• Ana Carolina Branco

Eu sou apenas um país latinoamericano

Em tempos de retrocessos políticos e golpes à democracia é consenso que um elemento é fundamental: a união daqueles que resistem. Nas eleições desse ano, muito se falou sobre não "fragmentar" os votos e como os partidos e pessoas consideradas do campo progressista estavam dispersas. Nos dias 1 a 3 de Novembro, aconteceu em Havana, Cuba, a Jornada Continental, uma iniciativa que mostra ser possível articular lutas, bandeiras e ideias e, com isso, fazer avançar pautas.


A primeira Jornada começou a se articular em 2015, como forma de comemorar os 10 anos de derrota da Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Hoje, o evento se formata com uma mensagem de luta pela democracia e contra o neoliberalismo. A edição desse ano teve como foco os povos em luta e países da região contra a crescente hostilidade da extrema direita. O grande objetivo da Jornada é reunir grupos, militantes, sindicatos e líderes de países latinoamericanos que, coletivamente, irão pensar em ações de resistência e firmar compromissos.



#Enxergandocompalavras: foto de duas mulheres na Jornada Continental, segurando um cartaz com os dizeres "Marcha Mundial de las Mujeres: Resistimos para vivir, marchamos para transformar" Foto: Portal Seguimos en Lucha

"Jornada Continental é um espaço de luta construído pelas organizações sindicais e demais movimentos sociais da América, com o objetivo de mobilizar e criar alternativas em defesa da democracia e para enfrentar os tratados de livre comércio que atacam os direitos sociais e trabalhistas". (Definição CUT-FCD)

Você pode estar se perguntando, mas qual a importância de fortalecer a união entre os países latinoamericanos? Por que o fim da Alca foi algo a ser comemorado? Iremos entender esse processo um pouquinho melhor.



#Enxergando com palavras: muro com grafite colorido com bandeiras e com os dizeres "por la hermandad entre los pueblos latinoamericanos". Foto: Celag

A ideia de fortalecimento mútuo entre os países da América Latina não é algo tão recente. As primeiras ideias de integração latinoamericana começam a ocorrer desde 1815. Mas foi a partir da segunda metade do século XX que emergem um número significativo de esforços organizacionais para a integração dos nossos países. Talvez o mais conhecido e significativo seja o nascimento do Mercosul (Mercado Comum do Sul), em 1991, um bloco econômico formado oficialmente pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.


O objetivo, tanto do Mercosul como de outras iniciativas de integração, era lutar pela independência contra o colonialismo, construir nações soberanas e estabelecer instrumentos políticos e econômicos que permitissem prosperar política, cultural e economicamente. Ao analisar a história, vemos que os países "hermanos" passaram e ainda por situações semelhantes a nossa. Por exemplo, o Brasil sofreu um golpe de estado em 1964. O Chile sofreu em um período próximo, em 1973, com o assassinato do presidente eleito democraticamente Salvador Allende. Se nossas dificuldades são semelhantes, nossas lutas também são.


Uma dessas lutas é a forte resistência contra o projeto neoliberal, que explora países subdesenvolvidos oferecendo a falsa ideia de progresso e ajuda. A Alca era uma dessas iniciativas predatórias, iniciada em 1994 no governo do estadunidense Bill Clinton e, posteriormente, levada adiante por Bush, que pretendia abrir indiscriminadamente as fronteiras dos demais países do continente aos produtos das multinacionais estadunidenses. Estava previsto no projeto jurídico, até mesmo, a adoção do dólar em todos os países do continente. Em 2005, a Alca foi arquivada pela Cúpula da Organização dos Estados Americanos (OEA), após os governos de Chávez, Kirchner e Lula decidirem rejeitar a proposta.


O termo "livre comércio" faz parecer que é algo positivo, afinal, deveria estimular a economia, a exportação e os acordos comerciais. Mas, na prática, não funciona assim. Há uma relação assimétrica. Os países muito industrializados oferecem tecnologia, em contrapartida, os menos desenvolvidos oferecem commodities agrícolas (soja, milho, café, entre outros). Nessa relação, um lado ganha mais que o outro. Um levantamento recente mostrou que o principal produto que o Mercosul exporta para a União Europeia é farelo de soja: em 2018, foram 5,7 bilhões de dólares. Para cada dólar de farelo de soja que exportou, o Mercosul importou dois dólares de máquinas.



#Enxergando com palavras: imagem com navio com bandeira da UE e suco de laranja e navio com bandeira do Brasil e vinho. Em 2018, para cada litro de vinho que importou da União Europeia, o Brasil exportou 37 litros de suco de laranja para os europeus. Foto: Revista Piauí

Esse tipo de acordo beneficia também e, principalmente, as empresas transnacionais. As transnacionais são empresas que operam em mais de um país, geralmente em vários, e na maioria dos casos estão sediadas nos países ricos do Norte do mundo (como Estados Unidos, Europa, Canadá, Austrália ou Japão). Temos como alguns exemplos a Coca Cola, Carrefour, Walmart, Monsanto, Cargill e Nestlé. Os acordos de livre comércio visam estimular essas empresas a se instalarem por aqui. E por quais razões elas também se interessam nisso? Essas empresas estrangeiras vêm em busca de vantagens que não encontram em seu país original como:


1) salários menores;

2) direitos sociais e trabalhistas frágeis;

3) impostos e obrigações tributárias baixos ou nulos;

4) acesso fácil e barato a recursos naturais e energia;

5) normas ambientais, trabalhistas e financeiras permissivas ou inexistentes, e

6) Estados – e sobretudo seus sistemas judiciais – frágeis e vulneráveis.


Explicando de forma bem genérica, há uma falsa ilusão de que quando uma transnacional vem se instalar aqui, vai gerar emprego e renda. Sim, ela vai, mas, paralelamente, vai extrair muito mais do que gerar, por produzir com impostos mais baixos, pagar salários que não são justos e, com isso conseguem oferecer preços mais baixos, que ocasionam na quebra de negócios locais. Nessa matéria aqui você pode conferir um caso que exemplifica isso, quando a Coca Cola ameaçou "deixar" o Brasil se não obtivesse o desconto em impostos que desejava.



#Enxergandocom palavras: foto de pessoas segurando uma faixa composta por bandeiras de países latinos e criança passando por baixo da faixa. Foto: Manuel Ortiz

Não há um movimento que seja contra o comércio internacional. Qualquer país precisa vender o que produz e comprar o que necessita. A problemática são as regras dessas negociações.


O assunto é extenso, mas a mensagem é simples: conhecer a luta histórica é importante para não repetir velhos erros. Há quem esteja comemorando um novo acordo comercial selado entre Mercosul e a União Europeia. Para quem quer compreender melhor porque esse tratado é problemático, indico a leitura dessa matéria.


Já escrevi em outro momento uma coluna sobre o que eu considerava ser patriotismo e algumas coisas se aplicam aqui. Um verdadeiro patriota defende a indústria nacional e incentiva o comércio local, latino e justo. Um patriota compreende também que o progresso econômico não deve se sobrepor à causa ambiental e respeito ao povo indígena. Seguimos em luta e, de preferência, articulada.



Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta. Como vegana, latina e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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