• Matheus Soares

Disparada, o golpe de 1964 e o homem que disse não


A década de 60 é instigante até para quem não a viveu. A morte de um presidente dos EUA, a ditadura militar, Elvis Presley, The Beatles, calças cigarretes, os topetes mais malucos, James Dean, Marlon Brando, a contracultura, nossa! Se ousássemos enumerar todos os momentos importantes, certamente deixaríamos alguns de lado, tamanha a quantidade de coisas importantes e revolucionárias dessa época.


Em 1960, aconteceram muitos festivais de música, dentre os quais, os mais famosos e aclamados, os produzidos pela TV Record. A música brasileira certamente não seria a mesma sem esses eventos. Músicos como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil representam a grandiosidade e a riqueza desses festivais.


Disparada, escrita por Theo de Barros e Geraldo Vandré, mas interpretada pelo saudoso Jair Rodrigues, foi uma das canções mais emblemáticas do período. À época, Vandré foi duramente perseguido pela ditadura militar e até 2010 ficou em silêncio. Deixou de cantar e abandonou a carreira alegando falta de motivação para compor ao público brasileiro, vítima do processo de massificação cultural.


Ah, sobre esse assunto, uma dica: nossa amiga Ana Carolina Branco escreveu o excelente texto A música brasileira nunca perdeu sua voz. Vale o registro.


Disparada é uma canção linda e você talvez você já a tenha ouvido também em outras vozes. Mas o que mesmo tem a  ver música com o golpe de 1964?

Geraldo Vandré em uma de suas apresentações.
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo Estava fora do lugar, eu vivo pra consertar

O trecho acima representa bem a relação da música com o período político brasileiro. Aprender a dizer não, ver a morte sem chorar, eram os principais requisitos para a juventude militante e descontente com os rumos que o Brasil vinha tomando. Mas quem estava fora do lugar e vivia pra consertar?


Muitos dizem ser o protagonista da história o presidente João Goulart. Jango, como assim era conhecido, era rico e herdou muitas terras de seu pai, quando este veio a falecer.

Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu

Jango se tornou influente a partir de então e ingressou na política, na década de 40. Seus ideais contagiavam multidões e naquele momento, percebeu que estava no caminho que sempre quis estar.

E nos sonhos que fui sonhando As visões se clareando Até que um dia acordei Então não pude seguir Valente lugar-tenente De dono de gado e gente Porque gado a gente marca Tange, ferra, engorda e mata Mas com gente é diferente

Desde o primeiro dia como vice-presidente e depois, claro, como presidente, havia uma conspiração no Brasil para tirá-lo do poder, pelo fato de Jango reconhecer bandeiras de movimentos sociais e partidos de esquerda. Jango foi tirado à força e obrigado a se exilar em outro país. Os militares tomaram o poder em 1964 e só saíram em 1985.

Se você não concordar não posso me desculpar Não canto pra enganar, vou pegar minha viola Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar

Jango morreu, Jair também, mas entre tantas adversidades, a canção permaneceu viva, ensinando que mesmo ignorado, há que sempre seguir em frente.


Obstáculos existem para serem pulados, senão seriam apenas cavaletes no meio da estrada enquanto damos a volta pelo acostamento.

Muito gado e muita gente Pela vida segurei Seguia como num sonho Que boiadeiro, era um rei

Nah, não é esse o assunto em questão. Vale mais a obra. Sempre.

Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo já que um dia montei agora sou cavaleiro Laço firme e braço forte num reino que não tem rei (…) Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar

Matheus Soares é publicitário, formado em Publicidade e Propaganda e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social. Está prestes a comprar uma vitrola para, enfim, ouvir os discos que tem.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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