prática do pleno exercício da cidadania.


Para utilizar os serviços da instituição, lembra Galhardi, é necessário entrar em contato e agendar um processo de triagem com a equipe técnica formada por psicólogos, pedagogos, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais.

#enxergandocompalavras: foto da AADV clicada durante o dia na esquina da instituição. Em destaque, árvores que compõe a fachada. A foto foi retirada da fanpage da entidade.

“Essa equipe, de posse de um laudo prescrito por um oftalmologista, vai fazer uma avaliação das condições e quais as atividades são importantes para a pessoa naquele momento, em termos de reabilitação, apoio pedagógico e educacional. Depois disso, a equipe direciona as atividades fundamentais e a pessoa também tem a possibilidade de escolher outras formas de adaptação, como, por exemplo, natação, canto coral, aula de informática, braille, biblioteca, reforço escolar, entre outras.


Como é viver num mundo de pessoas que enxergam sem enxergar?


“A gente tenta mostrar para as pessoas, tanto aquelas que nasceram com a deficiência quanto aquelas que tiveram a deficiência no decorrer da vida, que elas têm uma limitação, mas que elas não são incapazes”, ressalta Galhardi. “Elas têm uma limitação visual que não fazem incapazes para atividades da vida, do cotidiano. E daí a gente trabalha muito com a questão da consciência para que a barreira psicológica não seja mais significativa que de repente uma barreira arquitetônica, uma barreira de comunicação. Então, romper com a limitação psicológica de que não é pelo fato de se ter uma deficiência, que alguém é incapaz para o mundo.”

A história de transformação de Rodrigo Galhardi na AADV se mistura com sua ascensão profissional. Sempre foi uma preocupação devolver parte do que lhe foi oferecido enquanto aluno. Característica que faz de Rodrigo uma pessoa extremamente grata e socialmente responsável. Em 2001, por exemplo, começou a colaborar na área de informática e passou a participar do conselho já em 2008. Depois, tornou-se presidente da instituição entre 2009 e 2010, vice-presidente entre 2011-2015. Atualmente, é membro da diretoria e diretor de assistência social.

“A sensação que a gente tem é de devolver para a instituição como forma de gratidão tudo aquilo que a instituição ofereceu um dia. E quando eu falo instituição, eu não só falo de uma estrutura física, de um prédio, de equipamentos não... mas instituição como um conjunto de pessoas mesmo. Eu pensava: o que a instituição fez por mim um dia, eu tenho que devolver para os associados, para os atendidos.”
#enxergandocompalavras: foto com Rodrigo palestrando no Espaço Cultural da Urca. De camisa roxa, posicionado a frente de uma tela de projeção, ele segura um microfone

Todos os cargos nos quais Galhardi pôde oferecer o seu talento foram voluntários. Seu trabalho, no entanto, vai além disso. Enquanto membro da instituição, luta todos os dias para que as pessoas conheçam, valorizem e colaborem com a AADV.

“São duas situações: a instituição ser conhecida é importante, primeiro, pelo fato de que existem pessoas com deficiência visual, tanto na cidade quanto na região, que não sabe do amparo que a AADV pode oferecer. Então, uma das vertentes da divulgação é importante em função disso, que as pessoas que tenham deficiência visual saibam que existe uma instituição com a qual elas podem contar. E mais: é uma instituição que vive com recursos da sociedade. Apesar da gente ter convênio com as prefeituras das cidades da região e com a Prefeitura de Poços, o recurso é insuficiente. Então a gente realiza eventos durante o ano como bingos, jantares, almoços e bazares. Por isso, é importante que as pessoas conheçam a instituição para que elas saibam como colaborar e de que forma elas podem colaborar. A AADV não liga para as pessoas para pedir doação. A gente gosta que as pessoas se divirtam, que estejam com a gente compartilhando boas histórias e experiências.”

A instituição é aberta a qualquer tipo de visita e se localiza na rua Louis Braille, 85, no bairro Residencial Paineiras. O telefone é (35) 3714-3807 e o site, para mais informações, é www.aadv.com.br. Na próxima quarta-feira, a entidade realiza um bingo que entre outros prêmios, pretende sortear eletrônicos, cestas e cristais.

#enxergandocompalavras: convite para o bingo que será realizado no dia 01 de maio, às 14h, na AADV. Em fundo branco, as informações são apresentadas em azul e destaca, no fim da arte, o logo da instituição.

Além da função que desempenha na AADV, Rodrigo Galhardi é assistente legislativo da Câmara Municipal de Poços de Caldas desde 2005. Percorre várias cidades dando palestras, participando de eventos sociais e intensificando a luta pela causa dos deficientes visuais. Galhardi sempre se preocupou com a compreensão que as pessoas têm acerca dos desafios e dificuldades que enfrentam. Por isso, também visita escolas conversando com crianças e adolescentes.


#enxergandocompalavras: Rodrigo Galhardi, em pé, com professores em uma escola de Poços de Caldas. Ao fundo, prateleiras com cadernos e livros.

#enxergandocompalavras: Rodrigo Galhardi, de camisa rosa, fala com alunos de uma escola da cidade. Em frente a um quadro negro, tem em suas mãos uma bengala.

Rodrigo Galhardi foi tema dessa coluna e será tema sempre que a discussão tiver como plano de fundo algum sonho. À AADV, em nome de todos os membros do Coletivo Paralelas, nossa sincera admiração e respeito. No vídeo abaixo, você confere algumas atividades oferecidas pela entidade. Até a próxima coluna!

Matheus Soares é publicitário, formado pela PUC Minas Poços de Caldas e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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