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Entrevista com Hudson Vilas Boas: "A educação é o alicerce da sociedade"

Atualizado: 31 de Out de 2019

O dia 15 de outubro, marca no calendário uma data especial: o dia dos professores e professoras. Falamos sobre a origem dessa comemoração aqui. Para além de uma celebração, é necessário ter esse dia como uma oportunidade para refletir. É importante pensar em como podemos valorizar os profissionais que, diariamente, lutam batalhas em salas de aulas. Munidos de livros e conhecimento, são figuras inspiradoras que contribuem expressivamente para nossa formação como seres humanos. Como coletivo, acreditamos na educação como uma potência transformadora e um direito social básico, do qual ninguém deveria ser privado.


Com base nesses princípios, selecionamos professores que atuam em Poços de Caldas para nos falar sobre suas carreiras, experiências e perspectivas. Na terceira parte dessa série de colunas, entrevistamos o professor de sociologia, Hudson Vilas Boas. Abaixo, confira como foi essa conversa:


Em qual escola você dá aula e há quanto tempo?

Eu completo doze anos atuando no Estado. Antes disso já tinha passado por cursinhos, trabalhei um tempo na prefeitura, trabalhei também uma época em escola particular, mas isso em concomitante com o estado. As escolas que estou hoje são aqui, na Escola Padrão, na Zona Sul, o Polivalente e no David Campista. Então estou em 3 escolas do Estado. Ao todo, tem 15 anos que estou na docência.


#Enxergandocompalavras: foto do professor Hudson Vilas Boas no dia da entrevista. Ao fundo, cadeiras azuis de uma sala de aula.

E essa vontade de seguir a carreira de lecionar, surgiu quando? Eu nunca fui assim o melhor aluno da sala, vamos dizer assim. Eu sempre era muito disperso, embora tivesse uma facilidade muito grande pra humanas e inglês que eu adorava. Mas eu tinha uma certa fobia de exatas. Então não pensava exatamente em ser professor, embora eu sempre tenha gostado também de história geografia e as que já citei, eram as matérias que me chamavam muita atenção no fundamental. E depois com o tempo eu pensava em fazer jornalismo, mas aí eu descobri, acredito que pela minha formação como ser humano, que eu poderia dar uma contribuição maior dando aula. Em primeiro momento pensei em fazer história e depois resolvi prestar vestibular pra ciências sociais, pra poder trabalhar com sociologia e aí eu me apaixonei realmente pela sociologia. Um pouquinho antes de fazer o vestibular eu já estava apaixonado, né? Aí depois quando fui de fato fazer e quando passei e comecei o curso eu me tornei realmente apaixonado pela sociologia. E eu acho que o exemplo de bons professores que eu tive, isso acabou me motivando a escolher pela docência.


Falando nessa questão da influência dos professores na nossa vida, gostaríamos de saber se teve algum que marcou sua formação. E qual a importância de ter uma referência na sala de aula, na área que se pretende seguir. Eu tive vários professores, não sou daqui de Poços, sou de Botelhos, e foi em Botelhos onde eu fiz o ensino fundamental. Tinha alguns professores, como o Walter brasileiro, de geografia, a dona Emília, professora de inglês, a dona Maristela, professora de português. A Divina também, que era uma professor de português. Eu acho que esses professores de certa forma influenciaram. Depois mais tarde, quando fui fazer o ensino médio, e eu fiz no Senai, tive professores também que foram importantes na minha formação. A própria Juliana, que dava aula de português e inglês. Chego na faculdade aí eu contei com professores muito bons, estudei na Unifeob, numa época que a Unifeob estava investindo bastante em licenciatura e na área de humanas. Então eu tive professores ótimos, como a doutora Márcia Roberts, a doutora Patrícia Furanilto, o Cadu, que era nosso professor de geografia, que acho que hoje também é doutor, na época ele era mestre. O Paulo Santor Maior, que também era professor de ciência política.


De certa forma quando você escolhe a docência você passa a buscar referências e também vai lembrando das que teve ao longo da infância e da juventude.

Qual a importância da educação, para você, e o principal papel dela na sociedade? Paulo Freire tem uma frase, acho que até meio clichê, que é: "a educação não muda o mundo. O que muda o mundo são as pessoas e a educação muda as pessoas". Eu acredito, com muita fé e convicção, que nós não temos como pensar em uma sociedade menos desigual, uma sociedade mais justa, um sociedade mais solidária, uma sociedade que se baseie em princípios realmente humanistas, sem a educação. A educação é o alicerce. Hoje em dia, parece muito chover no molhado falar isso, talvez até redundância, mas até pelos ataques que a educação tem sofrido nos últimos tempos, com certeza a educação tem um papel importante na transformação da sociedade.


Eu sempre acreditei que o papel do professor ele não se resume única e exclusivamente ao conteúdo transmitido na sala de aula. É mais se aproximar dos alunos, se aproximar da realidade social onde eles vivem e tentar trazer para a sala de aula algo que faça eles refletirem sobre a realidade em que eles vivem, não ficar restrito ao conteúdo.

Quais são os aspectos que você observa que pioraram e melhoraram na educação e qual importância dessa discussão? Hoje em dia a gente tá vivendo num momento um tanto triste quando a gente vê que, por exemplo, existe uma comparação que alega que o Brasil investe muito em educação. Isso é uma meia verdade. Nós investimos muito porque o Brasil é um país muito populoso, que tem ainda uma grande população jovem, se comparado a outros países. Agora, quando a gente analise através do PIB, o valor por aluno, esse investimento ainda deixa muito a desejar. Então a gente tem que lutar realmente para que se invista mais em educação. É uma discussão que temos que colocar sempre.

Agora o que eu vejo é que nós tínhamos uma série de políticas educacionais que estavam sendo estruturadas, que estavam também dialogando com a população, através de vários órgãos, como por exemplo o Conselho Nacional de Educação. E vejo que, desde o governo Michel Temer, essas políticas educacionais vão desaparecendo e ficando muitas vezes nas mãos dos técnicos e vindo a decisão de cima pra baixo, sem dialogar com a sociedade. Isso, sem dúvida, é um problema enorme e isso é inadmissível pra uma democracia.

Sobre outros aspectos, acho que aqui em Poços mesmo a gente tava caminhando de uma forma muito interessante com a professora Flávia Vivaldi à frente da Secretaria Municipal de Educação. Não sei quais são os planos da professora Maria Helena Vargas, que é uma pessoa experiente que já esteve ali à frente da Secretaria Municipal de Educação, mas desconheço o que ela pretende nesse retorno à frente da secretaria. Espero que ela dê continuidade ao que a Flávia Vivaldi vinha fazendo. Para falar do Estado, onde eu estou inserido, acho que nunca tivemos, pelo menos nesse tempo que estou inserido, há doze anos, uma política educacional realmente com começo, meio e fim. Isso faz falta. Já vi vários projetos serem colocados dentro do estado e vários projetos morrerem, serem abortados no segundo ou terceiro ano, então acho que falta aí uma continuidade e tratar a educação de uma forma mais séria.



#Enxergandocompalavras: foto do professor Hudson Vilas Boas no dia da entrevista, gesticulando com as mãos. Ao fundo, cadeiras azuis de uma sala de aula.

Como professor de humanas, qual a sua visão sobre a perseguição que algumas disciplinas vem sofrendo? Por que isso acontece hoje? Eu acho que isso acontece por vários motivos. Nós somos um país que sempre tratou mal a educação. A educação pública no Brasil foi passar a existir na segunda metade do século XX. Pra se tornar universal, ainda pior, foi a partir da década de 80, com a Constituição de 88.

Então nós temos um país que tem um déficit educacional gigantesco. E é um país também que, por conta disso e vários outros motivos, a gente tem uma propagação de fake news enorme.

Então quando dizem que há professores doutrinadores é surreal, né? Dá pra poder brincar e rir, porque eu, por exemplo, tenho uma aula por semana em cada sala. Eu vejo os alunos por 50 minutos. Então se eu tô conseguindo doutrinar esses alunos em 50 minutos, eu ou qualquer colega meu de sociologia ou filosofia, que é a mesma situação, então esse cara tem que ganhar um prêmio, né? Um prêmio Nobel, um Oscar, vamos inventar alguma coisa aí, porque o cara é muito bom mesmo. O que acontece é que essas disciplinas de sociologia e filosofia, existe um preconceito muito grande em torno delas, dentro do senso comum. A filosofia porque ela tenta mostrar, tenta trazer uma reflexão sobre o que é a vida, simplificando ao máximo, óbvio que a filosofia é muito mais ampla que isso. Mas ela nos traz reflexões sobre o que é a vida, sobre o que nós somos e qual o nosso papel aqui nesse mundo. E a sociologia ela traz, por outro lado, ela tenta descortinar, ou esmiuçar o que são as relações de produção dentro da sociedade. Muito mais do que isso, mas principalmente isso. As relações de produção e o papel que cada sujeito acaba tendo dentro da sociedade. Lógico que existe uma onda conservadora onde se vê a sociologia e a filosofia como inimigas. Uma pena, porque realmente é um preconceito enorme que essas disciplinas têm sofrido.

Que recado você deixa para quem quer ser professor e, especialmente, para quem quer ser professor de sociologia. Eu acho que existem muitos percalços. Hoje em dia existe uma propaganda muito negativa sobre o que é ser professor. Realmente nós temos muitas dificuldades, mas dificuldades que também vão ser encontradas em diversas outras profissões. Mas se a pessoa tem a vontade, o desejo e ela sente que é aquilo que ela deve fazer, ela deve buscar uma licenciatura, seja na área de humanas, na área de exatas, biológicas, ou seja lá qual for. Que ela lute pelo seu sonho, que ela saiba que ela realmente vai encontrar muitas adversidades, mas que podem ser superadas. E que é gratificante. Acho que a profissão do professor é uma profissão extremamente gratificante. Gratificante a ponto de, por exemplo, num determinado ano letivo, isso aconteceu comigo, no primeiro dia de aula eu entrar na sala e uma turma que eu tinha acompanhado desde o primeiro e o segundo, eles estavam no terceiro ano, eu entrar na sala e eles já me chamarem para ser padrinho deles de formatura. São coisas desse tipo que fazem ser gratificante. Agora, para ser professor, também tem que ter consciência que tem que lutar muito pelos seus direitos.

O Coletivo Paralelas agradece ao professor Hudson e o parabeniza por seu amor e dedicação diária, que fazem essa profissão ser tão necessária!

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