• Matheus Soares

Cortella e a não polarização

De que somos feitos? De generosidade? De ganância? De preguiça? No livro Nem anjos, nem demônios - a humana escolha entre virtudes e vícios, Mário Sérgio Cortella, em parceria com a Monja Coen, traz a filosofia para uma reflexão sobre os nossos desafios e os embates internos do cotidiano. Para os autores, construímos nossa história a partir de nossas decisões. Essa afirmação foi tema de uma palestra realizada no dia 30 de abril de 2019, no Espaço Cultural da Urca. O evento fez parte das atividades da Flipoços 2019. Você pode assistir na íntegra aqui.

Foto: Bruno Alves / Flipoços 2019

Nesse texto, o foco não será na discussão que o livro traz à tona, mas, sim, no papel que Cortella desempenha no pensamento crítico do país. Como em todas as suas explanações, na palestra citada acima, o filósofo demonstrou clareza sobre os problemas que enfrentamos. Mais a fundo, discursou a respeito das amarguras que sentimos e deu dicas de como resolvê-las. Com uma didática impecável, apresentou termos e frases que deixaram atentos todos os presentes.


Discípulo de Paulo Freire, o terceiro mais citado em pesquisas científicas na área de humanas no mundo, Cortella tem pela educação uma paixão fervorosa. Professor há mais de quarenta anos, escreve sobre o tema e conta com mais de 40 publicações. Com bom humor, encanta jovens e adultos por todo o Brasil.


Atualmente, é professor-titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e da Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na qual atua desde 1977. É graduado em Filosofia e possui mestrado e doutorado em Educação.


Um dos cotados para um eventual governo de Fernando Haddad (PT), Cortella sempre defendeu a democracia e a não polarização que marca o debate político do país. Sobre a educação, mais precisamente, ressalta que é preciso eliminar ressentimentos.

Foto: Bruno Alves / Flipoços 2019

Sensato em suas falas, Cortella prefere abster-se de discursos que são rasos e que beneficiam o ódio como fator preponderante. Visto por setores da extrema-direita como petista/comunista, o filósofo discute em alto nível as iniciativas mais cruéis do atual governo sem se prender a partidos ou grupos.


"As pessoas que não pensam como eu não estão necessariamente erradas, mas não é porque não pensam como eu que, só por isso, estão certas", diz em entrevista à rede britânica BBC. Sobre o projeto que quer tirar o título de patrono da educação brasileira de Paulo Freire, Cortella lembra que é apenas uma possibilidade.


"Qualquer cidadão pode propor alteração na homenagem. No entanto, acho inadequado que isso seja feito em relação a Paulo Freire. Quando ele foi consagrado como patrono, em 2012, por um projeto de lei na Câmara dos Deputados, isso ocorreu porque ele é o educador contemporâneo brasileiro com maior presença internacional. Ele é o terceiro autor, na área de ciências humanas, mais citado no mundo. No programa do candidato eleito, Jair Bolsonaro, está "expurgar Paulo Freire das escolas". Ele venceu com essa condição e agora tem dois caminhos: ou implanta isso ou dá um passo atrás, como fez em outros campos. Uma das acusações que se faz é o pensamento marxista de Paulo Freire. Mas ele não era marxista, é sim marxiano - alguém que usava alguns pensamentos de Karl Marx. Eu uso algumas coisas de Aristóteles e não sou aristotélico, uso algumas coisas que Voltaire escreveu e não sou um iluminista francês do século 18. As pessoas, às vezes, se grudam em palavras. Um partido Social Liberal (PSL, do presidente Jair Bolsonaro) é socialista? Não. Outras vezes se diz: "Paulo Freire era comunista". Jamais! Ele não teve nenhuma perspectiva de adesão aos sistemas totalitários nos países de organização comunista. Paulo Freire era socialista no sentido de agregar o lema da revolução francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Em tempos onde o diálogo se faz cada vez menos presente, Cortella reaparece como esperança. Felizmente, não está sozinho nessa. Ao lado de grandes pensadores e pensadoras, na diversidade da reflexão humana, Cortella e a não polarização são bem-vindos sempre. Na entrevista concedida a BBC, é possível ampliar a forma como vemos a atuação do professor e entender suas posições (concordando ou não), criando ali nossa conclusão. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar, diria Nelson Rodrigues


É preciso ficar atento para a importância de praticar as boas atitudes. No livro citado no início do texto, Cortella lembra que "o que caracteriza uma virtude no sentido de positividade é exercê-la como crença, e não como circunstância”.


Cortella nos ensina como a se relacionar com o outro, com o nosso semelhante.


Estamos no caminho correto? Nem anjos nem demônios: a humana escolha entre virtudes e vícios.


Matheus Soares é publicitário, formado pela PUC Minas Poços de Caldas e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social.

19 visualizações

© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon