• Ana Carolina Branco

Bolha social: você já estourou a sua?

Atualizado: Mar 6

Recentemente passei pela experiência de ficar sem celular por alguns dias. Esse ocorrido me remeteu a outra época em que o mesmo aconteceu mas, na ocasião, fiquei sem celular por cerca de dois meses. Durante esse tempo ouvi frases como "nossa, mas como você consegue viver sem celular?", "e como você trabalha?", "como fala com seus amigos?", "como você acorda sem o alarme do aparelho?". Questionamentos como esse, aparentemente banais e sem nada de extraordinário, levantam uma discussão bem mais importante e necessária: a de bolhas e privilégios.


Quem vive os acontecimentos rotineiros sem questionar suas condições de vida está sujeito a viver no que chamamos de "bolha". A bolha consiste em não enxergar seus próprios privilégios e achar que o seu modo de vida é a única régua para medir a sociedade. Inevitavelmente, quem vive em bolhas acaba se relacionando e convivendo com pessoas de mesma situação, logo, cria-se a ilusão de que o mundo é aquela pequena amostra que a pessoa conhece.



#Enxergandocompalavras: tirinha com dois quadros. No primeiro falas são direcionadas a um personagem como "Tem que ouvir o contraditório. Não pode viver numa bolha". No outro quadro, o personagem fala de dentro da bolha "...mas aqui é tão quentinho e confortável". Foto: Paulo Araujo Tirinhas

Essa desconexão com as realidades de mundo (sim, no plural) é perigosa. O pensamento de bolha acaba por propagar falsos discursos meritocráticos como "se fulano conseguiu comprar um carro, é só ciclano se esforçar que consegue também". Cada indivíduo parte de situações diferentes, com recortes, acessos, informações e estímulos. Logo, toda forma de comparar fulano e ciclano é injusta e parcial.


Há pessoas que nasceram em condições de extremo privilégio, por isso, por nunca terem enfrentado dificuldades reais ocasionadas por limitações, não conseguem enxergar que elas existem. No final de 2019 um caso viralizou e exemplificou bem a situação. O procurador Leonardo Azeredo dos Santos proferiu uma fala em plena sessão na Câmara se queixando do salário no valor de R$24 mil, alegando que não tinha origem humilde, que era um "miserê" e estava sofrendo pela queda no padrão de vida. Não há dúvidas de que o procurador mineiro ignora e exclui a realidade de milhões de mineiros e mineiras que não vivem com singela quantia. Além disso, a fala foi proferida em um momento de extrema crise no estado, em que servidores públicos, inclusive professores, estão com pagamentos atrasados e recebendo de forma parcelada.


Mas há também indivíduos que não nasceram com determinada condição, adquiriram ao longo da vida e após ter alcançado esse patamar, menosprezam a realidade das pessoas que, antes, eram suas semelhantes. É o caso, por exemplo, de jovens que se formaram na universidade por meio de bolsas e políticas de inclusão e, mesmo assim, votam e defendem políticos que não priorizam o acesso a mesma. Há aí um processo cruel de subir uma escada e, logo em seguida, chutá-la longe para não permitir que mais ninguém suba.


Independente de quais circunstâncias nascemos, no famoso "berço de ouro" ou no "bota água no feijão para render mais", devemos sim reconhecer que existem pessoas mais vulneráveis, sejam por razões econômicas, sociais, culturais, religiosas, raciais ou de outra ordem.

#Enxergandocompalavras: Lisa, do desenho Os Simpsons, olha triste para Bart, que está dentro de uma bolha.

É inegável enxergar que nossa sociedade é estruturalmente racista e sujeita pessoas negras a um quadro geral de desprivilégios. Em 2013, o funcionário público Francisco Antero e a professora de história Luzia Souza criaram o "teste do pescoço", uma comprovação simples de como o racismo é limitador. O teste consiste em espichar o pescoço para enxergar a cor das pessoas em determinados ambientes, analisando a proporção de brancos e negros. O teste confirma que, embora a maioria da população brasileira seja negra, eles estão em minoria em espaços como universidades, aeroportos, anúncios, novelas, shoppings center, hospitais e escolas particulares. A luta dessas pessoas ainda é para conquistar direitos mínimos, como o respeito e a não-discriminação.


Entende-se como "privilégio" não apenas ser dotado de uma boa condição financeira. Para refletir sobre o assunto, selecionei alguns dados do Brasil que dizem muito sobre as pessoas à margem da bolha:

- 25,10% dos domicílios não possuem acesso à Internet. Isso significa que em cada 4 casas, 1 não possui internet;

- Apenas 66% das casas brasileiras têm acesso à rede da coleta de esgoto. É a situação mais precária dentre os serviços de saneamento básico;

- Cerca de 9% dos domicílios não possui um sistema de coleta de lixo;

- O percentual atual de desempregados no país gira em torno de 11,9%;


Trazendo a reflexão para mais perto, em Poços de Caldas, mesmo sendo considerada uma cidade entre os 10 melhores IDHMs (Índice de Desenvolvimento Humano)de MG, encontramos dados como:

- 29% dos domicílios tem um rendimento per capita de até 1/2 salário mínimo por pessoa;

- 2% da população não tem um sistema de esgotamento sanitário adequado. Parece pouco? São aproximadamente 3347 pessoas sem um acesso básico e mínimo;

- 3% da população acima de 10 anos não é alfabetizada;

- Muitos bairros sofrem com inundações em períodos chuvosos, como é o caso do Jardim Kennedy. Em 2013 foram 26 casas atingidas, em 2019 foram 40. Agora em 2020 o problema voltou a se repetir.


#Enxergandocompalavras: pintura de mãos dentro de bolhas coloridas. Dois dedos apontam para o rompimento da bolha e tentam se tocar. Foto: Camile Sproesser

O objetivo desse texto não é apontar o dedo para ninguém ou fazer uma cartela de bingo dos privilégios, mas te convidar a entender, ou relembrar, que temos muitos "Brasis" dentro de um só. Reconhecer isso é o primeiro passo para ter empatia com uma situação distinta da sua e se colocar como um agente de mudança para uma sociedade melhor.



Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta e adora um textão. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão e por isso escreve para o Paralelas. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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