• Matheus Soares

500 dias

Caro presidente, não vou cometer a indelicadeza de lhe perguntar como vão as coisas, pois sei que há exatamente 500 dias o senhor está enclausurado e incapaz de fazer o que sempre fez: rodar o Brasil, conversar com o povo, articular estratégias políticas e atualizar-se sobre a realidade de nosso país. Tempos difíceis, presidente, também para quem está do outro lado.


Não é assim, é claro, que seus opositores encaram sua missão aqui. Ao contrário, pois duvidam de sua honestidade e colocam em xeque suas decisões. Talvez dissessem que está incapaz de fazer enganar os brasileiros, de ludibriar seus eleitores, de arquitetar planos de dominação e de dissimular-se sobre o que, de fato, se passa em terras tupiniquins. Eu até concordo, viu presidente, afinal, em múltiplas razões, o senhor nos deu muitos motivos.


Que o senhor conseguiu tornar-se uma ideia, como projetado em seu discurso antes de ser preso, é fato. Há em todos os cantos do país legiões de pessoas que acreditam com veemência em tudo o que o senhor diz. Eu assim o fui em diversas ocasiões. As razões para tamanha crença variam e naturalmente se submetem a virtudes como gratidão, respeito e admiração.

Tenho o 7 de abril, também para mim, como uma data muito importante. Um dia que simbolizava o início de uma era sombria e triste. Não porque se havia prendido o líder de um certo Partidos do Trabalhadores. Não porque, enfim, era colocado atrás das grades um homem que sempre defendeu o ideário da esquerda. Era sombria, sobretudo, pelo modo em que as coisas aconteceram. Os seres humanos mais sensatos percebiam ali algo de muito profundo. Prender rapidamente o político líder nas pesquisas não era algo comum, né?


Confesso que só depois daquele show é que me interessei pelo processo. Coloquei como desafio a brilhante tarefa de ler o que eu conseguisse ler sobre o assunto. Nessa pesquisa aparentemente desnecessária, encontrei juristas, juízes e especialistas que atestavam com convicção (e provas) que a sentença contra o senhor era injusta. Eu juro, mas juro mesmo, que tentei encontrar opiniões antagônicas que sustentassem com firmeza outras afirmações, mas juro, juro mesmo, não me convenci.


Não quero aqui colocar como verdade absoluta a minha percepção. Tenho encorajado amigos próximos a mergulhar em sua controversa história. O sentimento fugaz em abarrotar a discussão com uma opinião infundada é uma maldição dos tempos modernos, presidente. Por isso a importância, como o senhor mesmo sugere, da leitura não só dos fatos, mas da origem. Se informar sobre seu caso faz mais sentido quando nos atemos ao processo, coisa que até aqui não foi feito por alguns procuradores e juízes.

Não preciso citar todos os acontecimentos que nos levam a pensar que o senhor é vítima de um processo ilegal e temerário. Basta uma pesquisa rápida em espaços respeitados de nossa imprensa para compreender a arbitrariedade de tudo. As instituições fracassaram, presidente. Onde está a resposta para esse insucesso? Na ascensão dos pobres? No estímulo irresponsável no consumo? Na democratização do conhecimento? Na condução infeliz de nossa economia? Na transformação social da última década?


Tento todos os dias, presidente, praticar o exercício do contrário e buscar o que entra em conflito com minhas posições. No caso de seu julgamento, entretanto, tenho a impressão de que nada ali tem a ver com o modo em que vemos a política. Tem a ver, em suma, com o olhar que oferecemos à nossa democracia. Quem realmente leva a sério essa história de ser brasileiro sabe muito bem o que significa vê-lo preso.


Sei que isso tem a ver com uma aura maior do que a gente. Com, talvez, uma introspecção grosseira que leva algumas pessoas a acreditarem no ódio como mola propulsora das mudanças. Essa sensação estranha de não pertencimento é um convite ao pensar, não acha? Uma oportunidade de, talvez, revisitar o nosso passado, encarar os nossos erros e admiti-los, por que não? Bom, sei que não gosta desse assunto, embora já o tenha tocado em entrevistas recentes. O tempo, presidente, ao contrário do que parece, vai ajudá-lo a transformar a sua própria condição de homem comum.

O lance de ser novamente candidato a Presidência da República deu lugar a uma possibilidade incrível de o senhor se estabelecer de vez no posto das lendas. Seus opositores discordam, mas erram, a meu ver. Suas ações certamente já colocaram seu nome na lista dos maiores. O problema de ser lenda é que... sabe, te deixa longe da gente, de quem sempre acreditou em suas lutas. De quem não tem como prática cotidiana essa afeição mitológica dos deuses.


Espíritos livres. Era o que Nietzsche sugeria como possibilidade da ciência e da filosofia: a criação de seres humanos que pensassem além do que sua própria existência esperava. Papo chato, né, presidente? Mas na prática, é como pensar de forma transcendente. Entender que estamos juntos e com uma oportunidade gigantesca de destruir e construir as coisas.


Até porque, algo que nunca poderão tirar do senhor, é o fato de que conseguiu transformar realidades: a sua e a de milhões de brasileiros. E isso é fundamental para entender a nossa história recente. Só que o senhor às vezes nos dá a impressão de que brinca com essa confiança em nome de um certo endeusamento que criaram a partir de sua figura. O senhor não admite os erros que cometeu. E mais: não admite que precisa aprender. Experiência é confessar os desacertos. Ser mestre é ser aprendiz.

Estamos aprendendo aos poucos, Presidente, que essa história de mito, herói e salvador da pátria é a maior furada. O que nos deixa entusiasmados é ver programas de governo de longos prazos, metas e objetivos que visam a resolução prática de problemas e ideias que vão além de um mandato. Eu sei que é difícil, Presidente, mas o senhor mesmo comandou algo parecido com isso quando assumiu a Presidência, em 2002, lembra?


Gostaria que o senhor soubesse que apesar de todos os erros que cotidianamente nós apontamos no PT e em seu modo de conduzir as coisas, nós temos consciência das valorosas ascensões que tivemos ao longo de seus dois mandatos. Sua sucessora também nos concedeu muitas conquistas por meio de programas sociais que funcionam até hoje em muitas esferas.


Lembro-me de acompanhar os noticiários e ver seus discursos rodando o mundo, sua luta contra a miséria ganhando corações e almas e nossa, via ali algo de fantástico sob diversos pontos de vista. Com o tempo, percebi que realmente era algo fantástico, inédito em nosso país. O aumento real do salário mínimo, a ampliação do acesso ao Ensino Superior, os avanços significativos no SUS, as ações afirmativas que garantiram justiça a muitas pessoas, enfim, poderia aqui listar uma série de pontos positivos, mas o senhor, mais do que ninguém, sabe.

Fui beneficiado diretamente com o acesso a universidade, por exemplo, vi amigos na mesma condição e percebi no meu dia-a-dia as ações que praticava em seu governo. Hoje, com mais conhecimento de si e das coisas, compreendo que, embora sendo a razão uníssona da política, isso não foi comum em governos do passado. E concluo, portanto, que o senhor fez um mandato impressionante! Certamente as vozes atuais da resistência urbana nasceram dessa mesma perspectiva e dos caminhos que o senhor ajudou a trilhar.


Depois de feitos inimagináveis, o senhor se aliou a pessoas que jurou jamais negociar, bolou encontros com desafetos visando um interesse maior, escolheu uma mulher íntegra, mas inexperiente, para ocupar o seu lugar, entre outras decisões que visualizo com muita decepção. A junção, por exemplo, com as oligarquias arcaicas da política brasileira só enfraqueceu a tentativa conciliatória de seguir todas as linhas da estrutura fina do partido, assim quando o foi concebido. Mas isso não o fez vilão perante aos seus correligionários, tamanha a sua influência e habilidade em amenizar alguns acontecimentos.


Não sei até que ponto a governabilidade que tanto pregou nos auxiliou de verdade, pois hoje muitos são ingratos a ajuda que o senhor ofereceu. Acordos estranhos, mas que garantiram certa estabilidade em momentos adversos do mandato. Por que, presidente, ao menos não admitem que ascenderam em seu governo? Por que, por exemplo, as Forças Armadas não o respeitam mais?

Não me privo, presidente, de elogiá-lo. Assim também o faço para criticá-lo. O senhor entende, no fim das contas, né? Sua libertação significa, para mim e para grande parte da população brasileira, a continuação das lutas e da resistência. Não significa, é claro, uma esperança de mudança disruptiva no modus operandi do jogo político. É preciso ressaltar as novas lideranças! Livre, sei que certamente assim o fará. Percebo que não há outra maneira de salvar o seu partido e a política de esquerda.


Já falei demais, presidente. O que sei é que a história há de colocá-lo como uma figura inesquecível e dentro de um espectro positivo. Não sei, todavia, como a internet e as redes anti-sociais vão encarar seu nome nos livros didáticos. Com essa carta, serei atacado por não tocar em assuntos delicados de sua trajetória. Atacado por defender algumas de suas ações. Rotulado por quem tem preguiça de analisar friamente os fatos. Pouco me importa. Tenho consciência de minhas tentativas de acertar, e, principalmente, tenho certeza de que posso estar errado.


Sua história é muito grande e incapaz de aceitar ressignificações fakes e baratas. O senhor é um ícone, uma obsessão nacional para o bem e para o mal.

Espero que brevemente o senhor possa caminhar tranquilamente certo de sua inocência jurídica, convicto de sua experiência inexata e de seus equívocos. Desça dos céus, presidente e revele novamente a roupagem que o fez símbolo dos pobres.


Concordo que o senhor é uma ideia. Mas para mim, antes de tudo, o senhor é humano, demasiadamente humano.


Um abraço fraterno!

Todas as fotos apresentadas nesse texto são de propriedade do fotógrafo pessoal do presidente, Ricardo Stuckert.

Matheus Soares é publicitário, formado graças ao Prouni e ao Fies e apaixonado pela arte da escrita. Tem, entre seus sonhos, a criação de um espaço onde o diálogo seja sempre construtivo e a troca mútua de experiências contribua para um aprendizado político e social. Escreve cartas que não vão ser lidas e assiste entrevistas de Lula enquanto lava louças

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