• Matheus Soares

A parte de um todo e o todo de uma parte

Atualizado: Jul 24

Não precisa muito tempo, basta olhar com atenção o seu cotidiano para perceber que sua maior companhia nessa quarentena tem sido a cultura. Não importa como, fato é que cada vez mais ela vem mostrando outras de suas virtudes. Alguns se acomodaram vendo séries e filmes americanos, por exemplo, outros se apropriaram do tempo vago para ler um romance, ouvir rap ou assistir uma novela brasileira.


Mas e a produção das pequenas e médias cidades? Como está lidando com a pandemia? Como estão se organizando as equipes de teatro? E os autores e palestrantes?


Na esfera local, o cenário não é tão bonito quanto o exemplo mencionado no início do texto. Especialmente para àqueles que produzem cultura. Com a proibição de todos os eventos, centenas de profissionais poços-caldenses viram minguar os ganhos que já vislumbravam.


É inevitável lembrar que perversamente a pandemia nos tirou, até aqui, a inspiração da Feira Literária de Poços de Caldas, a celebração da Festa de São Benedito e a eclosão de facetas artísticas do já tão conhecido Julho Fest, por exemplo. Eventos que davam sustentação financeira para vários profissionais da área e que foram adiados.


A produção cultural, em todas as suas esferas, sofreu um baque. Não há como negar. Não bastassem as dificuldades já enfrentadas pelo meio, outros obstáculos surgiram nesse caminho nefasto. As propostas entregues na Secretaria de Cultura em fevereiro, por exemplo, sequer foram avaliadas pois as datas de realização inviabilizariam a execução completa das atividades.

De fevereiro até julho, foram adiados seis editais. Foto: Divulgação/Prefeitura de Poços de Caldas

Recentemente, produtores culturais lamentaram o fato de não ter um representante entre as pessoas incumbidas de enfrentar os impactos do Covid-19 na cidade, em um comitê criado especialmente pela Prefeitura. A pressão foi tanta que muitos profissionais visitaram a Câmara, a pedido do vereador Lucas Arruda (Rede), para discutir iniciativas que poderiam substituir parte dos ganhos.


Na oportunidade, o secretário municipal de Cultura, Ricardo Fonseca Oliveira, lembrou que em meados de abril, o recebimento de editais passou a ser feito de maneira online. Destacou, ainda, a liberação de aproximadamente R$280 mil para o setor, valor esse que será dividido em quatro parcelas até setembro. Entre outras ações, uma iniciativa apresentada pelo secretário foi a elaboração de uma consulta virtual para a análise de necessidades emergenciais de artistas e fazedores de cultura.


O presidente do Conselho Municipal de Política Cultural, Pedro Cezar, entretanto, apontou que o valor disponibilizado é “muito baixo perto do que a cadeia produtiva da cultura precisa e movimenta”, em entrevista ao site da Câmara Municipal de Poços de Caldas. “A gente sugeriu a criação de um plano emergencial no dia 02 de abril, e agora, o ponto que a gente está é de ser convidado a construir propostas que já deveriam estar sendo pensadas”, ressalta Cezar.


A Prefeitura de Poços de Caldas abriu, então, inscrições para o edital “Poços curte em casa”, que está selecionando propostas de artistas locais para apresentações online e reduzidas. O projeto é uma das ações emergenciais criadas para o setor durante a pandemia.


Sem poder funcionar, o dinheiro deixa de circular não apenas para os que estão no palco. Dezenas de outras profissões, indiretamente ligadas às apresentações, sofrem ainda mais, como técnicos de som e iluminação, por exemplo.


Segundo o IBGE, quase 44% desses profissionais atuam de forma autônoma e não ter perspectiva num cenário tão misterioso quanto esse é um desafio e tanto. Ações do governo federal também estão sendo discutidas, mas pelo menos aqui na cidade, isso ainda não é uma realidade.


Nesse momento de pandemia, é ainda mais importante a ajuda do estado, especialmente pelo setor gerar empregos e promover uma cadeia econômica da criatividade e da distração. Encarada às vezes como um problema, a cultura pode ser a nossa salvação.


Matheus Soares é publicitário, formado em Publicidade e Propaganda e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social. Tem visto muitos filmes e alimentado o sonho de se tornar documentarista um dia.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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