• Maddu Martins

"Literatura sem fronteiras": a cultura e oralidade indígena

Atualizado: 7 de Mai de 2019

A Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas - Flipoços, nos presenteou no início dessa semana, dia 29 de abril de 2019, com uma palestra master, cujo tema foi: “Vidas entrelaçadas às dos Primeiros Habitantes – Diálogo com os povos da floresta e sua importância na formação cultural brasileira”. O Coletivo Paralelas não poderia ficar de fora dessa, e comparecemos ao evento que contou com a presenta do líder indígena Ailton Krenak e das maravilhosas artistas e escritoras Betty Mindlin, Andreia Duarte e Rita Carelli.


A palestra que tratou de um tema extremamente relevante e atual, trouxe com leveza, a importância das culturas indígenas e de sua oralidade na construção da nossa literatura. A forma como foi conduzida (sem alguém para fazer a mediação), foi essencial para que a reflexão chegasse até nós em forma de aconchego, como quando nos deitamos em uma rede no final de uma tarde.


De forma humilde e sábia, Ailton iniciou o papo comentando como eventos iguais a Flipoços podem contribuir para o compartilhamento da trajetória dos Krenak (povo indígena ao qual ele pertence). E, por meio dessa iniciativa, pudemos notar como esses espaços proporcionam um diálogo horizontal entre povos e nos dá a oportunidade para refletir sobre a nossa diversidade enquanto povo brasileiro.


Em sua fala, Ailton Krenak nos apresenta aos povos da floresta que, segundo ele, são de uma complexidade tal que não poderiam se encaixar em uma única denominação. Esses povos da floresta espalhados por inúmeras paisagens como, a Mata Atlântica, o Cerrado e a Floresta Amazônica, trazem para a literatura e para a cultura, singularidades que convocam e dão voz não somente aos seres humanos, mas também a outros seres e elementos que não refletem apenas o nosso espelho.


Krenak, em uma breve introdução de suas companheiras de mesa, destaca como funcionam os tipos de tratamento e algumas relações familiares nas tribos indígenas. Existe um respeito mútuo e, por isso, ocorrem algumas divisões de acordo com as faixas etárias. Um exemplo disso, é Krenak que no auge de seus 65 anos é tratado por Rita e Andreia (com 30 anos) como “tio”. Logo, vemos em nossa cultura, o quanto essas definições são restritas, pois, se referem apenas a família biológica.


Os povos indígenas, segundo Ailton, “não se constroem de modo individualista”, e sim como coletivos. Compartilhando afetos, solidariedade e visões para enriquecer e integrar todos os seres, para além da humanidade. E, por essa razão precisamos “ouvir” o que os elementos da natureza tem a nos dizer, e dar visibilidade a população que ainda possui um vínculo com a terra. Ainda de acordo com o líder indígena, é necessário observar e interpretar a paisagem, uma vez que, as montanhas e os rios também possuem uma espécie de humor. Dessa forma, as tribos podem saber se o dia vai ser bom ou não. Essa prática muito se assemelha à nossa cultura ocidental, onde muitas vezes baseamos a nossa rotina em ‘horóscopos diários’. Antes de passar a palavra a Andreia, Ailton Krenak finaliza falando sobre seu livro, um volume que faz parte da “Coleção Encontros” e conta um pouco a respeito do genocídio dos “Botocudo”.


Foto: Bruno Alves Fotografias


Andreia Duarte, então inicia sua fala de forma cativante, nos contando como foi sua experiência convivendo por cinco anos com a tribo dos Kamayura, na região do Rio Xingu (MT). Segundo Andreia os Kamayura se autodenominam “apyap”, na tradução “os que houvem”. Sua história ficou marcada por estar sempre em busca de mestres que a ajudassem a compreender essa experiência culturalmente rica. Andreia se lembra das histórias que ouvia do falecido pajé Tacumã, sobre como coisas tão cotidianas do nosso mundo, como o fogo, a fala, o amor, surgiram. A atriz evidencia uma das histórias que ouvira, contando como a morte, esse símbolo enigmático e ainda um tabu em nossa sociedade, surgiu de acordo com os Kamayura. É possível ler um trecho desse fantástico mito aqui, em seu trabalho de pós-graduação.


Rita Carelli, por sua vez, não ficou nem um pouco atrás ao narrar suas experiências sobre essa vida, que tal qual ela mesma disse, não escolheu, mas que não a impediu de abraçar com todo o carinho a vivência indígena. Aos três anos de idade já vivia na tribo dos Krahô junto com sua mãe, antropóloga e seu pai, cineasta, que foi responsável pela direção do premiado filme Martírio. Inspirada por um projeto criado pelo próprio pai, chamado Vídeo nas Aldeias, Andreia começou suas produções literárias. Pensando em como a geração de seu pai se encontrava “estregada” por conta de preconceitos arraigados, ela produz uma coleção de livros infantis, baseados em filmes feitos por cineastas indígenas. A coleção traz o que para nós são mitos, mas, para o povo indígena são histórias verdadeiras que contam o dia a dia das aldeias.


Foto: Bruno Alves Fotografias


Suas autenticas obras abordam desde a história de um “monstro”, o qual podemos associar ao nosso folclore com o personagem Curupira; passando por histórias de uma guerra com uma revanche poética, que resgata a ancestralidade; até a história da própria Rita, que com 8 anos passou por uma infância trans indígena, sendo educada como um menino até que atingisse a puberdade. Em suma, seus livros são um pequeno panorama de infâncias indígenas abrangendo seis povos dentre os mais de 300 povos que existem distribuídos por todo o país.


Para finalizar, Betty Mindlin, descreveu sua primeira descoberta com a tribo dos Paiter, falando também sobre seu livro “Diários da Floresta”. Betty fecha com chave de ouro a palestra lendo um trecho de seu livro, onde compartilha o que sentiu presenciando um ritual de cura de uma menina indígena, realizado pelo pajé Narasha.


Enfim, o que nós, membros do Paralelas concluímos dessa palestra, desse bate-papo, dessas histórias cruzadas, é que foi um enorme aprendizado. Fomos brindados com essas excepcionais personalidades e suas narrativas. Saímos de lá com a certeza de que precisamos, urgentemente dar visibilidade a esses povos, absorvendo o que eles têm a nos ensinar, compreendendo seus valores e suas crenças. E especialmente que, a preservação da cultura indígena (que hoje sofre com um conservadorismo que quer extingui-la), deve ser uma luta de todos nós.


Maddu Martins é gestora ambiental e feminista. Acredita que a mobilização coletiva e o protagonismo individual são fundamentais para contribuir em pautas de interesse social. Seu mundo ideal é onde as pessoas valorizem menos bens de consumo e mais momentos incríveis. Adora ouvir simples histórias e não recusa café.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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