• Ana Carolina Branco

O que é ser patriota?

Devo alertar que essa é uma coluna um pouco diferente das que já escrevi por aqui. Sem dados, estudos ou grandes problematizações. Meu convite hoje é uma reflexão sobre o tal do patriotismo.


Ontem (07/07), a seleção masculina de futebol conquistou seu nono título na Copa América. Em dado momento, a transmissão televisiva deu destaque à imagem de Jair Bolsonaro, que estava assistindo ao jogo de camarote. Quem acompanhou toda a disputa presidencial nas eleições de 2018, sabe que Bolsonaro sempre alegou ser um patriota e um defensor do orgulho nacional. Inclusive, após eleito, adotou como slogan a frase "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".


Não entrarei no mérito do quão contraditório é esse suposto amor de Bolsonaro pelo Brasil. Afinal, em minha concepção, alguém que realmente ama seu país, não se presta ao papel de ceder a exploração das maiores riquezas a nações estrangeiras, como a floresta amazônica, ou faz discursos criminalizando e atacando o próprio povo, como as comunidades indígenas. Tomemos como foco o estereótipo que Bolsonaro representa e dissemina de patriotismo: alguém que veste a camiseta verde e amarela em dia de jogo, se orgulha de cantar o hino nacional, quer ver a economia crescer e acha que seu país deve ser superior em relação aos outros.


Mas até que ponto essa representação é suficiente ou verdadeira? Nos últimos anos, temos uma parcela da população que se "apropriou" da bandeira brasileira para sair às ruas em manifestações, como símbolo de uma suposta justiça, e uma outra parcela que passou a ter vergonha de usar a bandeira, pelo mesmo motivo. Temos também visto o Brasil virar motivo de chacota em manchetes de jornais internacionais. E, até mesmo, nossas relações comerciais estão sendo abaladas. Essa crise externa na nossa imagem, seria um reflexo da própria percepção que temos feito do nosso país? Será que não estamos sendo patriotas o suficiente?



#Enxergandocompalavras: dezenas de vitórias-régias boiando sobre a água. Planta essa que, além de ser característica da região amazônica, é símbolo de uma lenda tupi-guarani.


Vamos recorrer, primeiramente, ao dicionário para tentar responder essas indagações:


Patriota

adjetivo e substantivo de dois gêneros

Pessoa que ama sua pátria, que se esforça para lhe ser útil, agindo em seu favor ou na sua defesa. Que ama, protege e guarda a pátria.

Vejam bem, o significado passa pela palavra amor e nada remete ao ódio, guerra ou hostilidades. Logo, podemos amar nosso país, sem depreciar outra nação ou precisar estar acima de alguém. Ufa!


Se esforçar para ser útil parece algo acessível. Creio que trabalhar, estudar, empreender ou cuidar da família já é o suficiente para cumprir essa parte do conceito.


Não encontrei em nenhuma definição, alguma parte que diga que devemos aceitar tudo em nome da bandeira. Logo, sem essa de ame-o ou deixe-o. Dá pra amar e corrigir.


Também não existe (ainda bem!) o "manual do patriota ideal". Talvez porque, em um país do tamanho do Brasil, amar a pátria pode ser representado de diversas formas, sotaques, tradições culturais e hábitos. Para tornar esse conceito menos abstrato, elaborei minha própria lista de coisas que acho bem patriotas. Compartilho abaixo:


Não jogar lixo na rua. Votar. Prestigiar o cinema nacional. Comer farinha de milho. Separar a coleta seletiva. Respeitar as regras de trânsito. Alimentar um animal abandonado. Doar a roupa que não usa mais. E o sangue quando possível. Lutar contra toda forma de preconceito. Varrer a calçada do vizinho por gentileza. Ouvir o amigo, que precisa de ajuda, chorar as pitangas. Aliás, saber o que significa chorar as pitangas. Reconhecer a importância das nossas universidades públicas. E do SUS. E do SAMU. Aceitar que nem de todas as coisas se pode ter orgulho. Entender que se amar o Brasil é defendê-lo, em briga de marido e mulher, se mete sim a colher.


Deixo, para finalizar, trechos da poesia "Pátria minha", de Vinícius de Moraes, versos estes que foram escritos quando o poeta, em 1949, passava uma temporada em Barcelona e lamentava a saudade do Brasil:


A minha pátria é como se não fosse, é íntima

Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo

É minha pátria. Por isso, no exílio

Assistindo dormir meu filho

Choro de saudades de minha pátria.


Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:

Não sei. De fato, não sei

Como, por que e quando a minha pátria

Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água

Que elaboram e liquefazem a minha mágoa

Em longas lágrimas amargas.


Vontade de beijar os olhos de minha pátria

De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...

Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias

De minha pátria, de minha pátria sem sapatos

E sem meias, pátria minha

Tão pobrinha!


[...]


Mais do que a mais garrida a minha pátria tem

Uma quentura, um querer bem, um bem

Um libertas quae sera tamen

Que um dia traduzi num exame escrito:

"Liberta que serás também"

E repito!


[...]


Agora chamarei a amiga cotovia

E pedirei que peça ao rouxinol do dia

Que peça ao sabiá

Para levar-te presto este avigrama:

"Pátria minha, saudades de quem te ama…


Ainda há tempo de voltar a sentir orgulho de trajar verde e amarelo.



Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.


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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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