• Maddu Martins

O andar da carruagem - a saúde em Poços de Caldas

No início desse ano, a OMS declarou que estávamos vivendo uma pandemia do novo coronavírus. Os casos na China estavam se expandindo cada vez mais e a quantidade de países afetados haviam triplicado naquela época. Não demorou muito, é claro, para que esse inimigo, invisível a olho nu, chegasse às terras brasileiras. Consequentemente, o abominável e até então, pouco conhecido microrganismo veio “visitar” Poços de Caldas. Foi no dia 20 de março a confirmação do primeiro caso de Covid-19 na cidade e a partir desse momento, as informações que contemplam a área da saúde no município, mudaram completamente. Tal qual em outras cidades do mundo, as notícias daqui, sendo elas verdadeiras ou falsas, foram tomadas pelo vírus.


Aproximadamente um dia após a confirmação do primeiro caso, foi publicado no Diário Oficial do Município de Poços de Caldas, o Decreto nº 13.286. O Decreto, além de determinar estado de calamidade, estabeleceu medidas a serem tomadas, visando o combate a propagação do coronavírus. Dentre essas medidas, estavam a proibição de eventos religiosos, a suspensão no funcionamento de estabelecimentos comerciais - com exceção daqueles considerados como essenciais - e a limitação no horário de funcionamento do transporte público.


Os cidadãos poços-caldenses, ligeiramente assustados com as primeiras mortes por Covid-19 à época, procuraram, em sua maioria, seguir corretamente as determinações e orientações do Decreto Municipal e dos órgãos de saúde. Algumas pessoas, mais conscientes, aos poucos foram compreendendo a gravidade da situação e aqueles que podiam ficar em casa, assim o fizeram. Esse isolamento social foi determinante para que os números de casos permanecessem baixos em Poços. Exemplificando, até a metade de abril, os casos confirmados na cidade eram apenas quatro, nos deixando na 6ª posição das regiões do Sul de Minas com casos de Covid-19.


Entretanto, poucos dias depois, em 24 de abril, constatava-se que o município já era o 3º em número de casos, com 14 confirmações e um aumento de 250%. Por outro lado, enquanto os números cresciam, nesse mesmo período, empresários e comerciantes foram até a prefeitura para pedir a reabertura do comércio (algo que se concretizaria poucas semanas depois, em maio). Isto posto, é perfeitamente possível afirmar que o significativo aumento de casos em nossa cidade, bem como em diversas outras localidades do país, está sim, atrelado a reabertura do comércio.


Podemos consolidar a afirmação anterior, por meio de uma breve analise do gráfico abaixo (Gráfico 1), onde é possível obter um panorama do crescimento exponencial, de acordo com as datas, desde o início da pandemia – em março, até os dias atuais. Observa-se que no dia 25 de abril, os casos confirmados ainda eram cerca de 13. Já no dia 25 de maio, um mês depois, os casos haviam triplicado. Nota-se ainda, que conforme os dias foram se passando e as medidas de flexibilização do comércio foram aumentando, a população foi equivocadamente se descuidando e forçando agressivamente a volta de uma antiga rotina, que já não mais deveria existir.



Gráfico 1. Evolução dos Casos Confirmados por Data. Foto: Painel informativo Prefeitura de Poços de Caldas

A apreensão com relação ao retorno do comércio em suas atividades habituais, não é em vão. Visto que, muitos desses lugares não estão verdadeiramente preocupados em cumprir as normas de proteção contra a doença. Na semana passada, por exemplo, a Prefeitura notificou 44 estabelecimentos por descumprimento das medidas de prevenção à Covid-19. Dentre esses estabelecimentos estavam bares, hotéis, lojas de conveniência, lanchonetes, supermercado e cervejaria. Dois desses locais, inclusive já eram reincidentes, ou seja, já haviam sido previamente notificados por meio de diversas denúncias feitas pela população. Apesar do expressivo valor da multa aplicada para essas situações (o equivalente a R$ 5.737,00), e das sanções que vão desde interdição, até cassação do alvará sanitário, é nítida a deliberada falta de discernimento de alguns locais, em estar de acordo com as medidas que visam a saúde e a segurança de todos.


As medidas de prevenção e controle sanitários devem ser rigorosas em estabelecimentos comerciais e de serviços, especialmente no centro da cidade, uma vez que, o deslocamento de pessoas para a área central, seja para trabalhar ou em busca de serviços, pode estar diretamente ligado aos casos de contaminação por coronavírus. Um estudo desenvolvido pelo Grupo de Estudos em Planejamento Territorial e Ambiental do IFSULDEMINAS, mostra como funciona essa correlação. Segundo os dados levantados pelos pesquisadores, os casos acompanham a densidade populacional de Poços, sendo que a proporção de pessoas contaminadas por região, acompanha a quantidade de população residente. Dessa forma, as regiões Sul e Leste são as mais afetadas pela pandemia, pois, uma boa parte desses moradores, se deslocam para a região central para trabalhar ou em busca de um emprego (Gráfico 2).



Gráfico 2. Total de Casos por Região. Foto: Painel informativo Prefeitura de Poços de Caldas

De acordo com a pesquisa, essas regiões (Sul e Leste), são as que apresentam as menores rendas, menores taxas de alfabetização, maiores densidades habitacionais, maiores concentrações de população negra e uma grande quantidade de mulheres responsáveis por domicílio. Existem ainda, uma série de pontos, que devem ser considerados para o entendimento da repercussão da contaminação dessas pessoas pela doença e que fazem com que a população dessas localidades seja a mais vulnerável. Fatores esses como saúde, exposição à contaminação, quantidades de pessoas morando em uma mesma casa e até mesmo o fato de serem regiões menos assistidas pelo poder público.


É importante lembrarmos que atitudes simples em nosso dia a dia, como a utilização de máscaras e o distanciamento social, salvam vidas. Não podemos nos deixar levar por uma falsa sensação de segurança, quando a responsabilidade está em nossas mãos.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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