• Ana Carolina Branco

Mais que uma bandeira: a representatividade LGBTQ+ na política nacional

Falar de política não é apenas importante porque estamos em ano eleitoral ou porque uma das características que nos torna cidadãos é o direito ao voto. Nossa vida é afetada diretamente e diariamente pelas escolhas de representantes do povo. Situações como a pandemia, as queimadas no pantanal e a assistência econômica aos vulneráveis demonstram na prática a importância de termos bons representantes.


Já falamos aqui sobre a sub-representação da população negra na política nacional e como essa discrepância é sinal evidente do racismo que ainda precisa, e muito, ser combatido. Se tratando da comunidade LGBTQ+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers e mais), essa representação também é minúscula.


Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Muitas pessoas acreditam que esse é um debate que não deveria existir. Alegam que levantar bandeiras não deve ser uma razão para votar em determinada pessoa. Então, primeiro, vamos refletir sobre a importância da representatividade na política.

Historicamente, grupos de minoria e marginalizados pela sociedade sempre lutaram pela conquista de direitos básicos. E, mesmo após a conquista, batalham para que esses direitos sejam respeitados. Um exemplo prático é a conquista do direito da união civil entre pessoas do mesmo sexo. Essa prática só passou a ser oficializada em 2013, após a publicação de uma resolução. No ano de 1995, a então deputada federal, Marta Suplicy apresentou um projeto de lei que propunha a criação da parceria civil registrada entre casais homossexuais. O projeto jamais foi aprovado na Câmara dos Deputados. Se, naquele cenário, a bancada de deputados favoráveis ou pertencentes à causa LGBTQ+ fosse maior, certamente o projeto de lei teria sido encaminhado.


Além disso, o Brasil possui um agravante que reforça ainda mais a necessidade de inclusão LGBTQ+ na política. A cada 19 horas uma lésbica, gay, bissexual, trans ou travesti morre no país por causa de sua orientação sexual ou gênero. É a maior taxa do mundo. Como criar projetos e leis que protejam essa comunidade e punam qualquer forma de preconceito, sem pessoas dispostas a abraçar essa luta?

Os dados sobre essa representação são escassos e desanimadores. De acordo com levantamento realizado pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, apenas 377 pessoas LGBTQ+ concorreram a cargos nas eleições municipais de 2016 no Brasil. Desses, se elegeram apenas 25 vereadores e um prefeito. No mesmo ano, havia apenas um representante no Congresso Nacional, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), declaradamente gay. Já nas eleições de 2018, 8 políticos foram eleitos para os cargos legislativos e executivos.



Infográfico produzido por Amanda Tung e Bárbara Lira para a Agência Universitária de Notícias

Há também a óbvia questão da importância de diversidade na política para vivermos uma democracia plena. Quando a sociedade elege, em sua maioria, homens, brancos, cisgênero, heterossexuais e mais velhos, está reproduzindo o esquema que beneficia a parte já favorecida da sociedade. É preciso de pessoas LGBTQ+ na política, assim como é preciso de pessoas que representem a classe trabalhadora, professores, artistas, mulheres, negros e todos aqueles que, de fato, compõem e sustentam o Brasil.


O assunto não poderia estar mais atual. Essa semana, em entrevista ao Estadão, o ministro da Educação Milton Ribeiro atribuiu a homossexualidade de jovens a "famílias desajustadas", além de afirmar que deve revistar o currículo do ensino básico e promover mudanças em relação à educação sexual. As falas geraram indignação na esfera social. O Deputado Federal (PSOL/RJ) David Miranda entrou com uma representação na PGR (Procuradoria-Geral da República), pedindo o impeachment do Ministro da Educação por crime de homofobia. Sabemos que, infelizmente, a impunidade é ainda maior na esfera política. A maior prova disso é o fato de Bolsonaro ainda estar no poder, mesmo após tantas falas e atitudes dignas de quebra de decoro parlamentar. Entretanto, ao se ter representantes ativos e engajados pela causa LGBTQ+, o recado é passado de forma à sociedade: não nos calarão mais.


E se essa lógica faz sentido para você também, ao eleger seus representantes para o cargo de prefeito/a e vereadores/as, dê uma lida nas pautas colocadas em seus planos de governo. Se o termo LGBTQ+ não está presente nele, você pode questionar a postura do/da candidato/a a respeito do assunto. Assim você pode votar com a consciência tranquila de não eleger pessoas que disseminam preconceitos e retrocessos à sociedade.




Ana Carolina Branco faz parte da sigla LGBTQ+. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão e por isso escreve para o Paralelas. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.

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