• Ana Carolina Branco

“Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira"

Feminismo para quais brasileiras? Essa foi a indagação que permeou a roda de conversa ocorrida na terça-feira passada (30/04), no espaço da PUC Minas de Poços de Caldas.


Organizado pelo Coletivo Feminista Panapanã, o evento contou com as falas e colaborações das incríveis mulheres Lúcia Vera Lima, Fernanda Resende, Jeanne Moreira e Augusta Clementino e com a mediação de Katlylin Eleutério.


A data para o encontro foi escolhida justamente por sua simbologia. No dia 30 de Abril se comemora o Dia Nacional da Mulher, este que acabou não se tornando muito conhecida, em virtude da ampla divulgação e celebração do Dia Internacional da Mulher (8 de Março). Katlylin Eleutério, integrante do Panapanã, nos conta um pouco sobre a origem da data brasileira, que nasceu como uma homenagem a Jerônima Mesquita, uma enfermeira que liderou o movimento feminista no país e que colaborou na criação do Conselho Nacional das Mulheres.



Roda de conversa 'Feminismo para quais brasileiras'

#enxergandocompalavras: As 5 mulheres participantes da roda estão sentadas atrás de uma bancada. Lúcia Vera fala, enquanto as demais observam. Foto: Reprodução Instagram Coletivo Feminista Panapanã.


Kat também ressaltou em sua fala a importância de se discutir sobre a pluralidade e a interseccionalidade das mulheres brasileiras. Para ela, as pautas feministas devem levar em conta as particularidades de cada minoria. Falar sobre essa distinção é de extrema importância, especialmente no meio universitário onde, muitas vezes, as discussões ignoram ou desconsideram a realidade de mulheres negras, pobres, periféricas e/ou LGBT+.


Lúcia Vera, presidenta do Centro Cultural Afro Brasileiro Chico Rei e integrante do Coletivo Negro de Poços de Caldas é quem inicia a roda e destaca a necessidade de falar das vivências negras. Lúcia nos lembra que sempre houve diferenças entre o feminismo negro e o branco. No início do movimento feminista no Brasil, enquanto as brancas lutavam para poder trabalhar, as negras já ocupavam postos de trabalhos, por exemplo, como empregadas, costureiras e babás de famílias da elite. Enquanto as mulheres brancas lutavam por mais liberdade, a mulher negra clamava por respeito a seu corpo, que era tratado (e ainda é!) de forma hipersexualizada. Como exemplo recente, Lúcia citou a "Globeleza", figura criada pela Globo que deveria representar a imagem do samba mas que, na verdade, só escancarava o racismo e machismo estruturais.


Para quem deseja se aprofundar no assunto, Lúcia indica a obra "Quem tem medo do feminismo negro?", de Djamila Ribeiro, considerado um excelente livro acerca da necessidade de racializar as questões de gênero e classe.


"Ocupar espaços historicamente negados já é uma conquista, como o caso da própria universidade. Muitas vezes as mulheres negras não estão nesse espaço porque estão tendo que trabalhar para não passar fome. Não estão porque vêm de uma situação de pobreza que passa por gerações", conclui Lúcia.

A professora Fernanda Resende, e membro do Coletivo Educação, acrescenta outro ponto a essa discussão: a questão da desigualdade social. Fernanda nos alerta que a desigualdade não se trata apenas da diferença de renda entre as classes. A desigualdade limita e prejudica o acesso a todas as esferas da existência, de direitos básicos como segurança, lazer e saúde a aspectos como acesso à universidade e à cultura. Quanto mais à margem um indivíduo se encontra, mais dificuldades ele encontrará no ambiente pessoal e profissional. Dentro dessa trama de exclusão, ser mulher, negra e pobre significa estar na ponta mais afastada de qualquer privilégio.


Fernanda traz à tona um estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), de 2017, sobre as mulheres que chefiam lares e que expõe as desigualdades em razão do gênero e raça. Em 2015, cerca de 26 milhões de lares foram declarados como chefiados por mulheres. Com chefia, entende-se a pessoa responsável pela maior parte da renda da casa. Desses 26 milhões, 15 milhões eram chefiados por mulheres negras e 11 por mulheres brancas. Os indicadores dessa mesma pesquisa demonstraram que, enquanto uma mulher branca chefiava um lar com uma média de R$1500 mensais, uma mulher negra exercia a mesma chefia com uma renda de R$831.


As mulheres, historicamente, já possuem mais empecilhos na hora de sustentar uma residência sozinhas. Essa dificuldade pode ser apontada por muitas razões. Uma delas, segundo Fernanda, ocorre devido à guarda legal dos filhos (em caso de separação de um casal heterossexual) ser, na maioria das vezes, atribuída a mulher. Essas mulheres se sujeitam então a uma tripla jornada e, ainda, muitas vezes sequer recebem a pensão que lhes é de direito. Engolidas pelas responsabilidades, torna-se muito mais árduo para elas estudarem, se profissionalizarem-se e ocuparem cargos com altos salários.


A advogada Jeanne Moreira, e também membro do Panapanã, resgata a trajetória da mulher brasileira do ponto de vista jurídico. A mulher era enxergada como um mero objeto, primeiro do pai, que deveria zelar pela vida da filha até que essa fosse "transferida" para seu marido. Foi somente em 1904 que a mulher passou a ser compreendida, pela primeira vez, como sujeito de direito. Longas três décadas depois, em 1934, a mulher brasileira conquistou seu direito ao voto. Em 2006, a Lei Maria da Penha surgiu como uma tentativa de proteger a mulher, que embora já seja compreendida como um sujeito de direito e uma cidadã, ainda é vista como objeto pela sociedade patriarcal e sofre diariamente com indíces altíssimos de violência doméstica.


Recentemente, a Lei do Feminicídio, também se sobressai como uma medida para tornar mais grave o crime praticado conta uma mulher, em razão da sua condição de gênero. Entretanto, Jeanne ressalta que as leis não são suficientes para garantir a proteção da mulher e é responsabilidade da sociedade comprar essa causa. Muitas vezes, as mulheres vítimas de violência, carecem de acolhimento nas delegacias, em suas próprias famílias, na mídia e nos hospitais. Esse ciclo de hostilidade oprime mulheres, que se sujeitam a permanecer em silêncio e não denunciarem por medo. Jeanne conclui sua fala ressaltando que ainda há muito a ser conquistado quanto o assunto é direito das mulheres e, mais do que isso, é preciso lutar para que nossos direitos já estabelecidos não sejam ameaçados. Um exemplo desse perigoso retrocesso é a tentativa de deputados em aprovarem uma lei para proibir o aborto até em caso de estupro.


Augusta Clementino, membro do Coletivo Negro de Poços de Caldas, compartilhou um caso real e próximo de descaso das instituições públicas para com a mulher. Augusta relatou que, há alguns anos atrás, ao acompanhar uma amiga que foi fazer uma denúncia, ouviu de um delegado falas acusatórias como "mas que roupa você estava usando? o que você insinuou?". Se o cenário é hostil para relatar um caso de assédio ou abuso, o mesmo vale para mulheres negras que decidem denunciar algum episódio de racismo. A lei estabelece que, em caso de um ataque verbal de cunho racista, é necessário que uma testemunha confirme o ocorrido. Mas, por inúmeras vezes, as pessoas se esquivam de suas responsabilidades e não depõem como testemunhas, ajudando a perpetuar o cenário de impunidade no Brasil.


Traçando um paralelo sobre as diferenças entre as mulheres negras idosas, adultas e jovens, Augusta conta que para mulheres de sua faixa etária, acima dos 60 anos, a dificuldade é ainda maior. Pois, dentro do próprio ambiente familiar, as mulheres eram ensinadas a casarem e obedecerem a seus maridos. Augusta também relata sobre a falta de espaços quem deem visibilidade à mulher negra em bairros e periferias.


"Por tudo isso que foi dito hoje, como afirmar que todas as brasileiras são iguais e carecem das mesmas demandas?", é assim que Katlylin encerra as discussões, de forma sucinta e brilhante.

É impossível falar de feminismo, desprezando todo o contexto de opressões diferentes que cada mulher sofre. Sim, as lutas devem ser interseccionais, porque sim, as explorações também são.



#enxergandocompalavras: ilustração com mulheres de diferentes cores, cabelos, traços e corpos


Se você não teve a mesma oportunidade que eu de estar presente nesse maravilhoso evento, te convido então, a partir da leitura dessa cobertura, a questionar seu feminismo. Será que ele é mesmo para todas as brasileiras ou apenas para o grupo de mulheres dentro da sua própria realidade?


Obs.: a frase célebre do título é de autoria de Audre Lorde, uma grande inspiração que nos deixou como legado a necessidade não de um, mas de vários feminismos, para várias mulheres, para que todas sejam livres.



Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.


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