• Matheus Soares

A resposta soprada pelo vento: deixe o outro ser o outro

Engana-se quem pensa que é capaz de compreender o mundo assim, logo de cara. Quando o cálculo toma como base nossa cidade, nossa rua, nossa casa, o resultado é ainda mais inexato. Essa história de conhecimento fast-food das coisas não é tão palpável como parece. Todo aprendizado requer tempo. Quanto mais perto se chega de algo, mais difícil fica para compreendê-lo.


Nessa estrada barulhenta e frenética que estamos correndo, é fundamental parar para esticar as pernas e dar um merecido descanso ao motor do carro. Comprar um refrigerante, um suco ou um café. Tudo é válido para recalcular a rota e entender melhor os próximos destinos. Pensar pensando e pensar sem pensar.


Quantas estradas um homem precisará andar

Até que possam chamá-lo de homem?

Sim, e quantos mares uma pomba branca precisará sobrevoar

Até que ela possa dormir na areia?

Sim, e quantas balas de canhão precisarão voar

Até serem para sempre banidas?


Refletir não é privilégio de poucos, pois é algo muito mais natural do que a gente pensa. A filosofia, por exemplo, vista por muitos como um caminho dispensável, é uma teoria que cotidianamente faz parte de todas as nossas ações. Às vezes, se escondendo entre nomes e significados difíceis, foge ao nosso entendimento.


Você já ouviu falar, por exemplo, do termo hermenêutica? Pois bem, antes uma ciência da interpretação, hoje, remodelada, não carrega mais nenhum método. Liga-se, mais intimamente, a um modo de ser. A história conta que quando era difícil entender um texto, buscava-se a hermenêutica para simplificá-lo. Segundo essa teoria, era necessário entender primeiro o todo, e só depois as partes.


Quantos anos uma montanha pode existir

Antes que ela seja dissolvida pelo mar?

Sim, e quantos anos algumas pessoas podem existir

Até que sejam permitidas ser livres?

Sim, e quantas vezes um homem pode virar sua cabeça

E fingir que ele simplesmente não vê?


Como se sabe, a arte e a história contrariam a experiência de um método. Essa afirmação forçou a criação de uma distinta perspectiva da hermenêutica. Na nova fase, a compreensão de sua prática ganhou uma visão mais humanista e universal. Passou, então, a tentar entender o outro e a forma como nos interagimos. O que pode ser dito, de todas as maneiras, é linguagem. E esse é o ponto de partida da teoria. Ser o que se pode ser.


Uma das recomendações diz respeito a consciência geral de um fato e apresenta, entre outras lições, a de respeitar o que o outro pensa. Esse componente ético explicita algo que nos faz falta. Deixar que o outro diga é a regra, já que a experiência hermenêutica é infinita e possibilita uma constante abertura de si.


Quantas vezes um homem precisará olhar para cima

Até que ele possa ver o céu?

Sim, e quantas orelhas um homem precisará ter

Até que ele possa ouvir as pessoas chorarem?

Sim, e quantas mortes ele causará até saber

Que pessoas demais morreram?


Abdicar do direito de ter somente uma visão recai positivamente sobre a nossa objetividade. Experiente para a hermenêutica é quem está aberto ao novo. É quem, especialmente, dá espaço a qualquer estranhamento. Questionar as razões que nos fazem pensar de um e não de outro modo. Indagar ao subconsciente como são as raízes que nos integram. Perguntar sobre os mistérios do mundo e das utopias. Interpelar nossa razão única sobre o que pensamos e, sobretudo, de como gostaríamos de ver as coisas.


Não é surpresa para ninguém que governos deseducados e autoritários queiram aplacar disciplinas humanas tidas como inexpressivas e insuficientes. Alguns de seus membros defendem, inclusive, ações que sempre se apresentaram de forma mirabolante a nós. Nossas teses, contudo, também assim se apresentam a eles.


Aceitar as razões específicas que os levam a tal atitude não é fácil. Por isso, parar o carro e projetar-se no lugar de quem assim conduz seu modo de pensar é uma boa saída. É difícil, eu sei, e nem sempre resolve a situação. Mas é uma tentativa filosoficamente indicada.


Horizonte, como propõe a hermenêutica, quer dizer limite de visão, algo que não rompe barreiras. Por isso, os filósofos sugerem como hábito a fusão de horizontes, algo que nos desafia a ampliar nossa forma de pensar. Seguindo à risca as recomendações primárias e crescendo enquanto ser. Duvidar de tudo e ouvir: eis os desafios do Brasil.

Matheus Soares é publicitário, formado pela PUC Minas e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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