• Maddu Martins

"Bee or not to bee?": Abelhas como agentes de transformação social

Abelhas são insetos voadores comumente retratadas em desenhos com listras em preto e amarelo (é belo!). Elas produzem mel, cera, própolis e pólen e são conhecidas também por sua preciosa geleia real. Até mesmo seu veneno, é utilizado em um tratamento medicinal alternativo, chamado apiterapia. Ainda há quem só se lembre das abelhas pela dor de sua picada ou pelo doce de seu mel.

Fonte: Sem abelhas Sem alimento #Enxergandocompalavras: abelha pousa no miolo de uma margarida.

Existem no mundo mais de 20 mil espécies de abelhas. No Brasil são cerca de 3 mil espécies, sendo a maioria delas de abelhas nativas sem ferrão. Muitas pessoas, no entanto, desconhecem o verdadeiro papel desses seres incríveis: são as melhores e mais eficientes agentes polinizadoras da natureza. Elas são responsáveis pela reprodução e perpetuação de inúmeras espécies vegetais, produzindo alimentos, conservando o meio ambiente e mantendo o equilíbrio dos ecossistemas.

Fonte: Sem abelhas Sem alimento #Enxergandocompalvras: abelha pousando em uma flor, fazendo a polinização.



A verdade é que esse rico, mas ainda pouco difundido universo, sofre com um grave problema nos últimos anos: a morte e desaparecimento em massa das abelhas. Essa expressiva perda, possui múltiplas causas, como por exemplo: a aplicação indiscriminada de agrotóxicos, os desmatamentos e queimadas e as mudanças climáticas. O declínio desses polinizadores tem intrigado a comunidade

cientifica e fez com que olhares atentos se voltassem para essa causa. Esse é o caso do Brasil e da América Latina que se mobilizaram frente aos relatos de mortalidade de abelhas.


Dessa forma, diversas campanhas de conscientização sobre a importância destes polinizadores e a necessidade de sua proteção, acontecem em todo o mundo. Muitos estudos e projetos também vêm sendo realizados com esse mesmo intuito. Tal como vem ocorrendo com o projeto do *meliponário* no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas – Campus Poços de Caldas. O projeto teve início em agosto de 2016 e pouco tempo depois o Campus já podia contar com sete colmeias de quatro diferentes espécies, todas nativas do Brasil. A inciativa contou com o envolvimento direto de estudantes dos cursos de Gestão Ambiental, Ciências Biológicas e Técnico em Informática. São mais de 20 membros que apoiam e participam da manutenção do meliponário atualmente, incluindo a idealizadora e coordenadora do projeto, a professora e doutora em Entomologia, Isabel Ribeiro Teixeira.

Foto: Sem abelhas Sem alimento #Enxergandocompalavras: zoom em uma abelha que pousa em uma flor amarela com as asas semiabertas.

Desde então, o meliponário vem sendo utilizado como material para palestras, estudos e pesquisas de alunos e docentes do Campus. Além disso, essa inciativa também proporciona a criação e desenvolvimento de cursos de Formação Inicial e Continuada, tendo como exemplo, o curso “Uso de Abelhas indígenas sem ferrão como fonte de renda e transformação social”, que terá início agora, no mês de agosto. E, para entender melhor como funcionará o curso e como as abelhas podem contribuir para a transformação social, o Coletivo Paralelas entrevistou a professora Isabel Ribeiro, que desde o início vem fazendo parte desse universo.



Isabel, como foi o início do projeto do meliponário que deu origem ao curso “Uso de Abelhas indígenas sem ferrão como fonte de renda e transformação social”?


Na verdade, eu sempre fui apaixonada pelas abelhas, porque elas são insetos sociais. Então, quando falamos das abelhas a gente não fala de um único inseto, a gente fala de uma colônia. Quando falamos de uma colônia, falamos de quatrocentos, mil, cinquenta mil indivíduos, então, o impacto que esses animais têm sobre um ecossistema é muito grande. Nesse caso, é um impacto muito positivo, porque como as abelhas só estão envolvidas com flores, impactam diretamente na polinização. É uma ligação muito direta. O meliponário começou quando um grupo de mais ou menos cinco alunos da Gestão Ambiental, conversaram sobre esse assunto. No início, nós fazíamos um mutirão aos sábados e pegávamos na enxada mesmo, porque a criação de abelhas demanda um jardim. Não é simplesmente só colocá-las lá e pronto (risos). Pesquisamos as espécies de flores, fizemos um jardim e aos poucos conseguimos espaço para seguirmos em frente. Conseguimos algumas doações, pegamos as primeiras caixas e devagarinho o projeto foi surgindo. Hoje, contamos com trinta caixas que formam o meliponário e trabalhamos com sete espécies de abelhas. Nossas pesquisas já se desenvolveram bastante e inclusive tem trabalhos publicados embasados nesse projeto. Tem os TCC’s, tem a parte de pesquisa e extensão, então, ao longo de dois, três anos, foi incrível a quantidade de trabalhos que a gente fez nessa área. Além disso, sempre oferecemos cursos para a comunidade e nós temos também um programa de consultoria ambiental, que atende o Brasil inteiro através de e-mail. É bem legal ver como as abelhas aproximam as pessoas umas das outras.

Fonte: Isabel Teixeira #Enxergandocompalavras: professora Isabel Teixeira no Campus do Instituto Federal, montando o meliponário no inicio do projeto. Alguns alunos a observam atentos.

Como surgiu a ideia do curso das Abelhas sem Ferrão? Conta um pouco para a gente como vai funcionar o curso.


A gente tem percebido que nesse mercado de meliponicultura tem muita gente apaixonada. Você se apaixona mesmo! Você começa a criar as abelhas, mas, às vezes falta um pouquinho do espírito empreendedor. Falta pensar como a gente pode fazer esse produto ser vendido, como que eu posso conseguir meu sustento através dele. Então, a gente queria que todo mundo fosse meliponicultor. Não precisa necessariamente vender mel, mas, se tivesse uma colmeia na sua casa, você já estaria preservando uma espécie nativa importante, que está desaparecendo por causa de coisas que nós humanos estamos fazendo. Se você mantivesse uma colmeia em casa, só ia te fazer bem! Ia fazer bem para as suas plantas e uma ou duas vezes por ano, você poderia comer mel. Não precisa ser comercial, mas é muito importante pensar em criar abelhas. Além de ensinarmos meliponicultura, a gente acha que as pessoas podem vender o mel mesmo, fazendo o que um meliponicultor faz. Porém, ficamos pensando em diversificar esses produtos para que não ficássemos somente no mel e nas colmeias. Por exemplo, uma das colaboradoras do nosso curso que trabalha com cosméticos, vai ensinar como fazer shampoos e outros produtos naturais que utilizem essa matéria-prima. Nós também vamos integrar no curso aulas nos Laboratórios de Informática do Campus, para ensinar as participantes a criarem rótulos para seus próprios produtos. Nós teremos também aulas de cooperativismo, simulando a criação de uma cooperativa de mulheres que vendem produtos de abelha. O curso tem duração de três meses e estamos muito ansiosas para o início.

Fonte: Daniel Aroni #Enxergandocompalavras: uma das colmeias que fazem parte do meliponário do IF. A caixa aberta contém diversas abelhinhas produzindo mel.

O curso possui um público-alvo?


Sim. Nosso público-alvo são mulheres. Na verdade, houve uma divisão, 10 vagas são destinadas sem o recebimento de bolsa e 12 vagas são exclusivas para mulheres em situação de vulnerabilidade social. Então, além de adquirir todo o conhecimento do curso, essas mulheres recebem ainda uma ajuda de custo de R$100,00. Assim, é possível que elas possam arcar com os custos de transporte e alimentação.

O foco do curso é o público feminino, pois, a maioria das mulheres são responsáveis tanto por trabalhar como por cuidar da casa e dos filhos e, em muitos desses casos não têm com quem dividir as despesas. Por conta disso, pensamos no curso e na possibilidade de se ter uma colmeia em casa, já que as atividades no meliponário demandam pouco tempo. As abelhas são muito independentes, então, é necessário que se faça a manutenção somente duas vezes por semana. Dessa forma, o aprendizado se torna uma alternativa de trabalho viável, tanto para mulheres que se encontram em uma situação de vulnerabilidade, quanto para aquelas que apenas buscam uma forma de empreendedorismo alternativo e sustentável.


Por fim, para você Isabel, qual é a importância socioambiental da criação de abelhas?


Acho que, querendo ou não, as abelhas são os nossos principais indicadores. Então, abelhas que estejam em um ambiente e sejam saudáveis, são um sinal de que o ambiente inteiro ali está bem. Além dessa importância indicadora, elas próprias contribuem com o que chamamos de trabalhos ecológicos, que são extremamente efetivos. Hoje calcula-se que 85% do que comemos, está envolvido direta ou indiretamente com esses seres. E agora, nós estamos dando um toque nacional nessas pesquisas e trabalhos, porque nosso foco nesse momento não são as abelhas estrangeiras e sim as espécies nativas. Um exemplo de abelha estrangeira é a Apis, conhecida por sua picada dolorida. Muitas pessoas no meio da meliponicultura acabam “colocando uma espécie contra a outra”, mas não acho que seja por esse caminho. Não vamos deixar de estudar e trabalhar com a abelhas estrangeiras, apenas vamos voltar nossa atenção para as abelhas nativas. Existem espécies de flores nativas, inclusive da nossa cidade, que só são polinizadas pelas nossas abelhas, então, caso isso não aconteça, essas espécies podem deixar de existir. A criação de abelhas é um ponto muito importante também para a educação ambiental, pois, quando falamos das abelhas, falamos também de flores, falamos de frutos e aí, acabamos tendo uma ideia de como tudo na natureza é interligado.


Ao final da entrevista, Maddu percebeu-se apaixonada pelas abelhas. Além de estar disposta a conhecer mais sobre essa magnífica espécie e seu mundo, fará o possível para colaborar na luta para sua preservação.


Algumas espécies de Abelhas Nativas:

Enxergandocompalavras: fotos de quatro espécies de abelhas: Uruçu, Mandaçaia, Iraí e Jataí, em diferentes atividades. Suas características físicas são o que mais as diferenciam.

Uruçu: são abelhas grandes, famosas por seu porte avantajado. Elas polinizam culturas de abacate, pimentão e pitanga e são encontradas na região Nordeste.


Mandaçaia: é uma abelha robusta e que poliniza culturas de abóbora, pimentão, pimenta-malagueta e tomate. Se adaptam muito bem às regiões sul e sudeste do país.


Iraí: abelha indígena, pertencente a tribo dos Trigonini, encontrada principalmente em zonas tropicais. Também constrói ninhos em muros de concreto, blocos de cimento e tijolos. Se adaptam bem à áreas urbanas.


Jataí: abelha indígena, pertencente a tribo dos Trigonini. Talvez seja a espécie mais criada racionalmente pela facilidade de adaptação em caixas e porque requer pouco espaço. Seu mel é denso e muito apreciado.


Para maiores informações: “Uso de Abelhas indígenas sem ferrão como fonte de renda e transformação social”


Início das atividades em: 03/08/2019


Referências:


Campus dá início à construção de meliponário. Novidade fomentará projetos de pesquisa e extensão.


Sem Abelha Sem Alimento


6 tipos de abelhas nativas do Brasil para você conhecer



Gestora ambiental e feminista. Acredita que a mobilização coletiva e o protagonismo individual são fundamentais para contribuir em pautas de interesse social. Seu mundo ideal é onde as pessoas valorizem menos bens de consumo e mais momentos incríveis. Adora ouvir simples histórias e não recusa café.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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