• Matheus Soares

Não é nada, mas é tudo

"E, para começar, emendemos Sêneca. Cada dia, ao parecer daquele moralista, é, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. Não digo que não; mas por que não acrescentou ele que muitas vezes uma só hora é a representação de uma vida inteira?"

É, eu também acho maravilhosa essa passagem do conto O Empréstimo, de Machado de Assis. E é com ela que eu resolvi iniciar esse pequeno texto que vai apresentar a você um projeto incrível sobre o autor. Criador de histórias inesquecíveis como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, Assis é um dono de uma escrita única e inconfundível. Sua representação, entretanto, vem sendo questionada. Mas vamos com calma.


Antes de contar a real desse texto, é importante lembrar. A Lei de Direitos Autorais determina as normas que respaldam todas as criações, certo? Aqui no Brasil ela não é exigida mais depois de 70 anos da morte do autor. Toda a obra de Monteiro Lobato, por exemplo, está livre de qualquer pagamento desde julho do ano passado (Lobato veio a falecer em 1948)


Machado de Assis, tema desse papo, faleceu em 1908. Portanto, sua obra veio a se tornar domínio público só em 1978. Com essa decisão, todas as editoras ganharam o direito de publicar e vender livremente suas histórias. Até aí, nada de mais, não é?


O problema é que as editoras, durante esse tempo todo (e até antes, quando a obra de Assis ainda precisava de um pagamento ao autor), publicaram na orelha de todos os livros uma foto do escritor como se ele fosse branco. Uai, como assim? Machado de Assis não era branco? Não! Machado de Assis era negro. O criador de Bentinho, Capitu e outros personagens icônicos era negro. O autor da maravilha de trecho que abriu esse texto era negro. O maior escritor brasileiro de todos os tempos era negro.

A primeira imagem é como as editoras representavam Assis; a segunda, o último registro conhecido do autor.

Vocês já pararam para pensar nessa injustiça histórica? Nesse racismo velado, historicamente encucado em nós como verdade absoluta? Sim, é de arrepiar. E é para tentar minimizar essa reação que a Faculdade Zumbi dos Palmares resolveu criar a campanha Machado de Assis Real. Destaco aqui o texto que abre toda a discussão:

Machado de Assis. O maior nome da história da literatura brasileira. Jornalista, contista, cronista, romancista, poeta, teatrólogo. E o que poucos sabem: negro. O racismo no Brasil escondeu quem ele era por séculos. Sua foto oficial, reproduzida até hoje, muda a cor da sua pele, distorce seus traços e rejeita sua verdadeira origem. Machado de Assis foi embranquecido para ser reconhecido. Infelizmente. Um absurdo que mancha a história do país. Uma injustiça que fere a comunidade negra. Já passou da hora de esse erro ser corrigido. No mês do Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, finalmente, será. Uma foto do Machado de Assis real está disponível aqui no site, para ser colada sobre a foto antiga, preconceituosa. Uma errata histórica feita para impedir que o racismo na literatura seja perpetuado. Para encorajar novos escritores negros. Para dar a chance de a sociedade se retratar com o maior autor do Brasil. E para que todas as gerações reconheçam a pessoa genial e negra que ele foi. Que cada estante deste país possa ter um livro de Machado de Assis corrigido. A história agradece.

Se estivesse vivo (e está, obviamente, em nossos corações), Assis completaria nesse mês de junho 180 anos. Tempo, né? Mas ainda há como reverter esse erro histórico com uma atitude simples.


Proponho a você postar em suas redes sociais a foto verdadeira de Assis e explicar aos seus amigos sua verdadeira origem. Assim também vou fazer. Não é nada, mas é tudo.


Conheça o projeto clicando aqui! A seguir, deixo links com textos já produzidos sobre o assunto:


Militantes do país reivindicam identidade negra de Machado de Assis

Ensinar que Machado de Assis era negro também será doutrinação ideológica?

Campanha ‘Machado de Assis Real’ recria imagem do escritor negro

Campanha recria foto clássica de Machado de Assis e mostra escritor negro: 'Racismo escondeu quem ele era'

#enxergandocompalavras: foto de Machado Assis negro produzida pela Faculdade Zumbi dos Palmares. De óculos e barba grisalha, o autor aparece também de terno e gravata.

Matheus Soares é publicitário, formado pela PUC Minas e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social.

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