• Daniel Chagas

O conservadorismo brasileiro veste cinta-liga

No último dia 04 vimos um momento extremamente marcante na história da recente política nacional: livros prestes a serem recolhidos do maior evento literário do país, sob a justificativa de apresentarem conteúdo impróprio.

#enxergando com palavras: imagem do tweet feito pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, anunciando o recolhimento das HQs.

Neste fim de semana que passou, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella postou um vídeo em sua conta no Twitter, dizendo ter determinado que a Bienal do Livro deveria retirar das bancas a história em quadrinhos da Marvel, intitulada Vingadores: A Cruzada das Crianças, pois, segundo o prefeito, ela apresentava conteúdo sexual para menores de idade. Ainda, para Crivella, revistas assim deveriam estar embaladas em um pacote plástico preto com um adesivo informando sobre o conteúdo.


O grande problema em torno dessa ação é que a cena à qual Marcelo se referia como inadequada era uma ilustração de um beijo entre dois personagens do mesmo sexo.

#enxergandocompalavas: cena da HQ em questão, com dois personagens do mesmo sexo se beijando - Fonte: Twitter/Reprodução

A preocupação em proteger nossas tão amadas crianças e lhes assegurar sua pureza é talvez a principal linha argumentativa na luta contra a “ideologia de gênero”. Mas não é preciso muito esforço para elencarmos algumas vezes em que a inocência infantil fora deixada completamente de lado, até mesmo em programas de tv voltadas para este público. Programas como “Banheira do Gugu”, com sua intenção única de exibir corpos femininos seminus, e “Xou da Xuxa”, utilizando a imagem da apresentadora muitas vezes em trajes quase picantes, são exemplos de como a sexualização do corpo feminino nunca foi tratada da mesma maneira que se trata a homossexualidade. Existem, inclusive, pesquisas feitas nos EUA que buscam relacionar o sucesso do programa da Xuxa à sua objetificação e sexualização.


Filmes, desenhos, séries e quadrinhos repletos de cenas de violência e de personagens femininas com seus corpos objetificados e hipersexualizados são comuns e jamais despertaram reações como a que foi vista neste fim de semana. Nota-se até uma enorme rejeição quando surgem críticas às muitas vezes em que há esta hipersexualização, considerada “mimimi”, ou “lacração”, mesmo em conteúdo infanto-juvenil como no caso dos quadrinhos.

#enxergandocompalavras: imagem da heroína Estelar utilizando traje decotado e cavado, a sexualizando.

Ao retratar a relação homoafetiva como algo impróprio, Crivella apenas evidencia algo que já nos é comum em terras tupiniquins: a homofobia.


Mais uma vez te proponho a refletir rapidamente e responder às seguintes perguntas: quantas vezes você presenciou, assistiu, leu, ouviu em canções ou em papos de bar um casal heterossexual apaixonado se beijando? Agora pense em todas as vezes em que alguém se manifestou contra esta cena. Quantas vezes seus pais mudaram o canal, seus colegas saíram do cinema, vaiaram o filme, protestaram nas redes sociais?


Disfarçada de um discurso que visa “proteger as nossas crianças” de pensamentos a respeito de questões sexuais e de gênero, muitos vão dizer que “se fosse um casal hetero, também seria errado” ou que “não gosto de ver nem homem com mulher se pegando em público”, a homofobia é sempre velada e tratada como sendo muito distante, mesmo estando tão próxima.


#enxergandocompalavras: cena clássica dos quadrinhos do Homem-aranha, onde o herói beija Mary Jane de ponta-cabeça.

O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo e uma pesquisa feita no início deste ano pelo Grupo Gay da Bahia, aponta que a cada 23 horas uma pessoa LGBTQ+ é morta, seja por crime de ódio, seja por suicídio, totalizando 141 mortes entre janeiro e maio de 2019.


Entre os anos de 2008 e 2016, foram mortas 868 travestis e transexuais no país, enquanto no México, segundo colocando no ranking, o número é de 256. Se analisados em proporção ao número de habitantes o Brasil é o quarto colocado, atrás apenas de Honduras, Guiana e El Salvador.


#enxergandocompalavras: gráfico mostrando o número de mortes de LGBTQ+ no Brasil no ano de 2018, separado por estados. - Fonte: homofobiamata.wordpress.com

#enxergandocompalavras: gráfico mostra as causas de morte LGBTQ+ no Brasil em 2018, sendo assassinato com arma de fogo a maior delas. - Fonte: homofobiamata.wordpress.com

Por outro lado, uma outra pesquisa chama a atenção sobre o modo como a comunidade LGBTQ+ é vista pelos brasileiros.


O site de vídeos adultos Pornhub realiza todo ano uma pesquisa e gera um relatório indicando dados sobre o consumo da pornografia no mundo. E, segundo este relatório, no Brasil, vídeos da categoria “lésbicas” foram os mais consumidos, enquanto os da categoria “transgênero”, apresentaram um consumo maior do que no restante do mundo em cerca de 57%. São dados extremamente relevantes se comparados aos anteriores e mostra muito de como a mente do brasileiro é repleta de conflitos.


A psicanalista e professora da FAAP, Maria Homem em um de seus vídeos apresenta uma análise da pisque e do comportamento humano ao tentar desmitificar a ideia de que univesidade é lugar de balbúrdia, a qual diz que no momento em que um indivíduo percebe, ou cria para si a noção de que o outro está sendo mais feliz do que ele, surge uma rejeição ao outro e um desejo de acabar com esta felicidade. Para a professora, “a verdade é que talvez esta seja uma das fantasias mais estruturais da nossa psique” e que neste momento o sujeito irá se alinhar a políticas que buscam retirar esse gozo do outro, esta liberdade.


Trazendo para o tema da reflexão, podemos entender que parte desta homofobia pode estar intimamente ligada à ideia de que “o outro está mais livre/possui uma liberdade maior do que a minha”, isto porque este “eu” possui uma certa moralidade que lhe impede de desfrutar do gozo que aquele outro desfruta. E desta maneira, surge o ódio àquele grupo que pode tanto, “enquanto eu preciso seguir normas e dogmas que me proíbem”.

#enxergandocompalavras: imagem com gráficos a respeito das principais pesquisas feitas pelos brasileiros no site Pornhub, site de conteúdo adulto. Fonte: Pornhub Insights

Indiscutivelmente existem outras inúmeras razões que explicam a sociedade homofóbica na qual estamos. Entretanto a ideia é desenvolver uma reflexão que busque compreender por que é preciso que se recolha, em um Estado Laico e que então deveria não possuir qualquer orientação religiosa, um livro com uma cena homossexual sem qualquer insinuação a sexo, enquanto vê-se diariamente e massivamente representações afetivas heterossexuais sem o menor problema.


E ainda mais a fundo, por que um dos países que mais mata LGBTQ+ é também um dos que mais consome pornografia LGBTQ+?

Quer saber de onde eu tirei isso? Aqui embaixo vou deixar algumas das minhas consultas e referências:

10 trajes de heroínas das HQs que dificilmente veremos nas telonas - Legião dos heróis


2018 Year in Review - Pornhub Insights


Apresentadora de programa infantil - Canal Meteoro Brasil


Brasil lidera ranking mundial de assassinatos de transexuais


Brasil segue no primeiro lugar do ranking de assassinatos de transexuais - O Globo


Conheça a HQ dos Vingadores que Crivella quis banir da Bienal do Livro - Super Interessante


Freud explica? - Canal Meteoro Brasil


População LGBT morta no Brasil: relatório GGB 2018 - Grupo Gay da Bahia


Daniel é formado em Publicidade e Propaganda, aspirante a fotógrafo e editor de vídeos. Não assiste, lê ou ouve nem metade das coisas que gostaria, deseja muito ajudar a construir um mundo melhor e segue tentando.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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