• Maddu Martins

A linguagem que não pede licença e grita nas paredes da cidade

Atualizado: 18 de Jun de 2019


Grafite (s.f.): Inscrições feitas em paredes. Manifestação artística em espaços públicos. Rebelião tribal contra a opressão. Destruição moral. Vandalismo.


A arte do grafite nasce repleta de rótulos, que ao longo dos anos se modificaram conforme sua expansão e popularização. O grafite saiu dos metrôs e das galerias e museus de arte, para ocupar diversos outros espaços, cobrindo com seus traços e signos, ruas e cidades inteiras. Essa prática artística difundiu-se pelo mundo, em 1968, em um movimento contracultural, onde os muros da cidade de Paris serviram como suporte para inscrições poético-políticas.

A arte da Kueia colore os muros da Trincheira em Poços de Caldas – Foto: Gota Studio Art

A partir de então, o grafite se viu descoberto em diferentes contextos, tipos e estilos, que vão desde rabiscos e tags – que são as assinaturas dos artistas grafiteiros, geralmente utilizadas para demarcação de território – até grandes murais, realizados em espaços destinados a essa finalidade, e que quando concluídos, são classificados como verdadeiras obras de arte. Os grafites estão sempre associados a diferentes movimentos e tribos, como por exemplo, o Hip-hop. Nesse movimento, o grafite é uma forma de expressar a opressão vivida pelo povo, em especial os menos favorecidos e marginalizados. É um reflexo da discriminação, da pobreza e do sofrimento humano.


No ano de 1970, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, um dos mais célebres grafiteiros da atualidade, Jean-Michel Basquiat, despertou a atenção da imprensa com suas mensagens poéticas estampadas nas paredes de prédios abandonados em Manhattan. Seus grafites incluem símbolos de variadas culturas, referências a obras famosas e principalmente ícones da cultura e consumo americanos, relacionados ao contexto político e social. Os temas de seus trabalhos refletem suas angústias com questões como o genocídio, a opressão e o racismo.


Aqui no Brasil, o grafite também surgiu na década de 70, na cidade de São Paulo, em uma época em que a censura imposta pela ditadura militar silenciava constantemente a população brasileira. Paralelamente ao movimento que se iniciava em Nova Iorque, o grafite aparece como uma arte transgressora no cenário nacional. São os gritos que imprimem nas paredes os incômodos de toda uma geração.

O trabalho de Alex Senna na Rua Marechal Deodoro em Poços de Caldas - Foto: Gota Studio Art

Esse foi o primeiro passo para que a arte de grafitar se transformasse em um veículo de comunicação urbana extremamente importante. Pois, ela colabora com a existência de outras vozes e com a participação artística de outros sujeitos históricos e ativos. Dessa forma, o grafite é uma arte utilizada como crítica social, que interfere diretamente na cidade, democratizando os espaços públicos.


Assim, desde aquela época, os grafiteiros brasileiros se apropriaram do espaço público, com o objetivo de transmitir mensagens políticas, sociais, culturais, humanitárias e artísticas. O grafite torna-se um relevante instrumento de protesto e transgressão de valores estabelecidos. Quanto mais a arte saia de dentro dos museus e centros culturais, mais o grafite passava a ser visto também nas ruas, nos túneis e nos prédios da cidade, possibilitando a comunicação de culturas que coexistem; ou seja, facilitando dessa forma, o encontro do centro com a periferia.

O simbolismo da arte de Pedro Godoy e Diego Souza - Foto: Gota Studio Art

Existem inúmeros nomes importantes no grafite, seja no Brasil ou em outros países. Tendo como exemplo, o artista Alex Vallauri (1949-1987), considerado precursor do movimento em nosso país. Seus desenhos simples e objetivos chamavam a atenção estampando muros e paredes em meio ao caos urbano, o que facilitou muito a compreensão da mensagem. É possível citar ainda, outros excelentes representantes do grafite pelo mundo como: Keith Haring (EUA), Banksy (Inglaterra) e Lady Pink (Equador). Em âmbito nacional nomes como: Os Gêmeos (os irmãos Otávio e Gustavo), Eduardo Kobra e Negahamburguer, são inspirações para outros artistas.


A disseminação dessa arte pelas nossas terras brasileiras, portanto, foi rápida. Abrangendo também algumas cidades do sul de Minas Gerais, como é o caso de Poços de Caldas. Um exemplo, que ilustra muito bem como o grafite atualmente faz parte de nossa cidade, é a Semana Urbana, um evento promovido pelo coletivo paulista El Graffiti e pelo Studio Gota, que teve sua segunda edição realizada há algumas semanas, nesse mês de junho. A primeira edição desse evento, foi realizada em abril de 2018 e conquistou a comunidade poços-caldense.

A obra de Shineone foi responsável por dar mais vida à fachada de um depósito de embalagens – Foto: Gota Studio Art

Com o objetivo de apresentar a arte do grafite e muralismo, a segunda edição da Semana Urbana Poços de Caldas, demonstra como funcionam os processos criativos, históricos e educativos, além do envolvimento social e cultural que integram o grafite. A intenção do projeto, é proporcionar conhecimento e chamar atenção para essa arte de rua. O projeto colheu bons frutos, pois, a própria população da cidade deu um retorno muito positivo a essa inciativa.


A segunda edição da Semana Urbana de Poços de Caldas, traz consigo o mesmo propósito e a mesma essência do evento em sua primeira edição. Sua base ideológica é pautada no despertar da criatividade, na transformação do ambiente e na socialização e motivação da criatividade, proporcionando assim, a interação entre artistas locais e regionais e o contato da população com a arte de rua. O evento que teve início no dia 03/06, contou com o apoio da Prefeitura Municipal e com a participação de seis artistas convidados sendo eles, Filite, 3ª Visão, Obreta, Tiagão e Sopa de Letras. A segunda parte desse evento acontecerá de 25 a 30 de junho, dessa vez com Kaká Chazz, artista de Varginha (MG), como convidado.

Terminal intermunicipal recebe arte da dupla Tiagão e Zics - Foto: Gabi Marco Antônio

Vale destacar que esse tipo de projeto possui uma estrutura que depende diretamente de patrocínios e parcerias, porque é a partir daí que será definido quem serão os artistas convidados, como trazê-los até a cidade, qual será o tamanho dos murais e a quantidade de matéria prima utilizada em cada obra. Essa rica troca de experiências, a interação, o contato, agregam valores sociais e culturais para Poços de Caldas. E, tudo é feito com muito empenho e paixão pelos artistas e demais envolvidos, isso é evidenciado na fala dos produtores do Estúdio Gota:


“[...] o que move essa ação é a gratificação de poder contribuir para a cidade e para a população com um movimento cultural que tem o poder de dialogar com o público e sensibilizar individualmente cada espectador”.

E então, que tal perder a timidez e olhar nos olhos a arte de rua que colore sua cidade?


Referências:


Grafite | História das Artes


A arte do Grafite - Brasil Escola


Grafite (Arte Urbana) - Toda Matéria


Artistas promovem a II Semana Urbana Poços de Caldas


De 3 a 9 de junho tem Semana Urbana em Poços de Caldas - Gazetavg



Gestora ambiental e feminista. Acredita que a mobilização coletiva e o protagonismo individual são fundamentais para contribuir em pautas de interesse social. Seu mundo ideal é onde as pessoas valorizem menos bens de consumo e mais momentos incríveis. Adora ouvir simples histórias e não recusa café.

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© 2019 por Coletivo Paralelas. Poços de Caldas - MG.

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