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Entrevista com a enfermeira Dirce Hara: "ainda não conseguimos diminuir o índice de DTSs e ISTs"

Saúde pública é uma pauta que nunca perde a relevância. Recorrentemente vemos ações que visam conscientizar a sociedade sobre determinadas doenças, como o Outubro Rosa, destinado à prevenção do câncer de mama e o Novembro Azul, voltando ao combate ao câncer de próstata. E você sabia que o mês de dezembro é dedicado à luta contra as doenças sexualmente transmissíveis?


Nomeado de Dezembro Vermelho, o período marca uma série de discussões envolvendo o assunto e tem como objetivo de fortalecer o diálogo que até hoje é visto como tabu. A data foi oficialmente criada pela ONU, no ano de 1987, com o intuito de lembrar a luta contra a AIDS e transmitir compreensão, solidariedade e apoio aos portadores do vírus HIV. A partir da, ainda, relevância do tema, nós do Coletivo Paralelas, fomos atrás de especialistas na cidade e encontramos a enfermeira Dirce T. Hara Soares, enfermeira da unidade DST Poços, um órgão especializado no acompanhamento e tratamento de pessoas com doenças sexualmente transmissíveis. Confira, a seguir, na íntegra, nosso papo com ela:


Em que ano começou a atuação do DST Poços e, hoje, como é o trabalho de vocês?

Na verdade o DST surgiu na década de 80, foi em aproximadamente 1985 mesmo que iniciou os primeiros trabalhos da atuação, mais voltado para a AIDS, pois na época se observou um aumento, um número grande de pessoas portadoras do vírus da AIDS. Muitas chegavam com o diagnóstico já tardio nessa época.


Aproximadamente quantas pessoas vocês atendem por mês?

Hoje a gente não trabalha só com o HIV, a gente trabalha com as hepatites B e C, com a sífilis, a gente trabalha com as outras ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) como HPV, gonorreia, cancro mole. Então se você for analisar, a gente tem mais ou menos 380 pacientes portadores do vírus HIV que fazem acompanhamento aqui, mais considerando os 300 de hepatite e outros de infecções sexualmente transmissíveis gerais, provavelmente atendemos uma média de 800 pessoas que fazem acompanhamento por aqui.

Imagem: Ministério da Saúde. #enxergandocompalavras: pessoa vestindo uma camiseta com os dizeres "atenção, cuidado e proteção", segurando em suas mãos uma série de preservativos.

Essas pessoas já chegam aqui com o entendimento que estão infectadas ou elas recebem alguma forma de auxílio psicológico para lidar com a notícia?

Não, inclusive temos um profissional psicólogo aqui e, muitas vezes, ele é um aliado pra dar um resultado para a pessoa, principalmente quando se trata do HIV. Algumas pessoas já vem mais "preparadas", sabem que já tiveram diversas exposições, às vezes chegam com sintomas, então estão sabendo do resultado do exames. Logicamente tem outras situações que as pessoas nem se imaginavam portadoras. Aí que entra o trabalho de aconselhamento, do acolhimento. A gente tem que colocar aquela situação de forma que a pessoa se sinta bem acolhida no serviço.


As pessoas procuram diretamente o serviço de vocês ou precisam de um encaminhamento médico?

Muitas vezes chegam através de encaminhamento médico, outros não, chegam por demanda espontânea. Eles sabem do serviço e já procuram para poder fazer os exames. Quando a gente fala de acolhimento e de aconselhamento, a gente tem que olhar o outro de uma maneira que ele perceba a situação que ele sofreu e as exposições que ocorreram, que podem levar a ter um resultado positivo para infecções. Então esse entendimento a gente tem que passar para o outro. Para que, no momento que ele tiver um resultado positivo, ele pense "realmente, sofri várias exposições, então a possibilidade existia".


Você acredita que ainda existe tabu em se falar de DSTs e ISTs?

Ainda é difícil. O enfrentamento é grande de falar de ISTS, falar de sexualidade, falar de sexo. A gente fez um trabalho nas escolas e muitas vezes quando a gente falava de sexualidade e de sexo, as pessoas parecem que se acanhavam diante do tema. Não é uma situação aberta ainda. E para falar de ISTS, você tem que ter uma abordagem de como lidar com isso em situações de casais. Porque aí sempre ouve aquela questão "nossa, fulano me traiu". Por isso tem que ter esse discernimento de como trabalhar essas questões. Existe um tabu, sim, ainda existe.


Imagem: Ministério da Saúde. #enxergandocompalavras: quadro da campanha Dezembro Vermelho, com algumas das formas de se contrair o HIV.

E a dificuldade maior em ter essa conversa com as pessoas você acredita que seja por esse tabu?

Acredito que sim. Muitas pessoas tem receio, elas pensam "e se as pessoas souberem que eu tenho alguma IST?", elas demonstram que não querem que os outros saibam, tem medo da discriminação . O preconceito ainda é grande em algumas situações.


Vocês realizam ações fora da unidade, visando informar e conscientizar?

A gente sempre faz alguns trabalhos fora, de orientação e aconselhamento, muitas palestras são realizadas em empresas privadas também. A gente faz campanhas de rua também, especialmente em datas especiais. Por exemplo, 1º de Dezembro foi o dia Mundial de luta contra a AIDS. Entramos no Dezembro Vermelho, se referindo ao mês para as pessoas se conscientizarem um pouquinho mais do HIV/AIDS e das ISTs. A gente faz campanha extra muro, faz na rua mesmo, onde a gente faz a testagem rápida, para receber o diagnóstico em menos de 15 minutos.


Em relação ao mês do Dezembro Vermelho, qual a importância desse assunto estar em discussão e como isso pode ser fortalecido?

Dezembro Vermelho é o mês de conscientização da prevenção. A gente observa que mesmo durante o período de trabalho anual e com tantos anos de trabalho, ainda não conseguimos diminuir o índice. Então a mensagem que deixo para as pessoas é se prevenirem mesmo, tá?

Uma das melhores formas de prevenção ainda é o preservativo. Ele em todas as formas de relação. As pessoas muitas vezes acham que numa relação oral não pode ocorrer a transmissão, mas pode também. As pessoas devem se preocupar e se proteger para não adquirir uma IST.

Existe a vacina da Hepatite B, que muitas vezes as pessoas não tomam. Hoje a gente tem algo que chamamos de PEP (Profilaxia Pós-Exposição ao HIV), se a pessoa teve por exemplo uma acidente de trabalho ou mesmo em uma relação consentida ou eventual, tem o uso de medicação durante 28 dias que pode diminuir o risco da infecção. São várias estratégias hoje que existem como forma de prevenção.

Imagem: Ministério da Saúde. #enxergandocompalavras: quadro da campanha Dezembro Vermelho, mostrando como não se contrai o HIV.

Você acha que se existisse uma discussão maior sobre o tema, o assunto ainda seria tabu, mas as pessoas criariam mais consciência sobre a prevenção?

Fazemos muito aconselhamento sobre o não uso do preservativo. Geralmente, no início de uma relação quando as pessoas se conhecem e vão iniciar uma relação eles até usam preservativo. Mas após de um a três meses depois já acham desnecessário usar. Só que as pessoas não sabem o que aconteceu lá atrás. A pessoa pode ter infecção e desconhecer. A Hepatite B, C, sífilis, muitas vezes a pessoa tem a infecção e não tem sintomas. A partir do momento que você não tem sintomas, você acredita que está tudo bem. Só que a pessoa pode estar infectada, não saber e pode acabar transmitindo também. E logicamente acho que é uma questão de responsabilidade mesmo.

A relação sexual tem que ser feita de forma responsável e segura. Nós sabemos que existe o risco em uma relação eventual.

Existe algum sintoma de alerta que deve ser observado e levar a fazer o teste?

Quando a gente fala que são infecções assintomáticas é porque elas realmente não têm nenhum sintoma mesmo. Por exemplo o HIV, às vezes a pessoa se infectou e não vai manifestar no período de 6, 8 até 10 anos. Então ela não sabe do vírus, mas mesmo assim é uma transmissora. A mesma coisa a Hepatite B, a sífilis. A hepatite você pode apresentar sintomas de 15 anos, 20 anos depois. E quando começa a aparecer os sintomas é porque é uma questão tardia. A pessoa pode estar com comprometimento de alguns órgãos importantes. Por isso existe hoje o teste rápido. Quem nunca fez, quem teve exposição, poderia realizar o teste por precaução, para descobrir se tem ou não uma infecção. E se tiver, tratar.


Quem tem interesse no teste, pode procurar a unidade?

Claro, se as pessoas tiverem interesse em fazer os testes rápidos, ficamos na rua Pará, 284, ao lado da Secretaria de Saúde. O horário de funcionamento é das 8h às 18h. Para a realização de teste vamos até as 19h, inclui o período que temos de aguarde do resultado. Mas lembramos que todas as unidades básicas de saúde também tem um teste rápido. As pessoas podem procurar tanto os postinhos, como nós, conforme a preferência dela. Existe uma facilidade em realizar os testes que deve ser explorada.


Se você, assim como nós, obteve informações preciosas nessa entrevista com a Dirce, compartilhe com seus amigos, familiares e grupos. A mensagem é clara: as principais aliadas da prevenção à AIDS são o diálogo e a informação.



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