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Entrevista com Magaly Franco: "Eu olhava ao meu redor e falava: 'o mundo será que é só isso?'"

Atualizado: Mar 23

No último dia 12 de março, celebrou-se no Brasil o Dia do (a) Bibliotecário (a). A data é comemorada nesse dia por ilustrar o nascimento de Manuel Bastos Tigre (1882 - 1957), o primeiro bibliotecário concursado do Brasil.


Com o intuito de participar simbolicamente desse período, nós, do Coletivo Paralelas, resolvemos iniciar uma série de entrevistas com bibliotecárias e bibliotecários da cidade de Poços de Caldas a fim de verificar quais são as condições de nossas bibliotecas e que maneira podemos contribuir para a disseminação de informação e conhecimento.


Magaly Franco, bibliotecária há quase 20 anos na cidade, foi nossa primeira entrevistada e conta, a seguir, um pouco de sua trajetória na profissão, bem como na construção de sua vida na literatura. O papo também está disponível em áudio no final da publicação.

#enxergandocompalavras: foto de Magaly Franco sentada em uma praça de Lisboa, ao lao de uma estátua do poeta Fernando Pessoa.

Fale um pouco sobre você e sobre as bibliotecas de Poços de Caldas.

Meu nome é Magaly Franco, eu sou bibliotecária aqui na Cultura desde 2003, então são 17 anos que eu estou desde a faculdade até as bibliotecas públicas. Atualmente, eu sou coordenadora das bibliotecas públicas do município. Nós temos quatro bibliotecas que são integrantes do sistema municipal: a centenário, aqui na Urca, a Professor Júlio Bonazzi, no complexo do Monjolinho, a da Cohab, que é a Francisco Manoel da Costa Guimarães, e a Doutor Marcus Vinícius de Moraes, no centro social urbano, na Zona Leste.


Em relação ao empréstimo de livros, existe alguma integração entre as bibliotecas? Há alguma restrição?

Nós temos um catálogo coletivo, que vai ser disponibilizado online. Então indo em uma unidade você já sabe que biblioteca possui aquele título. Quem pode levar o livro para casa? Todas as pessoas residentes no município. Ela faz um cadastro aqui trazendo uma foto 3x4, um documento de identidade e um comprovante de residência. A partir daí ela pode levar dois livros, por 14 dias, podendo ser renovado desde que não exista nenhuma reserva. Fora isso, a pessoa que não tem cadastro pode vir aqui e ler, fazer a consulta local.


Como é o dia a dia do trabalho da/do bibliotecária/o? Como a profissão se constitui?

Primeiro que toda biblioteca pela lei deve ter um bibliotecário. Ele é responsável pela administração da biblioteca e pela coordenação, pela supervisão do trabalho dos auxiliares. Então nosso dia a dia é receber uma doação, junto com a equipe de funcionários decidir o que vai ficar ou não, verificar e analisar o livro que chegou. Se já há um no acervo e o outro está em melhores condições a gente substitui. Também o nosso trabalho técnico, a catalogação. Que nada mais é do que a descrição daquele livro, seu conteúdo, seu formato, número de páginas, autor e classificação que determina um assunto. E esse assunto vai gerar uma etiqueta, que vai levar esse livro para um determinado endereço na estante. Isso facilita o trabalho da busca e da recuperação daquele livro que o leitor está solicitando. Além disso, nós também temos o trabalho de higienização dos livros, de organização, de disseminação do que chega para os usuários, traçamos o perfil do usuário de cada unidade, cada uma tem a sua característica, cada biblioteca tem o seu público. E compete ao bibliotecário traçar esse perfil para, tendo possibilidade, analisar o que ele vai adquirir, qual é a demanda do usuário. Além do que temos que ter a preocupação com o não-utente, que é aquela pessoa que não frequenta a biblioteca.

Lembrando que o acesso à informação e a democratização, tudo isso faz parte da cidadania, da gente promover uma comunidade mais desenvolvida, mais sustentável através da informação.
#enxergancompalavras: foto de Magaly Franco em frente a vitrais coloridos, no Hard Rock, em Buenos Aires, que ilustram figuras conhecidas como a banda The Beatles

A partir da experiência que você tem como bibliotecária, tem como analisar se o fluxo das bibliotecas está aumentando ou diminuindo? Olha, com o advento da internet a gente nota que um serviço prestado pela biblioteca, o de referência, que é quando se vem buscar informações em enciclopédias e dicionários, isso diminuiu muito. Porque as pessoas hoje tem a informação na palma da mão, o tempo todo está ali. Já em relação à literatura, não tem como mensurar o quanto as pessoas compram ou baixam o conteúdo no seu computador ou seu celular. Mas nós temos um fluxo grande de empréstimo de livro de literatura, principalmente.


E o público nas bibliotecas da cidade, como é? Existe um estudo sobre isso?

Ele é variado. De manhã, por exemplo, nós temos um grande acesso de aposentados que vem ler o jornal. Nós temos pessoas que no intervalo do trabalho vêm aqui todo dia e não levam o livro. A pessoa senta e lê um pouquinho do livro por dia. Nós temos pessoas que vêm ver também classificados. São jovens. São pessoas adultas. Os jovens vêm mais pelo empréstimo ou alguma outra pesquisa. E também temos pessoas que estudam para vestibular ou para concurso público, que passam praticamente o dia todo aqui. Nós temos pessoas que escrevem suas teses e dissertações. Ela faz aqui por causa do seu ambiente e traz seu material porque a gente disponibiliza o wi-fi, então eles produzem aqui mesmo na biblioteca.


Em relação a essas mudanças nas políticas de educação que estamos presenciando, quais os desafios das bibliotecas da cidade nesse enfrentamento?

A gente tem que resistir sempre. Primeiro porque não cabe ao profissional colocar sua ideologia na frente. Temos que reagir em consonância com o que diz a Constituição e ela assegura o direito de expressão. E também é garantido o acesso democrático à informação, então nós não temos como censurar isso. É importante essa pergunta porque ontem foi o dia do bibliotecário e a FEBAB (Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas de Informação e Instituições) lançou uma campanha ontem chamada "Bibliotecas que não se calam". E ela disponibiliza um ambiente online com informações sobre o livre acesso à informação e a liberdade de expressão. Ela colocou um canal em que as pessoas podem relatar retrocessos e censuras que ela observa dentro do ambiente de uma biblioteca. É mantido o sigilo da pessoa que faz essa denúncia. E a gente também tem resistido.

Por exemplo, no começo do ano, fizemos uma exposição aqui que teve uma repercussão muito grande, onde nós embrulhamos os livros que já foram censurados ao longo do tempo. É uma forma de resistir.

Quanto à política municipal, nós não temos nenhuma restrição, não aconteceu nada, mas nós sabemos que no país ou em países com uma tendência pra direita ou extrema direita, há um ambiente de censura, mas cabe ao profissional da informação resistir o quanto ele pode.

#enxergandocompalavras: foto de Magaly Franco com um livro nas mãos na biblioteca do TSE.

De que maneira você resumiria o papel da biblioteca? Por que ainda é um espaço importante, democrático, de convivência e participação?

A biblioteca está a serviço da comunidade. Ela tem que servir e, inclusive, explorar as tendências que aquele município tem. Dentro da Agenda 2030, por exemplo, em municípios de vulnerabilidade social, de extrema carência, a biblioteca tem que dar recursos para promover a inclusão das pessoas e o desenvolvimento na vida delas. E a gente sabe que as pessoas só vão galgar espaços maiores através da informação. Quem tem conhecimento, tem cultura e tem poder de resistir e de lutar.


O que te levou a ser bibliotecária? Tem algum livro especial que te inspira?

Eu sempre pensei o que me levou a ser bibliotecária. Eu nasci em uma fazenda, então quando eu olhava a meu redor o que eu via era só aquilo. Eu falava "o mundo será que é só isso?". E eu tinha um tio que foi para São Paulo, foi o único que saiu daquele ambiente de roça e em um trabalho começou a vender livros, depois ele passou a ter uma equipe de vendedores. Então ele trazia aquilo. Quando chegava uma revista e eu não sabia ler, eu olhava as figuras e pedia para os meus pais que lessem. E quando ele começou a trazer livros aquilo foi um encantamento, porque eu vi que o mundo era muito mais do que aquilo que eu enxergava. Aí já comecei a ler desde pequena. Na minha juventude, uma época em que não tinha internet e a TV estava chegando, a leitura numa cidade pequena, eu sou de Campestre, ela me abriu muito. Eu tinha um gosto musical bom, ouvia muito rádio, ouvia estações boas como a Rádio Cultura de São Paulo, passei a gostar de jazz e de música clássica, tudo ali. Porque eu não tinha esse ambiente de cultura na família. Os livros foram me encantando e quando eu conheci um juiz na minha cidade que lia muito, ele foi me apresentando novas coisas. Esse juiz terminou a vida dele como desembargador e teve que alugar o andar de cima de um apartamento para colocar a biblioteca dele.

Era a coisa mais maravilhosa! Ele me apresentou Sartre, me apresentou Gabriel García Márquez e um livro que me encantou.. Eu sempre falo que se eu for citar cinco livros na vida que eu li, esse não ia ficar de fora, foi "Cem anos de solidão". Aquilo foi um espanto, porque você via que a capacidade de imaginação de uma pessoa não tem limite, não tem fronteira, então aquilo me encantou.

Foi um livro que já li, já reli, já tive não sei quantos exemplares. Eu empresto, ele não volta, eu me castigo e ponho de volta. Porque foi o que me abriu para as infinitas possibilidades da vida. Eu descobri recentemente uma escritora nigeriana, a Chimamanda, que eu aprecio muito. E estamos sempre descobrindo.


Que mensagem final você deixa para quem está lendo e possa ter o sonho de se tornar bibliotecária? Eu penso que na vida a gente tem que lutar muito, muito e sempre fazer aquilo que gosta. Direcionar a sua vida para uma profissão que você gosta, porque aí você vai tentar fazer da melhor maneira possível. E a leitura, sempre falo, não gosto de condenar a literatura, mas eu não me pauto muito em autoajuda, eu vou muito na poesia. Quando não estou bem, eu tenho meus poetas ali que identificam, falam o que sinto e às vezes não sei falar. Eu que sou sozinha, a leitura é uma companhia e abre a leitura do mundo.

O Coletivo Paralelas agradece Magaly Franco, ressaltando de maneira muito especial sua dedicação por essa profissão que faz tanto bem às pessoas.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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