• Ana Carolina Branco

Interseccionalidade: um conceito que você deveria conhecer

Embora essa palavrinha não seja tão fácil de ser pronunciada e ainda apareça pouco nas discussões, compreender seu significado é fundamental para qualquer pessoa que se declare defensor ou militante de uma causa, uma bandeira ou uma minoria.


Antes de falar sobre o conceito por trás desse termo, precisamos recorrer a um outro termo: o essencialismo. A sociedade, como um todo, se fundou a partir de uma base essencialista. O essencialismo é a ideia de que existem qualidades detectáveis em grupos de pessoas que as tornam moralmente mais valiosas do que outras. Isso significa que ao longo de toda a história da humanidade pessoas foram perseguidas, excluídas e até assassinadas por não possuírem aquela "essência". O essencialismo segrega pessoas por critérios como gênero, raça, etnia, país de origem, orientação sexual e classe. O racismo e o sexismo, por exemplo, se valem dessa lógica. Mulheres eram negadas a ter direitos básicos como votar, pois acreditavam que essas eram moralmente inferiores ao gênero masculino. Assim como negros foram escravizados, por serem considerados inferiores aos brancos.


Obviamente essa corrente de pensamento é abominável e não deveria continuar sendo propagada em nossa sociedade. Entretanto, as consequências de ideias como essas continuam atingindo pessoas, perseguindo, excluindo e assassinando. É aí que entra o conceito de interseccionalidade. Se há um sistema que oprime pessoas por critérios como gênero, raça e classe, isso significa que à medida em que as pessoas acumulam uma ou mais características vistas como moralmente inferiores (dentro do essencialismo), mais estão sujeitas a sofrerem preconceito, violência e exclusão.


O termo interseccionismo foi proposto, enquanto teoria, por Kimberlé Crenshaw, uma professora, teórica e defensora dos direitos humanos, para discutir a opressão específica às mulheres negras. Ela define a interseccionalidade como:


Formas de capturar as consequências da interação entre duas ou mais formas de subordinação: sexismo, racismo e patriarcalismo.
#Enxergandocompalavras: na foto, Kimberlé Crenshaw ministrando uma palestra, com um mural ao fundo que exibe fotos de mulheres e homens afro-americanos vítimas da violência policial.


Como exemplo e comprovação dessa realidade, Kimberlé trouxe a público dados comparativos sobre a relação de pessoas assassinadas nos Estados Unidos pela violência policial. As maiores vítimas eram negros e, além disso, mulheres. Entretanto, os casos de mulheres assassinadas não chegavam sequer a ganhar notoriedade na mídia.


Entender o interseccionalismo é importante pois somente admitindo que existem grupos mais vulneráveis e suscetíveis a sofrerem opressões, é possível combater toda forma de discriminação. Além disso, o interseccionalismo propõe que todas as formas de opressão estão conectadas, logo, todas as lutas também devem andar juntas.


Carla Akotirene, uma pesquisadora brasileira que também trata sobre o tema, aponta que “a interseccionalidade pode ajudar a enxergarmos as opressões, combatê-las, reconhecendo que algumas opressões são mais dolorosas”. Por essa ótica, cada um de nós pode se colocar como um agente de mudança social, não somente buscando não colaborar com um sistema opressor, mas, especialmente, fazendo oposição a ele.


Um caso recente tipifica perfeitamente a necessidade de se combater as opressões como um todo. Max Souza, candidato ao concurso Mister Brasil 2019, sofreu ataques nas redes sociais por ser um homem gay e negro. Não existe respeito pela metade. Max deveria ser respeitado por todas as condições de sua existência mas, ao contrário disso, sofre com duas formas de discriminação.


Isso nos faz refletir que, enquanto sociedade, não podemos aceitar o retrocesso para nenhuma minoria. Fechar os olhos, por exemplo, para o massacre do povo indígena no Brasil, é se curvar para o sistema opressor. A perca de um direito conquistado, o silenciamento de conquistas, a censura, tudo isso acarreta em prejuízos para todos e não somente para o grupo de pessoas afetadas.


Não teremos progresso lutando por uma causa, ao mesmo tempo em que sufocamos outras. Ahmad Safi, um palestino defensor dos direitos humanos e dos animais, uma vez foi questionado sobre qual militância ele considerava mais importante. Ahmad respondeu:


"Não há uma hierarquia da opressão. Eu luto pela sociedade em que quero viver, com direitos para todas as pessoas, para os animais e com respeito à terra".

Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.


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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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