• Ana Carolina Branco

A censura que deixa de salvar até 4 vidas

Se identificar como LGBTQ+ é sinônimo de resistência diária. A sigla abriga mais do que pessoas que não se enquadram na heterossexualidade, ela representa um grupo que luta rotineiramente com opressões, hostilizações, violências e agressões verbais. Setembro é um mês que marca parte dessa luta. No dia 23 se comemora o dia da visibilidade bissexual. Como forma de somar a essa luta, trouxemos um assunto importante e deixado "no armário" pela sociedade.


Em uma coluna passada, o Daniel Chagas abordou por aqui a hipocrisia escondida no preconceito contra pessoas LGBTQ+, expondo que, por exemplo, embora o Brasil seja o país que mais mata pessoas trans por ano, as buscas pelo termo "transgênero" em sites de pornografia são 57% maiores aqui, do que no resto do mundo.


Hoje trazemos uma relação direta de como esse preconceito enraizado impacta na vida das pessoas pessoas LGBTQ+ e como certos estigmas prejudicam a vida desse grupo, de coisas simples como andar de mãos dadas na rua até o assunto dessa coluna: homens gays e doação de sangue.



#Enxergandocompalavras: profissional segurando tubinhos vazios e colhendo o sangue de uma pessoa.

No Brasil, a política atual estabelece que: "homens que fizeram sexo com outro homem nos últimos 12 meses estão inaptos a doar sangue".

Isso significa que homens gays, mesmo que monogâmicos e que usam preservativo nas relações sexuais com seu parceiro, não podem doar sangue. Já pessoas heterossexuais ou até casais lésbicos, não possuem essa mesma restrição. A alegação é que os homens gays são considerados um grupo de risco para contrair HIV, por isso, a existência da restrição. A título de comparação, essa restrição é a mesma aplicada para quem fez sexo em troca de dinheiro ou drogas, sofreu estupro, teve relação sexual com portador de uma DST, foi preso por mais de 72 horas, fez tatuagem ou teve acidente com material biológico.


Essas restrições começaram a valer na década de 90, quando uma portaria definiu que homens gays eram proibidos de doar sangue, em qualquer hipótese. Apenas em 2002 a norma foi alterada, estabelecendo o critério atual. Naturalmente, há uma grande diferença na sociedade da década de 90 até os dias atuais. Então, por qual razão não devemos questionar algo que foi estabelecido naquela época? A incidência de HIV era bem maior, por conta da desinformação e a própria maneira como a sociedade enxergava os homens gays era diferente: como seres sem direitos e sem vozes para contestar injustiças.


Essa regra é discriminatória pois não analisa o indivíduo em si. Ela parte do pressuposto que ser gay, no geral, é oferecer um sangue com riscos. Julga-se o grupo todo como "inválido" e não saudável. E, ironicamente, quem sai perdendo com isso é a própria sociedade, já que ter estoques de sangue com boa capacidade é de interesse coletivo. Fazendo um paralelo com o título dessa coluna e chamando a atenção para a importância do ato, uma doação de sangue pode atender até quatro pacientes.


Existem países com um viés ainda mais abominável. Na Alemanha e na China, por exemplo, homens gays são banidos de doar sangue. Já em outros, como Portugal, Espanha e Itália, esse crivo não existe e homens gays podem doar seguindo os mesmos critérios de uma pessoa heterossexual. É bacana observar que, um estudo feito na Itália em 2013, mostra que ao passar a aceitar o sangue de homens gays, isso não impactou negativamente em nada. As taxas de sangue com HIV não subiram.


Um caso no Rio Grande do Norte se transformou em ato de luta nesse assunto. Em 2010, um homem foi barrado de doar sangue ao declarar ser homossexual e ter se relacionado sexualmente com pessoa do mesmo sexo nos últimos doze meses anteriores à entrevista. O rapaz moveu um processo contra o hemocentro, alegando que essa restrição era inconstitucional. O Tribunal de Justiça do RN acatou o processo e a decisão do desembargador Cornélio Alves ponderou que: “não há grupo de risco. O que existe são comportamentos de risco, como uso de drogas ou vários parceiros. E qualquer pessoa pode oferecer riscos no ato da doação. Não é por ser homossexual que isso vai ocorrer".


Você deve ter pensado que essa decisão gerou um impacto positivo nas doações futuras, correto? Errado. Meses após a decisão, um coletivo LGBTQ+ tentou realizar uma doação coletiva em Natal e, novamente, os homens gays foram impedidos de doarem. O hemocentro alegou que a decisão do processo valia apenas para o indivíduo que ganhou a causa e não para outros homens gays.


Por episódios como esse, podemos afirmar que não, essa proibição não tem por base a saúde ou a preocupação com a qualidade do sangue. Ela é discriminatória e excludente. Não há justificativa técnica quando a sociedade camufla seu preconceito. Uma rápida lida nos comentários de matérias que falam sobre o assunto confirmam isso:



#Enxergandocompalravas: comentários com falas preconceituosas como "eu não quero esse tipo de sangue" e "esses caras são podres".


Eu sou doadora de sangue. O que desejo é que os homens gays tenham os mesmos direitos que eu. A luta deles é a minha também. E, saliento que, para mudar essa situação, é sempre importante votar em candidatas e candidatos que contemplem a pauta LGBT+. Não há como eleger políticos que se divulgam com discursos preconceituosos e esperar o mínimo de empatia dos mesmos para que promovam transformações necessárias na sociedade.


Ana Carolina Branco é publicitária na vida de gente adulta. Como vegana e feminista, sonha e luta por um mundo melhor, livre de todas as formas de opressão. É uma otimista incurável e amante de boas prosas.

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