• Matheus Soares

No princípio era o verbo (racista)

O Dia da Consciência Negra, comemorado anualmente no dia 20 de novembro, traz como ideia principal a reflexão constante sobre o racismo. Manifestado de modos distintos, o preconceito pela cor ainda existe. No Brasil, onde a maior parte da população é negra, a dificuldade de ingresso no mercado de trabalho, por exemplo, é um desafio gigantesco. A juventude negra também é a que mais morre no país. Estatísticas e outras centenas de dados comprovam o que fascistas pelo mundo afora preferem não discutir. Mas a luta, vocês sabem, não pode parar.


A língua portuguesa, repleta de sinônimos, termos e possibilidades, às vezes confunde quem com ela não possui afeição. Pela complexidade que carrega, é comum praticarmos erros sem sequer notarmos. Com cuidado, vasculhamos o nosso dicionário mental e na busca pela melhor expressão, encontramos no caminho dezenas de outras que dizem a mesma coisa. Ainda bem, né?


Fosse apenas a multiplicidade de significados, estaríamos bem. Fato é que nosso idioma também oferece como opção acepções que têm em suas origens conceitos racistas e discriminatórios. Quantas vezes, por exemplo, dissemos que fulano estava denegrindo o outro? O verbo “denegrir” significa, em suma, tornar negro. Por essa ótica, se alguém prejudica uma causa, um lugar ou uma pessoa, ela está a transformando em alguém sem valor.

Foto: Reprodução/Ceará Sem Racismo #enxergandocompalavras: desenho de um rosto negro apresentando as cores e o estilo da campanha Ceará sem Racismo

Somos racistas em diversos pontos e o primeiro passo para nosso aprendizado é admitir essa condição. Ao longo de séculos, aprendemos (sem saber, é claro), que o racismo é algo natural e que quando tocamos nesse assunto corremos o risco de cometermos exageros. É bom destacar também que há os racistas convictos, esses sim muito mais perigosos. A nós, cabe o exercício diário da reflexão e, principalmente, de uma profunda mudança de postura.


Você deve se lembrar de alguma vez em que disse “a coisa está preta!”, não? Associada a escuridão e ao que há de pior no mundo, a expressão preservada por gerações também é racista. Pense aí em quantas vezes você disse que alguém havia sido judiado. Há muito tempo – e sobretudo no último século – judeus foram perseguidos de diversas maneiras. Logo, se alguém está sendo judiado, essa pessoa sofre como um judeu ou uma judia.


Quando alguém é colocado numa “lista negra”, entendemos que ela está sendo perseguida ou que não pode mais frequentar determinados ambientes, certo? Mais uma vez, o termo racista serve apenas como um ato de desrespeito. E se alguém compra algo do “mercado negro”, alguém fez algo de errado, ilegal, perigoso e ilícito, né? Lista de termos racistas atualizado.


Se lembram daquela novela chamada Da cor do Pecado? Pois é, esse nome também é racista. Utilizado como elogio muitas vezes, a expressão denota algo de impuro, que é o pecado. Logo, se alguém é negro, esse alguém é alguma coisa que devemos ter distância. Ai que invejinha branca eu tenho daquela pessoa! Opa! Termo racista identificado novamente. A palavra “branca” tira todo os males de um pecado capital criado e difundido pela igreja. Inveja é coisa de negro e não pode. Para os brancos, inveja pode e é algo natural que não machuca.

Foto: Reprodução/Prefeitura de Fortaleza #enxergandocompalavras: um olhar de um branco é apresentado em preto e branco com a indagação: "você é racista?". Um pequeno texto ressalta as dificuldades encontradas por negros de todo o Brasil e encerra dizendo: "Somos todos diferentes, mas temos direitos iguais".

“Foi quando meu pai me disse, filha: ‘você é a ovelha negra da família!’”. Assim cantou, despretensiosamente ou não, Rita Lee. O trecho, sem me ater ao significado real da música, nem a intenção da cantora, também é racista e reforça o preconceito estrutural, alimentando a percepção que temos do termo “negro”. É preciso cuidado para construir qualquer diálogo porque fazer nas coxas ninguém merece!


Opa! De novo. Fazer nas coxas está errado, pois a expressão lembra de forma negativa um das imposições feitas aos escravos. Ao moldarem o barro nas coxas para fazer telhas de casas, relata a história, pela diferenciação de cada corpo, as telhas não saíam exatamente iguais umas às outras. Por isso, não valiam e eram descartadas. Um exemplo prático de como os termos ficam no nosso dia a dia sem nenhuma reflexão!


O termo empregada doméstica, por exemplo, também é outro erro. Na época da escravidão, negras com traços europeus, com o tom de pele mais claro, eram as escolhidas para servir os senhores dentro de casa. As noções de “status” que foram impostas a elas permitiam que elas fossem “domesticadas”, deixando de ser animais selvagens. Muita cautela, portanto, com o termo!


Às vezes, brincando com algum amigo, a gente solta um “nem vem porque eu não sou tuas nega!”. Não é preciso explicar muito, né? Mulheres negras não podem e não devem ser submetidas a tudo. O termo sugere que sim, por isso, mais uma vez, cuidado. Quando na origem do termo, há pouco tempo historicamente falando, as mulheres negras eram propriedades dos homens brancos e serviam apenas para seus prazeres sexuais.

Foto: Reprodução/Estado do Ceará 2013 #enxergandocompalavras: imagem dividida ao meio. Do lado esquerdo, há a foto de uma negra com os dizeres: "51% da população do Brasil é negra". Do lado direito, há foto de uma branca com os dizeres: "E a outra metade tem o dobro de oportunidades". No final da imagem, a frase: "Isso tem que acabar".

Não é intenção desse texto provocar polêmicas e julgar pessoas pela ignorância dos termos. Eu mesmo já disse, se não todas, muitas dessas palavras sem perceber. Vamos a parte propositiva? Vamos pensar juntos em como podemos reajustar essas expressões?


Por que ao invés de “denegrir”, a gente não usa “depreciar”? Segundo o dicionário, depreciar denota alguém que perde o valor, o preço. Melhor, né? Sai denegrir, entra depreciar, combinado?


Por que ao invés de “a coisa está preta”, a gente não diz que “a coisa está difícil pra todos”? Tenho a impressão de ambas as frases dizem as mesmas coisas, entretanto a última não é preconceituosa, né?


Por que ao invés de “judiar”, a gente não usa o verbo “maltratar”? O segundo verbo já traz logo de cara que alguém está sofrendo algum mal e deixa de destacar essa anormalidade a um conceito antissemita.


Por que ao invés de “lista negra”, a gente não diz que alguém pode estar sendo observado com mais atenção? Com essa mudança, retiramos o termo racista e ainda somos sutis ao denunciar uma perseguição.


Da cor da pecado, invejinha branca, ovelha negra, fazer nas coxas e doméstica estão erradas em tudo também! Hora de riscar esses termos do nosso vocabulário, né? Quando alguém abusar da nossa boa vontade, que tal usar um “nem vem que não tem”?


Desconstruir esses discursos é algo urgente. Sem essa de “não sou racista pois tenho um amigo negro na escola”. Essa explicação – que não cola há tempos – também é racista.


Tá a fim de começar a transformar o seu pensamento sobre esse tema tão importante? Bora pesquisar juntos outros termos como cor de pele, estampa étnica, meia tigela, mulata, moreno, cabelo ruim, negra de beleza exótica, magia negra, serviço de preto?


Ah, posso deixar outra dica? Se liga só nesse vídeo!

Pensando bem, dá pra continuar usando o “denegrir” sim. Desde que seja pra elogiar alguém, né?


Matheus Soares é publicitário, formado em Publicidade e Propaganda e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social. Erra palavras o tempo todo e se arrepende de coisas que já disse. Como é um ser humano como qualquer outro, entende que os desacertos funcionam como combustível para a evolução. Segue errando, mas tentando sempre.


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