• Maddu Martins

Capoeira: as raízes da resistência

A arte: luta e jogo


Símbolo da cultura afro-brasileira, da miscigenação de etnias e da resistência à opressão, o assunto da coluna de hoje é a capoeira. A capoeira, desenvolvida no Brasil por descendentes de escravos africanos, é uma expressão cultural que mistura arte-marcial, esporte, cultura popular e música. É caracterizada por movimentos ágeis e complexos e golpes que utilizam principalmente chutes e rasteiras, além de cabeçadas, joelhadas, cotoveladas e acrobacias (em solo ou aéreas).


A capoeira possui uma característica muito distinta de outras artes marciais: a musicalidade. Qualquer praticante da capoeira aprende tanto a lutar e a jogar como a tocar os instrumentos típicos e a cantar. Mesmo um capoeirista experiente não pode ignorar a musicalidade, pois, dessa forma, seria considerado incompleto.


Foto: Sandra Ribeiro (junho/2018)

O significado da palavra capoeira é proveniente da junção dos termos ka’a (“mata”) e pûer (“que foi”). Denominações da língua tupi, que se referem aos trechos de mata queimados ou cortados, no interior do Brasil, onde a agricultura indígena era praticada. Acredita-se que a palavra capoeira tenha origem a partir dessas áreas de mata rasteira. Áreas essas, que cercavam grandes propriedades rurais de base escravocrata e, eram frequentemente utilizadas como esconderijo por capoeiristas que fugiam da escravidão e da perseguição dos capitães-do-mato.


Origem: Angola, resistência


No século XVII, alguns povos que viviam ao sul da África, no que hoje é a Angola, tinham como costume comemorar a iniciação das jovens à vida adulta com uma cerimônia chamada n’golo, traduzida na língua quimbunda para “zebra”. Nessa cerimônia, os homens da comunidade lutavam entre si ao som dos atabaques (tambores) e, vencia aquele que conseguisse encostar o pé na cabeça do adversário. O vencedor então, tinha o direito de escolher uma noiva entre as jovens, sem que precisasse pagar o dote. Logo, com a chegada dos invasores portugueses e a escravização dos povos africanos, a capoeira, foi trazida para a América, especialmente para o Brasil, onde se concentrava a maior parte dos escravos africanos.


Os escravos africanos tanto no Brasil, como no restante da América, viviam em regimes de trabalho forçado. Submetidos a condições humilhantes e desumanas, sendo forçados à adoção da língua portuguesa e religião católica e frequentemente sofrendo castigos e punições físicas, os escravos passaram a praticar a capoeira, como expressão de revolta contra esse tratamento violento pelo qual passavam constantemente.


A capoeira, mais do que uma técnica de combate, era a esperança de sobrevivência e liberdade. Era uma ferramenta que incentivava escravos que, mesmo sendo em maior número, precisavam lidar com adversidades, como a falta de armas, a lei vigente e o desconhecimento da terra em que estavam. A capoeira os encorajava a rebelar-se.

Foto: Sandra Ribeiro (junho/2018)

Proibição: às margens da liberdade


No final do século XIX, tendo a escravidão se tornado impraticável devido ao aumento de fugas dos escravos e aos ataques constantes das milícias quilombolas às propriedades escravocratas, o Brasil reconheceu no ano de 1888 o fim da escravidão (será mesmo?). Muitas questões ainda estariam por vir.


Se vendo livres, mas abandonados à própria sorte, sem ter onde viver ou como trabalhar, os negros foram (ainda são) marginalizados pela sociedade e, consequentemente, a capoeira também. Desse modo, diversos capoeiristas inevitavelmente começaram a utilizar suas habilidades de forma pouco convencional, fazendo uso da capoeira como mercenários, assassinos de aluguel ou capangas. Não demorou muito para que a capoeira fosse proibida no Brasil, em 1890, já que a vantagem de um capoeirista em confronto corporal era notavelmente superior à de um policial.


A proibição fez com que a capoeira fosse perseguida e a tornou, novamente, malvista pela sociedade daquela época. Qualquer cidadão que fosse pego praticando capoeira era preso, torturado e muitas vezes mutilado pela polícia. As rodas de capoeira aconteciam em locais afastados e de forma muito discreta, com olhares atentos para uma eventual chegada da polícia.


Atualmente: cultura e patrimônio


Hoje, a capoeira além de um aspecto cultural, exporta para o mundo todo a cultura brasileira. Alunos estrangeiros são atraídos ao Brasil todos os anos pela capoeira, se esforçando para aprender a língua portuguesa com o intuito de se envolver melhor com a arte. Algumas apresentações de capoeira são conduzidas em forma de espetáculo, com muitas acrobacias e pouca marcialidade. Contudo, o aspecto marcial, sutil e disfarçado, é ainda muito presente. A malandragem surge marcante em capoeiristas experientes que raramente desviam os olhos de seus oponentes em um jogo.

Foto: Sandra Ribeiro (junho/2018)

Considerada patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, a capoeira mudou sua imagem definitivamente e se tornou fonte de orgulho para o povo brasileiro. Atualmente, são inúmeras as escolas de capoeira distribuídas por todo país, incluindo a Escola de Capoeira Angola Resistência, que foi criada em 1941, na cidade de Salvador (BA), sob a liderança do Mestre Pastinha.

Foto: Sandra Ribeiro (junho/2018)

A Escola de Capoeira Angola Resistência conta com ramificações aqui no Sul de Minas, mais especificamente em Caldas e Poços de Caldas. Aqui, em Poços de Caldas, ela teve início em fevereiro de 2014. Angola Resistência tem suas aulas ministradas no Centro Cultural Afro Brasileiro Chico Rei pelo trenel Danilo. Dentre os eventos promovidos pela escola, estão as rodas de capoeira pela cidade, que acontecem em lugares públicos como a Praça Pedro Sanches ou o Terminal de Linhas Urbanas.

"Se você fica na sua casa, você não sai, você não sabe que a sua rua tem esquina,porque você não sai da sua casa. Mas quando você acaba saindo do seu quintal pra fora, dentro da sua rua, você vê que tem esquinas, que tem vários quintais, várias casas, e nessas casas tem pessoas, moradores, cada um com um conhecimento, uma cultura. Você aprende." - Mestre Topete

Estar presente em um desses eventos, em uma roda de capoeira da Angola Resistência, certamente foi o que me inspirou a escrever essa coluna e a me aprofundar para compreender um pouco mais da rica cultura afro-brasileira. Assistindo a uma dessas rodas observei o quão grande era o respeito mantido dentro do jogo (como é chamada a roda de capoeira), respeitavam-se as regras, os oponentes e a religião que define essa arte. Encontrei-me extremamente feliz e embalada pelos cantos, pelos sons dos instrumentos e pelos movimentos maliciosos e calculados dos participantes.


Foto: Nayara Carvalho (abril/2019)

Existia muita admiração, entre o Mestre e entre os alunos. Mas, acima de tudo, a alegria estava presente e, todo o significado que a capoeira traz consigo, estava presente. Por fim, convido você que chegou até aqui, ao final desse texto, a conhecer mais sobre essa arte e sobre a Escola Angola Resistência. Em tempos como os de hoje, precisamos de mais capoeira, de mais dança, de mais Angola, de mais luta e principalmente de mais resistência.


Referências:


História e Origem | Capoeira Interação


Escola de Capoeira Angola Resistência



Gestora ambiental e feminista. Acredita que a mobilização coletiva e o protagonismo individual são fundamentais para contribuir em pautas de interesse social. Seu mundo ideal é onde as pessoas valorizem menos bens de consumo e mais momentos incríveis. Adora ouvir simples histórias e não recusa café.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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