• Coletivo Paralelas

Entrevista com Raíssa Moraes: "A educação é de dentro pra fora. Uma mudança de comportamento."

Atualizado: 25 de Out de 2019

O dia 15 de outubro, marca no calendário uma data especial: o dia dos professores e professoras. Falamos sobre a origem dessa comemoração aqui. Para além de uma celebração, é necessário ter esse dia como uma oportunidade para refletir. É importante pensar em como podemos valorizar os profissionais que, diariamente, lutam batalhas em salas de aulas. Munidos de livros e conhecimento, são figuras inspiradoras que contribuem expressivamente para nossa formação como seres humanos. Como coletivo, acreditamos na educação como uma potência transformadora e um direito social básico, do qual ninguém deveria ser privado.


Com base nesses princípios, selecionamos professores que atuam em Poços de Caldas para nos falar sobre suas carreiras, experiências e perspectivas. Na segunda parte dessa série de colunas, entrevistamos a professora de química, Raíssa Moraes. Abaixo, confira como foi essa conversa:


Em qual escola você atua e há quanto tempo?

Leciono na Escola Estadual Doutor Edmundo Gouvêa Cardillo, desde 2018.

#Enxergandocompalavras: foto da professora Raíssa Moraes no dia da entrevista. Ao fundo, livros nas prateleiras de uma biblioteca.

Como surgiu a vontade de seguir essa carreira?

Eu sempre tive facilidade em estudar e sempre gostei de estudar. Tinha facilidade em criar estratégias e aprender. Os meus colegas, por exemplo, gostavam da maneira que eu explicava alguma matéria para eles. Eles tinham dificuldade, então, me procuravam para ajudar. Eu também gostava de identificar dificuldades de outras pessoas e sempre tentava ajudá-las. Dessa forma, facilitaria e as motivaria a entender seus desafios e a superá-los. Isso me motiva até hoje. Então, eu quis ser professora por isso.


Como você acredita que a educação é importante para o desenvolvimento do país e de cada indivíduo?

A educação é de dentro para fora. Uma mudança de comportamento. Então, eu penso que a escolarização, é um complemento a educação. No caso, a escolarização formal. A função da escola é mostrar o mundo como ele é, fazendo assim, o aluno ter uma base do que ele vai encontrar do lado de fora. Aprender a superar os desafios e entender as possibilidades que ele tem, para então, começar a decidir o que ele quer. Se eles tiverem consciência daquilo o estão decidindo para si próprios, isso vai se refletir na sociedade. Então, eu acredito que a escolarização, serve para aumentar a consciência das pessoas, para que elas reflitam mais sobre suas decisões.


Quais aspectos você consegue notar que melhoraram e/ou pioraram na educação pública?

Na educação pública nunca se respeitou tanto o indivíduo. A sua história, o seu processo. Cada um tem um ritmo de aprendizado, mas, ao mesmo tempo isso trouxe duas faces da mesma moeda. Porque, isso trouxe um pouco da necessidade do aluno de ser sempre amparado, fazendo com que eles não acreditem muito na sua autonomia e na superação de desafios. Eles sentem que vão ter sempre esse amparo, de alguma maneira. Então, como eu disse duas faces da mesma moeda. Ao mesmo tempo, o Estado exige estratégias para que os alunos sejam recuperados, só que ele cobra números. E números, muitas vezes não dizem nada a respeito de todo o processo que nós fazemos na escola. Fica um desafio aí a ser superado nos próximos anos. Nós tentamos trazer essa maturidade para os alunos, ampliar a consciência deles. No entanto, como eu disse, são tantas oportunidades de recuperação, que eu acho que eles merecem sim, mas ao mesmo tempo, isso precisa ser equilibrado. Aumentar as chances de recuperação, é uma forma de corte de gastos, pra não ter que reprovar alunos e mantê-los na escola. Isso traz uma mentalidade que sucateia a educação e põe à prova o trabalho do professor a todo momento, como único responsável pelo "aprendizado" daquele indivíduo. O aluno precisa entender que ele tá ali para ser ajudado, mas ele também precisa entender que ele é capaz. Que não são só os números que vão validá-lo. Eu acredito que a tecnologia, tem influenciado um pouco de forma negativa nisso. Nunca se teve tanta informação nas mãos! Entretanto, a forma como ela é utilizada hoje, tem atrapalhado muito. O papel do professor, mudou muito depois que a tecnologia tá aí, de fácil acesso, né? A função do professor, tem que ser agora de estimular perguntas e não só a resposta correta. O aluno ainda está condicionado a isso. Esse imediatismo, faz ele querer respostas rápidas e assertivas e atrapalha o processo de reflexão, que é o que a educação tem que estimular. A tecnologia também pode estar e inclusive está a favor da educação, só precisamos utilizá-la de forma cuidadosa.


O Estado exige estratégias para que os alunos sejam recuperados, só que ele cobra números. E números, muitas vezes não dizem nada a respeito de todo o processo que nós fazemos na escola. Fica um desafio aí a ser superado nos próximos anos.

O corte de verbas para educação e repasses afetou de alguma forma a escola em que você atua ou outras que você tenha conhecimento?

A escola em que eu atuo, particularmente não, porque a gestão de lá é muito boa. Eles tinham uma reserva bem grande da escola, então, eles estão conseguindo ainda trazer recursos, equipamentos. A merenda também não foi afetada de nenhuma maneira. Já escolas que eu tenho conhecimento, acredito que não, porque Poços é uma região privilegiada. Agora, fora daqui sim né? A gestão da escola é o que faz muita diferença também. Tem que ter recursos para poder ter desenvolvimento, mas a gestão faz muita diferença. A gestão da escola é um ato político. Muitas vezes a comunidade tá ali, condicionada à determinado diretor (a), de acordo com os seus interesses e não pensando no coletivo. Então, isso é complicado. E ainda bem que, a nossa escola é da forma como é. Hoje, ela tá servindo de modelo, é uma escola que se desenvolveu muito ao longo dos anos, de uns tempos para cá. Os alunos hoje em dia, tem muito mais orgulho de falar que eles estudam lá. Acredito que esse é o modelo a ser seguido. Eu fico muito contente de dar aula na escola Edmundo e espero que as outras também consigam aproveitar alguma coisa.


Você comemora o dia dos professores de alguma forma ou vê a data de forma positiva?Vejo! Eu acredito que é uma valorização a função do professor. Sempre uma data para a gente refletir sobre a nossa postura, a nossa função, a importância da nossa profissão. E comemorar, eu acredito que seja em reunião com os meus colegas. Inclusive a gente se reuniu e a gente tá sempre conversando a respeito de como a educação está, como os alunos são hoje em dia, o que eles precisam de nós, o que nós podemos oferecer. Então, é uma data importante sim, principalmente para reflexão. Para a gente não deixar essa profissão estagnar no tempo. Nós somos muito cobrados e desvalorizados por parte da sociedade. É uma profissão difícil, mas que a gente tá aí. Tem muitas pessoas engajadas em fazer ela dá certo. Nós temos que olhar sempre os dois lados, ao mesmo tempo que tem pessoas desacreditadas, tem pessoas muito boas e isso também entra na questão do desenvolvimento da educação. Os próprios alunos, têm que ter essa percepção de que eles têm profissionais excelentes dentro das escola públicas, com os melhores ideais para eles e para educação de forma geral. Então, a medida que a própria população tomar consciência de que existem pessoas realmente capacitadas e interessadas em fazer eles terem um futuro, aí vai começar a dar certo. Independente de verbas e tudo mais, eu acho que a valorização tem que ser individual, para o coletivo conseguir entender a importância do professor.

#Enxergandocompalavras: a professora Raíssa Moraes sorrindo. Ao fundo, livros empilhados em prateleiras.

Qual a principal missão de uma professora de química?

Eu falo demais isso para os meus alunos. Porque a pergunta para toda matéria de exatas é: “onde eu vou usar isso na vida? ”. "Mas, química é tão distante...". E não é! Eu sempre falo para eles, que a primeira coisa da química e das exatas, é você desenvolver o seu raciocínio lógico. A sua capacidade de olhar para o externo e analisar. Por exemplo, estou desenvolvendo um trabalho com os meus alunos, que é de conscientização a respeito dos produtos industrializados que nós consumimos. Eles me falam: “professora, mas o que isso tem a ver? Química não é só experimentos e explosão em laboratório? ”. E eu falo: "não." (risos). A partir do momento que você compra um produto, aquilo tem uma composição química, que vai gerar um processo bioquímico no seu organismo. E eu acho que a função é essa, ampliar a conscientização. Porque, se você tiver consciência daquilo que você consome (e nós somos consumidores né?), no básico da sociedade hoje em dia. Se você tiver uma noção básica daquilo que você consome, você está tendo mais consciência daquilo o que está ingerindo. Consciência daquilo o que você vai colher no futuro. Então, eu tento trazer isso para eles, conscientização em cada pedaço. Principalmente, na parte ambiental, que é essa parte de você escolher o que está consumindo. Isso reflete também no meio ambiente. As escolhas que a gente faz refletem, desde a extração de recursos, de matéria-prima, até o descarte. E eles não tem essa noção de que a química está envolvida nisso. A história da humanidade toda é baseada em produtos químicos, desde a idade da pedra, do bronze, hoje a gente tá na idade da fibra ótica. O desenvolvimento da tecnologia, isso tudo é química! Então, eu tento trazer primeiro essa realidade. Primeiro desenvolver o raciocínio lógico, depois a capacidade de análise da sociedade, das coisas que eles fazem no dia a dia. Mas, o currículo escolar ainda é muito preso em fórmulas, e em questões que às vezes não tem aplicabilidade rápida, né? Por isso, na medida do possível, eu vou tentando trazer esse sentido para eles.


Eles me falam: “professora, mas o que isso tem a ver?Química não é só experimentos e explosão em laboratório?”. E eu falo: "não." (risos). A partir do momento que você compra um produto, aquilo tem uma composição química, que vai gerar um processo bioquímico no seu organismo.

Que mensagem você daria para quem quer se tornar professor (a)?

Para quem quer ser professora hoje em dia, a primeira coisa que eu diria é que depende de muita dedicação, muita paciência, muita compreensão do ser humano. E diria ainda para não desistir, porque é um trabalho de formiguinha mesmo e eles precisam de nós.


No nosso canal no Youtube, você confere esse papo em vídeo:

O Coletivo Paralelas agradece à professora Raíssa Moraes e a parabeniza por seu amor e dedicação diária, que fazem essa bela profissão florescer ainda mais!

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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